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Black Mirror – S01E02 – 15 Milion Merits

Quando 1984, Admirável Mundo Novo e o presente se encontram.

Dando continuidade a uma perturbadora estreia, com intercourse entre o primeiro ministro e um porco em rede nacional, o segundo episódio de Black Mirror não deixa a desejar.

Somos apresentados a uma realidade alternativa, não tão distante da nossa, em que os seres humanos são escravos, pedalando o dia inteiro, não se sabe dizer exatamente porque (talvez seja para gerar energia e tenha começado com essa saída de Trump do acordo para diminuir a emissão de gases poluentes) e vivendo num cubículo, rodeado de telas, ambientes virtuais, pornô e anúncios.

A episódio é bem o que se espera de um sci-fi, tem o futurismo e o correlacionável com nossa época. Além de levantar múltiplas questões sobre a sociedade que estamos construindo (essa parece ser a constante da série, uma visão negra do que somos). Entre elas, me chamaram atenção:

– Alienação pelo trabalho.

O episódio lembra bastante 1984, de George Orwell, que havia construído uma sociedade bem parecida com a em questão. Assim como na de Orwell, o trabalho é usado como forma de controle, deixando os cidadãos ocupados maior parte do dia, e nas poucas horas vagas oferecendo migalhas de uma vida baseada na ilusão, virtual, consensualmente como melhor, futuro.

No mundo que vivemos atualmente, poucos podem se dar ao luxo de estarem na profissão que realmente querem, e por vezes optamos pela que dá mais dinheiro, ou pela que deu certo, ou na que tá horrível, mas é a única que dá. No ep, as pessoas parecem não ter opção, e será que nós, realmente temos? Ou já nascemos para trabalhar e morremos para trabalhar (bjs aposentaria aos 65), com ansiados finais de semana, chega logo férias e odiadas segundas feiras (sinônimo do trabalho) no meio?

É aquela coisa, se a prisão é confortável, que me importa liberdade. Me dope com carro do ano, roupas de marca, ap mobiliado, Instagram ou mais nova rede social joguinho Candy Crush do momento que eu estudo, trabalho, pedalo o quanto que tiver.

Numa deliberação de greve, ao ver uma multidão de estudantes gritando fervorosamente em alto e coro: Estudar e trabalhar! (x1000), me lembrei na hora do ep. “Isso é tão Black Mirror.”

– Alienação pela mídia.

Nesse mundo há um programa de Tv alá British Got Talent, com seu próprio Simon Cowell. As pessoas pedalam para conseguir méritos, e com milhões deles poder tentar uma chance nesse show de calouros. Se dar bem nesse show, o que é quase impossível, dá a ilusão de única chance de vida possível, fora daquela monótona repetição de dias.

Globo mandou um beijo, há mais de 50 anos ditando padrões de comportamento, com suas novelas pomposas glamurizando a classe alta, o supérfluo, realidade que não condiz com a da maioria dos brasileiros, os incentivando a buscar esse padrão.

Em 1984, a alienação se dá pela unilateralidade de informações, direcionadas apenas para um ponto de vista, enquanto em Admirável Mundo Novo, de Aldous Houlex, a alienação se dava pelo excesso de informações, que tornava tudo muito banal. Os dois contextos são contrários, mas se encaixam perfeitamente no nosso caso. Há um excesso de informação, mas falta vitamina.

No ep, não parecem haver muitas opções de entretenimento. Mas uma ideia particularmente me assustou. E se o pagamento do futuro for por meio de comerciais, obrigatórios de assistir para quem não tem dinheiro para pular? Não é difícil imaginar tal ponto chegando, propagandas do Spotify já tão aí.

– Prostituição pela mídia.

Ao conseguir os méritos para a amada chegar ao programa, nosso personagem principal jamais imaginaria o que a esperava. A possibilidade do participante ser designado ao ramo pornô não tinha sido apresentada até o momento, o que chocou bastante. E pior, ele depois tendo que aguentar ver o vídeo dela em ação, sem poder pular por não ter méritos. Pesadelo de futuro.

Que as mulheres são jogadas como carne para mídia, nenhuma novidade. Até o final do século passado era comum atrizes, cantoras terem que passar pelo sofá para conseguirem papeis. Para chegar lá, se sabia, tinha que ter dado. Hitchcock mesmo “pegava” todas suas principais, e nacionais como Vera Fischer, Ju Paes e outras sofrem desses boatos.

Homens também não estão imunes. Sofrem menos no abuso sexual, pois não são hiper sexualizados como as mulheres. Mas todos têm que acabar se vendendo e moldando para o que a mídia quer. A exemplo de RC, que teve um início de carreira brilhante no rock, para com ascensão da ditadura, virar amigo dos oficiais, mudar para gênero romântico brega agradando as donas de casa e garantindo uma cadeira no plim plim eternamente. Até medalha de condecoração do exército o cara ganhou.

Mais recente temos Valesca Popozuda, que pulou de Quero te Dar e Agora Virei Puta para versões clean sem palavrão e Carol Conka, que pregava feminismo (de base socialista) para depois fazer comercial na Avon e vender sua marca de chaveiros por 120$ para uma jovem de 16 anos.

Depois de fazer sucesso e atingir certa repercussão, aquilo que te tornava original, único, acaba lapidado para as massas. Para o que todo mundo gosta. Nosso protagonista aprendeu de uma triste forma. Seu discurso foi de tirar o folego, aterrador, silencio da plateia sem saber o que pensar, para aplaudir só depois de que um jurado categorizou como o melhor visto até então.

Conseguiu seu programa semanal, mas acabou um fantoche, na mesma que havia parado, apenas com um vislumbre melhor, de uma floresta. Aqui parece ser outra constante em BM. Não há espaço para finais felizes. Terminamos com uma reviravolta e um sabor amargo na boca, angustia. Triste do jeito que só essa serie sabe nos deixar. Se ver no espelho nunca doeu tanto. E olha que nem sou tão feio.

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  • Bruna Alves

    Sua review é muito Black Mirror!
    Amei ❤

    • Robson Abrantes

      Ain muito obg Bruh, sua fofa.
      E amay sua ft, tão Black Mirror!

Robson Abrantes

Engenheiro civil na semana, escritor wannabe nas horas vagas e sonhador integralmente. Nem de exatas nem de humanas, renascentista. Reinventando-se desde 92. Inconformista. Cinéfilo. Cosmopolitan. Shitalker. Teve seu 1º contato com o mundo das séries nas madrugadas do SBT, vício que não conseguiu largar desde então.


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