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American Gods – S01E04 – Git Gone

“Em vida, você não acreditava em nada. Você irá para o nada.”

American Gods veio pra quebrar uma daquelas regras que a gente achou que durariam pra sempre: adaptações de livros muito complexos são ruins. Existem exceções, é claro, mas a regra se mantém com força em quase todas as tentativas. Mas o que tão fazendo nessa série é provar que é possível, e muito possível, adaptar um conteúdo e ao mesmo tempo acrescentar material a esse conteúdo sem perder a qualidade. Mas não se esqueçam. Por mais que esse episódio não pareça com o que vimos até agora, ele tá cheio de referências mostrando que isso tudo ainda é American Gods e isso tudo ainda é uma história sobre deuses novos e antigos. Fiquem de olho.

O início do episódio é direcionador, nos fazendo pensar que vamos acompanhar mais uma origem de mais alguma divindade, dessa vez uma egípcia, mas não é isso que acontece. Aos poucos, a cena vai nos guiando para uma mulher de gênio forte, crupiê de um cassino, que nós conhecemos como Laura Moon. Ela trabalha na mesa de blackjack e por lá passam diversas pessoas, todos os dias. Em um desses dias, Shadow aparece lá, com um semblante totalmente diferente do que conhecemos. Ele é mais aberto, mais alegre. Mas ele está lá para tirar a sorte, usando sua habilidade com as mãos para trapacear e ganhar mais dinheiro do cassino. O problema é que ele não é muito bom nisso, já que Laura repara rapidinho o que ele está tentando fazer. Podemos notar que rola uma química logo de início entre os dois, e talvez seja por isso que ela o tenha avisado de que seu plano não daria certo. Laura aconselha Shadow a desistir e ir embora, antes que mais alguém perceba o que ele estava tentando fazer e as coisas terminem totalmente diferente, de um jeito bem pior. Ele aceita o conselho e vai embora.

Mas ele esperou do lado de fora até o horário de saída dela, querendo saber porquê ela lhe disse que seu plano não daria certo. E ela explica, falando que ele não era muito bom nisso, e que ele era arrogante e idiota demais. Mas ele não desiste, e fala que da próxima vez o plano daria certo, já que dessa vez ele iria contar com a ajuda de alguém infiltrado. Eles continuam a conversa e Shadow acaba convidando a garota para tomar uma bebida em algum lugar. Mas ela não quer ir a lugar algum além da sua casa. E é então que Shadow se convida para ir junto.

Durante o início do episódio, há diversas citações à cultura egípcia, já que o cassino tem como tema esse assunto. Esculturas, pinturas, decoração, garçonetes vestidas a caráter, pirâmides. O kit completo. Além disso, Laura tem um gato, conhecido como o animal sagrado no Egito.

E vamos descobrindo a relação do casal, de maneira bem rápida, com conversas sobre o ‘o que há depois da morte’ e também temos a relação entre eles e seus amigos, Robbie e sua esposa. Não muito tempo depois, Laura e Shadow se casam, enquanto a conversa sobre sobre vida e morte continua. O interessante dessa discussão é que Laura fala que não acredita em nada disso, que não há nada após a morte e que o corpo apodrece e pronto. Mais do que tudo, ela é uma grande cética.

E a vida deles segue uma rotina bastante simples. Ele começa a treinar boxe na academia de Robbie, ela trabalha no cassino. Mas ela sempre parece distante, sempre com um olhar vago. E ela não é feliz, por mais que ame Shadow. E a rotina segue a mesma, até o momento em que ela decide que quer, ou melhor, precisa, roubar o cassino. Ela tá cansada da vida que leva, sem mudanças, sem evolução. Ela quer mais, e o cassino é a chance disso acontecer. Como ela trabalha no cassino há 8 anos, ela conhece todas as pessoas, sabe tudo o que as pessoas vão fazer, as falhas, os pontos cegos, tudo. E garante que Shadow não será pego. Mas algo aconteceu.

Com Shadow preso, eles precisam decidir qual vai ser o próximo passo. Laura quer assumir parte da culpa e ficar presa por metade da pena, mas Shadow discorda totalmente. Ele diz que apesar de serem seis anos de pena – e ele diz que vai sair na metade disso -, se Laura estiver lá para dar apoio, ele vai aguentar.

E ela dá todo o apoio que pode dar, mas a impressão que passa é que ela continua infeliz, ou até mais infeliz, com uma vida resumida a ir trabalhar e atender ligações a cobrar da prisão. Há uma quebra na rotina, que provavelmente mudou todo o resto. Laura chega em casa após mais um dia de trabalho e, depois de desligar a tv – processo que acontece todos os dias – ela percebe que seu gato, Dummy, está morto. Robbie trata de enterrar o gato e vai ver como sua vizinha e esposa de seu grande amigo está com toda a situação. Laura está bebendo vinho e não aparenta estar muito abalada pela situação – não que ela aparente estar abalada por alguma coisa -, mas Robbie dá um abraço nela, falando que a situação é difícil e que todos sentem saudades de Shadow. Depois de alguns segundos no abraço, eles acabam se beijando. Rápido como começou, o beijo termina e Robbie pede desculpas, que nem deveria ter feito o que fez. Mas Laura insiste, perguntando se ele realmente sente muito pelo que acabou de fazer. Aparentemente ele não deu muita bola, já que instantes depois tava chupando fazendo sexo oral na esposa do melhor amigo. E mesmo assim, enquanto isso acontecia, a expressão de Laura era nula, como se nada estivesse acontecendo e que tudo aquilo não fazia a menor diferença em sua vida.

Outro indício de que esse ainda é um episódio de American Gods é a presença de um corvo no poste em frente da casa de Laura. Mais abaixo, na casa, Robbie aparece e diz que inventou uma desculpa para poder ir na casa da Laura sem que sua mulher desconfiasse de alguma coisa. Essa cena me fez ter dúvidas do que Laura realmente sente por Shadow, já que ela pergunta pro Robbie o porquê dele estar lá, até ele admitir que foi lá porque queria comer ela de novo (palavras dela, não minhas). Mas ela nega, dizendo que aquilo foi um erro e que aconteceu uma única vez e que não vai acontecer de novo, até porque ela está esperando pelo Shadow. Robbie concorda, porque ela de fato está esperando pelo Shadow. Laura coloca a mão no peito dele e pede para que ele repita a frase. Após a repetição, ela convida Robbie para entrar.

Ela lida com toda a situação de maneira mecânica, fria. Shadow liga pra ela de novo, e ouvimos e lado dela da ligação na qual ele fala que faltam cinco dias para ele ser solto e também sobre a tempestade que ele sente estar chegando. Enquanto ela diz que ama Shadow, Robbie está deitado na cama deles, nu. Depois de desligar o telefone ela começa a se vestir e diz para ele se vestir também.

Na viagem de carro que vai terminar como todos já sabemos, vimos que dois corvos voam acima do veículo. Dentro dele, Robbie diz que vai largar sua esposa e que quer que Laura largue Shadow, para que eles fiquem juntos. Mas para ela, isso tudo não passou de uma brincadeira, de uma distração que tinha um prazo de validade. É visível que Robbie quer mais do que isso, que sente mais do que isso, mas é ainda mais evidente que Laura não quer e nem sente o que ele sente. Afinal de contas ela ainda ama o Shadow, não é mesmo? E tudo termina como começou, com uma chupada.

De cima, uma incrédula e descrente Laura observa a cena, percebendo que há algo depois da morte. E esse algo é Mr. Ibis e sua balança, pronto para pesar o coração de Laura. Mas ela se nega a passar por isso e coloca a mão na balança, dizendo que sabe que sua vida, seus acertos e seus erros, são mais pesados do que uma pena. Então, o que resta a ela é o limbo, é um vazio. Como ela não acreditava em nada, é para o nada que ela irá. Um lugar cheio de trevas. Mas de novo, ela se nega a ir para esse lugar. Ibis diz que não importa o que ela queira, que ela irá para esse lugar, não importa o que ela ofereça e não importa o que ela faça. Ela diz que quer voltar, mas ele diz que é inútil querer isso, que seu corpo já foi cortado pelos médicos, que lágrimas já foram derramadas por ela, que as pessoas já escolheram qual a roupa que vai acompanhar sua decomposição e que ela inclusive já foi enterrada. Laura, não aceitando tudo aquilo, manda a morte se foder. Chocado, Ibis olha para trás e percebe que ela não está mais lá e tudo que restou foi um brilho dourado no céu.

No final das contas, ela voltou. Acorda no seu caixão e cava até sair de sua cova. Ela olha ao redor e vê que está em um cemitério, onde foi enterrada. Ela percebe que o mundo agora é todo em preto e branco e a única coisa que tem cor é um ponto dourado, pulsante e brilhante, e ela sabe que é naquela direção que precisa ir. Chegando lá, ela vê que Shadow é esse ponto pulsante e dourado. Shadow que está enforcado em uma árvore.

Com muita facilidade, ela literalmente estraçalha os caras que espancaram e quase mataram o Shadow. A cena, com chuva e muito sangue, lembra algo que o Tarantino certamente acharia bem legal e tentaria fazer em algum filme. Laura não sente mais dor, mas em um momento é atingida e seu braço cai. Mas acredito que mortos não deem muita bola se pedaços de seus corpos caiam por aí, e foi bem o que ela fez. Pegou o braço e seguiu seu caminho, depois de salvar Shadow.

Apesar disso tudo, o ponto alto do episódio é o final. Os arcos finais são uma mostra de como essa adaptação tá sendo bem feita, inclusive quando trás elementos que não apareciam no original. Laura precisa colocar seu braço de volta no lugar e acaba indo na casa da Audrey e Robbie, onde pode costurá-lo de volta. Mas enquanto ela faz isso, Audrey chega em casa e se depara com aquela cena. Aos gritos, ela não acredita naquilo, acreditando que Laura era uma assombração. Depois de morta, Laura apresenta sentimentos que jamais teve enquanto viva, e com muita paciência tenta manter Audrey calma, evitando que ela chame a polícia.

O melhor jeito de lidar com zumbis é partindo pro humor, fugindo do já saturado lance de zumbis perseguindo pessoas pra comer seus cérebros. E é assim que American Gods decidiu lidar com esse lado inexplorado de Laura. Enquanto Audrey está trancada no banheiro, fugindo da zumbi/assombração, Laura diz que precisa entrar no banheiro e que não vai machucar a ex/atual melhor amiga. O que ela faz dentro banheiro? Abaixa as calças e senta no vaso, falando que o fluído de embalsamento saí por todos os seus buracos. E é nessa situação em que as duas conversam, sendo sinceras uma com a outra pela primeira vez não só na vida, mas também na morte.

Depois disso, Audrey costura o braço de Laura no lugar e elas partem em busca de Shadow, que é o raio de sol na vida/morte/semi-vida de Laura. Nesse momento, percebemos que finalmente ela começou a amar seu marido, que só agora o “eu te amo” é algo que ela diz de verdade, não por dizer. E enquanto pensamos nisso, um homem e um cachorro aparecem no meio da estrada. O cachorro se transforma em Ibis, que tem uma missão incompleta em Laura.

Ibis e seu parceiro de trabalho, Mr. Jackel, são donos de uma empresa funerária e lá eles cuidam de Laura, costurando seu braço de volta ao corpo, usando pinos para prender os ossos. Além disso, eles pintam a mulher, para que ela deixe de ter a coloração acinzentada que apresentava. Mr. Ibis diz que vai ajudá-la nessa busca que guia sua nova vida, mas que assim que ela cumprir sua missão, ele a levará para o lugar da escuridão. Mas enquanto esse momento não chega, Laura vai para o quarto do motel onde Shadow está hospedado e espera por ele lá. E ao abrir a porta, vimos como ela enxerga ele agora, como um brilho dourado pulsante, como um sol. Exatamente o que Zorya Polunochnaya disse que Shadow recebeu uma vez mas perdeu.

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Rafael Augusto

Um hiperativo que não sabe viver sem ler, escrever, ouvir música, ver séries e filmes, geralmente tudo ao mesmo tempo. Fã de ficção científica, suspense, Stephen King e histórias em quadrinhos.

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