“Cara, ninguém é normal…”

Realmente, se olharmos de perto, ninguém é normal. Sempre tem um detalhe, algo que o diferencia, que o traz uma característica única àquela pessoa. E no caso de Sam, ele tem muitos detalhes.
Sam tem 18 anos, está no último ano da escola, mora com os pais e a irmã, e é autista. É um rapaz muito inteligente, mas tem alguns problemas para se relacionar com o mundo, muito pela forma que ele o vê. Ele não entende muito bem meias palavras, tudo para ele é muito literal. Muito sincero, Sam não faz o tipo que mede palavras, ele não consegue perceber o momento em que não deve falar alguma coisa. Louco por pinguins e pela Antártida, ele passa a maior parte do seu tempo dividido entre fazer pesquisas na internet e em seu trabalho numa loja de eletrônicos. Ele não tem muitos amigos, Zahid, seu colega de trabalho, e Julia, sua terapeuta, são duas pessoas mais próximas, tirando sua família. Não é como que ele não queira ter amigos, ele apenas não consegue fazer amizades. Muitos não entendem suas diferenças e acabam fazendo piada com isso. E para ter pessoas assim por perto, é melhor que ele fique sozinho mesmo. Sam quer arrumar uma namorada e para tentar auxiliar, ele pesquisar vídeos e observa outros alunos na escola, anotando tudo em seu caderno.

Sua mãe, Elsa, é aquele tipo de mulher que parou a vida quando descobriu a doença do filho e devota todo o seu tempo para ajudá-lo, faz parte de grupos de ajuda e tenta protegê-lo de tudo o que possa acontecer, por mais que isso faça com que ela não tenha mais vida. Já Doug, seu pai, ele pensa que Sam deveria tentar ter uma vida normal, como qualquer rapaz de 18 anos, por mais que alguns problemas possam surgir com isso, mas Elsa não concorda e não consegue aceitar. Ela não consegue imaginar seu filho vivendo sem ser debaixo de suas asas e tenta evitar ao máximo que ele dê passos que o levem para longe dela. Casey, sua irmã, ela é uma atleta e sempre que pode defende seu irmão. É como o próprio Sam diz: ninguém pode bater nele, exceto sua irmã. Ela tem um senso de justiça e de certo e errado muito bem definido, por mais que isso traga consequências ruins. O que dizer de alguém que soca uma pessoa no meio do corredor da escola, porque estava praticando bullying com outro aluno? Bem, essa é a Casey. Achei incrível a relação dos irmãos, porque não pareceu forçado, nem para o lado de um amor gigantesco, nem para o lado de conflitos constantes. Casey ama seu irmão, entende suas diferenças, tenta ajudá-lo e protegê-lo, mas não deixa que esse amor que sente por ele a impeça de deixar que ele tenha suas experiências.

Numa seção de terapia, Sam diz que gostaria de ter uma namorada e Julia o incentiva, ela diz que seria interessante ele tentar, já que é algo em que ele está interessado. Sua irmã acha engraçado, seu pai acha uma boa ideia e sua mãe não quer nem cogitar a possibilidade, porque, pra ela, ele não conseguiria lidar com o um coração partido. Elsa tenta até mesmo falar com Julia, para que ela tire essas ideias da cabeça de Sam, mas Julia diz que seria bom pra ele. Ela acha que ninguém sabe lidar com Sam como ela, porque está ao lado dele há 18 anos, conhece e sabe que a qualquer momento ele pode ter um ataque de pânico, pode ter um surto ou qualquer outro problema, que tem pavor de cada ligação que recebe. E meio que tenta deixar Doug culpado, o acusando de não gostar do filho, porque não o vê tendo tanta preocupação assim. Ele rebate dizendo que ela não é a única que tem um filho autista, que ele tenta se conectar com Sam, mas às vezes não consegue ou não sabe como. Talvez o maior problema seja que Elsa deixou de ser mulher e esposa para ser mãe em tempo integral, sua vida é tão devotada a Sam, que qualquer atitude que não seja do mesmo nível da dela não parece boa o bastante. Então Doug entrega um folheto de uma aula de dança para Elsa e fala que ela deveria ter um tempo para si, a esposa aceita a ideia, vai para aula e depois para um bar com o pessoal. Lá ela se liberta, se sente como se não tivesse que lidar com todos os problemas de casa durante aquelas horas.E bem, ela conhece um cara… Nick é um bartender, que tem um espírito livre, vive sem amarras e faz o que passa pela cabeça, sem seguir muitas regras. Ela fica encantada por aquele estilo de vida, pela ideia de não ter preocupações e talvez pelo fato de não ter que se preocupar com tudo enquanto está ali, com aquele cara. E também pensando que Sam nunca terá a chance de viver daquela forma.

Uma das cenas mais interessantes do primeiro episódio, é quando Casey diz que a menina que ela socou na escolha é uma “puta” e Sam diz que algumas palavras ficam presas na cabeça dele de uma forma que ele só consegue pensar nelas, como num loop eterno. Então vemos a cena se desenrolar ao fundo, com todos os diálogos, enquanto ouvimos o pensamento de Sam tentar processar a palavra de forma incessante: “puta, puta, puta […], puta, puta”. A campainha toca e é a menina a qual Casey defendeu na escola, e enquanto elas conversavam, Sam vai até a irmã e grita: PUTA! Não que ele estivesse gritando com alguém especificamente ou querendo ofender, ele estava apenas colocando para fora aquela palavra que não saia de sua cabeça.

Na caminhada para arranjar uma namorada, Sam faz um perfil num site de namoro. Casey tenta ajudá-lo com as respostas, mas elas são sempre tão sinceras, que ela resolve inventá-las. Depois de uns dias ele consegue um encontro, ele queria levar a menina à loja de eletrônicos, pois ir para locais estranhos e barulhentos é complicado para ele, mas a menina quis marcar num café. Muito contrariado, ele aceita. A experiência é horrível, ele usa seu fone para abafar os ruídos e tenta imitar tudo que viu e anotou, mas nada dá certo. Numa outra tentativa, ele chama uma menina que estava na loja para sair e ela aceita, ele comem uma pizza no estacionamento da loja e ele fala um milhão de coisas sobre si mesmo. Inclusive que nunca fez sexo. E então a menina lhe fala: você quer fazer? Sam tem problemas com contato físico, ele não gosta de pessoas lhe tocando, então quando a menina tenta algo, ele a empurra para longe. Ela grita, perguntando se ele é louco, se ele é retardado. Mas ele não é nada disso, ele só é um pouco diferente, mas como qualquer outro garoto, ele não quer ficar sozinho.

E enquanto conversa com o seu pai, sobre como pinguins encontram um parceiro e ficam com eles pelo restante suas vidas, a gente sente que há uma conexão maior se criando entre pai e filho. Doug diz que está orgulhoso do filho arriscar, que ele vai aprender, que é bom garoto, que a mulher que ficar com ele, será uma mulher de sorte. Que ele precisa encontrar alguém que goste dele do jeito que ele é, com suas manias, suas imperfeições, que ame suas esquisitices e, principalmente, que o entenda. E é nesse momento em que Sam, talvez um pouco erroneamente, desenvolve uma pequena paixonite por Julia, sua terapeuta. A pessoa que preenche todas as características que seu pai comentou. E como um pinguim oferece algo quando escolhe sua parceira, Sam oferece seu cérebro para Julia, para pesquisas, mas só depois que ele morrer, é claro.

Thais Pereira
Thais Pereira

Feminista, leonina com ascendente em gêmeos e lua em virgem, viciada em memes, em Friends e problematizar na internet. Formada em História da Arte, mas consciente que nunca vai trabalhar com isso na vida. Normalmente eu escrevo e falo mais do que deveria. Eu mesma, Thais Mello.
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