Então é Natal em Black Mirror…

O episódio de Natal de Black Mirror traz três histórias distintas que se encontram através de dois personagens: Matt Trent e Joe Potter. Os dois personagens estão abrigados em uma cabana isolada no meio de um deserto de neve. Eles estão juntos neste local há anos, mas nunca tiveram uma conversa de verdade (o que já é estranho por si só). No Natal, eles decidem que é hora de quebrar o silêncio e revelar um ao outro o motivo de terem parado naquele local. É através desta conversa que conhecemos a primeira história do episódio.

Parte I

A primeira historia é focada na vida de Matt e em um dos seus “hobbies” em ajudar homens solteiros a conquistar mulheres atraentes. Todo o trabalho de Matt é feito com o “Z-eye” que é uma tecnologia avançada e irremovível implantada nos olhos das pessoas que permite, dentre outras coisas, que Matt possa ver remotamente o que o seu “cliente” está vendo e ainda enviar instruções de áudio. Dessa forma, ele é capaz de manipular encontros e, ainda como parte do seu hobbie, ele ainda conta com um grupo virtual de homens solteiros que assistem tudo que ele instrui expressando opiniões e sugestões. Ou seja, funciona como um grupo do Facebook, mas de forma mais avançada e com imagens em tempo real. Vocês já viram pessoas indo a grupos de Facebook expondo situações do seu cotidiano e pedindo dicas de como agir?

É um meme, mas exemplifica o que estou falando

Matt então conta quando “ajudou” Harry a tentar conquistar uma moça em uma festa. A moça em questão era Jennifer que apesar de ser muito atraente não interage com as demais pessoas da festa, sendo assim uma provável “presa fácil” para que Harry pudesse buscar algum tipo de envolvimento. Em determinado momento Jennifer escuta Harry conversando sozinho, mas ao invés disso afastá-la, isso a aproxima ainda mais do rapaz e acelera as coisas entre eles através de um convite para que Harry vá para a casa dela. Tudo parece estar indo bem, pois todos acreditam que Harry finalmente vai conseguir “se dar bem” e ter uma noite sexual.

O que parecia ser uma noite divertida na verdade se torna uma noite de morte, pois Jennifer na verdade se revela como uma mulher bastante problemática e com tendências suicidas. Ela escuta vozes que a incentivam a cometer suicídio e ao ver Harry falando sozinho, ela deduziu que ele passava pelo mesmo transtorno que ela. Enquanto Matt não sabia o que se passava ele chegou a incentivar que Jennifer ouvisse as vozes que falavam com ela, achando que a estava incentivando a seguir seus desejos sexuais, mas Jennifer ouviu o que ele disse e acabou matando os dois envenenados, o que deixa Matt e seus amigos extremamente encrencados por estarem envolvidos em uma cena de homicídio.

Ao descobrir em que Matt estava envolvido, sua esposa discute feio com ele e o bloqueia através do “Z-eye” fazendo com que ele vire um apagão em sua vida e que eles não possam mais se comunicar. Isso revela um outro lado dessa tecnologia apresentada no começo do episódio. O “Z-eye” funciona como uma rede virtual, mas com consequências reais para a vida das pessoas. Através dele, a esposa de Matt o manteve afastado de sua vida com apenas um clique. Isso é algo muito comum nas redes sociais, ois quando não queremos lidar com alguém que nos faça sofrer ou que nos cause qualquer tipo de incômodo, apenas bloqueamos e ela simplesmente some de nossa vida virtual. Mas, Black Mirror levou o “bloqueio” para um patamar além onde as pessoas somem de fato de sua vida, como se nos quisesse mostrar um paradoxo entre a vida real e virtual.

Parte II

A segunda parte do episódio é a mais forte e impactante. Ela mostra a história de Matt em seu verdadeiro emprego. Para exemplificar é exibida a história de Greta que é uma mulher rica que resolve contratar os serviços de Matt. O serviço consiste em extrair uma consciência virtual dela mesma para que essa trabalhe realizando tarefas cotidianas de forma personalizada.

Apesar de extremamente útil, para que o programa extraído funcione é necessário convencê-lo a trabalhar, pois é realizada a extração de toda a personalidade e memórias do proprietário, no caso Greta. Ou seja, é criado um ser virtual, mas que tem a consciência, memórias e personalidade de uma pessoa. Essa consciência é colocada em um cookie e é então submetida a várias torturas psicológicas para que não tenha mais qualquer vontade própria e execute as tarefas que lhe são atribuídas.

Assim sendo, Matt, mesmo que em uma via virtual, trabalha torturando pessoas e da forma mais natural possível. É impossível não se sentir angustiado vendo aquele ser artificial sendo isolado por anos e passando por inúmeras torturas para que se torne obediente. Essa parte do episódio traz a tona uma discussão antiga sobre a inteligência artificial, já vista inclusive em filmes consagrados como “Her/ela”, “A.I. Inteligência Artificial”, “O homem bicentenário” e “Ex-machina”. Afinal, podemos definir sentimento apenas como algo orgânico?

Parte III

Após Matt se abrir completamente, e devido o efeito da embriaguez do vinho, Joe finalmente resolve contar sua história. Acontece que Joe teve um relacionamento com Beth e, ao descobrir que ela estava grávida tiveram uma discussão, pois ela queria fazer um aborto. Inconformado com a decisão de Beth, ambos discutem bastante o que culmina em Beth bloqueando Joe e sumindo de sua vida completamente no dia seguinte. Beth agora se torna uma imagem turva aos olhos de Joe em qualquer lugar que ele a aviste, porém, após algum tempo ele consegue perceber que ela resolveu não abortar a criança e fica desesperado para fazer parte da história de seu filho.

Apesar de receber uma ordem de restrição da polícia, Joe prossegue tentando saber como é a vida do seu filho (qual ele descobre que é uma menina). Ele escreve muitas cartas que são completamente ignoradas e, por isso, ano após ano, ele passa a aparecer escondido nas reuniões de Natal de Beth e seu pai em uma cabana. Sua filha também aparece bloqueada, pois o efeito do bloqueio de Beth foi transmitido para a criança. Assim, ele segue ano após ano deixando presentes anônimos para sua filha no Natal. Porém, certo dia ele descobre que Beth morreu em um acidente de carro e, com isso, o bloqueio chegou ao fim. Assim, ele se dirige para a casa do pai de Beth com um globo de neve para presentear sua filha e finalmente conhecê-la, mas ao chegar lá descobre que sua filha tem aparência asiática, o que o leva a perceber que ela foi fruto de uma traição de Beth com Tim. Isso explica o motivo dela querer um aborto. Joe então confronta seu ex-sogro e numa discussão acaba o matando com o globo que levou para presentear sua filha.

Todo esse drama mostra a complexidade de ignorar os problemas sociais que passamos. Beth não teve coragem suficiente para enfrentar seus erros e resolveu apenas ignorá-los e apagá-los de sua vida, o que causou um final trágico para essa história e uma vida extremamente sofrida e destruída para Joe. Black Mirror mais uma vez aborda esse tema numa perspectiva futurista, onde as pessoas podem simplesmente sumir de fato da vida do outro. Isso não difere muito dos relacionamentos atuais, onde as pessoas não se preocupam mais em sequer terminar um rolo ou dizer um ‘não’ para uma pessoa. É comum nos depararmos com fins de relacionamento através de bloqueios em redes sociais ou simplesmente em ignoradas. Tenho quase certeza que você, caro leitor, já esteve, já fez ou conhece quem já passou por esse tipo de acontecimento. É cada vez mais comum fugirmos de qualquer “problema” a mais em nossa vida apenas o ignorando ou eliminando de nosso caminho como se ele nunca tivesse existido. Mas, até que ponto isso é saudável?

Conclusão

Ao final do episódio, descobrimos que Joe também foi responsável pela morte da criança, que, após a morte do seu avô e abandonada por Joe naquele local, congelou sozinha do lado de fora da cabana. Além disso, Joe e Matt na verdade são consciências artificiais de ambos feitas para extrair a verdade de Joe e incriminá-lo pelo que aconteceu naquela cabana. O cookie de Joe fica então aprisionado naquela cabana (que é a mesma onde ele cometeu o assassinato) por um período de mil anos ouvindo a música “I Wish It Could be Christmas Everday” e vendo a menina morta através da janela da cabana. Valendo destacar que quanto mais ele tenta se livrar daquele castigo, mais ele piora.

Matt, por sua vez, estava colaborando com a polícia para diminuir sua pena pelo crime de sedução ilegal e pela tentativa de ocultar o assassinato de Harry (na primeira parte da história). Matt então foi liberado, mas sua sentença era de ser bloqueado definitivamente por TODAS as pessoas. Assim, Matt termina sua história sem poder interagir mais com as pessoas pelo resto de sua vida.

Assim, o episódio de Natal se Black Mirror chega a sua conclusão sendo um dos mais perturbadores até então produzidor. Assim como em “White Bear“, o episódio foca em criminosos ganhando nossa empatia e ao fim sendo condenados com uma sentença extremamente cruel e sádica. O que, mais uma vez, nos leva a refletir sobre os limites das punições. Além disso, a inserção do Z-eye e dos cookies nos fazem refletir sobre as possíveis consequências nocivas do avanço tecnológico caso a sociedade ainda esteja contaminada por problemas sociais.

Nyegirton
Nyegirton

Sarcástico e bêbado sempre que possível. Ama um bom meme e uma problematização. Apaixonado por humor, suspense, terror e trêta. Professor nas horas vagas.
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  • Leandro

    Porra, episodio fantástico!!!!

    Adoro as criticas de voces!

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