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Black Mirror – S02E01 – Be Right Back [SEASON PREMIERE]

Como pode algo amar, sem ter a capacidade de sentir?

Martha e Ash são um jovem casal com a vida inteira pela frente, deixaram a cidade e estavam de mudança para o interior. E quando ele volta para a cidade para devolver a van, que usaram para transportar seus pertences, ele sofre um trágico e fatal acidente. Ela, agora longe de tudo e todos, se vê completamente sozinha naquela casa. No funeral, uma amiga da família diz que conhece algo que a ajudaria a lidar com a perda, mas ela desconversa. Martha não quer falar sobre, porque, claramente, ela não está conseguindo e nem querendo lidar com nada no momento. Mas mesmo assim a amiga a inscreve num programa estranho, que a principio ela ignora. O programa utilizaria as postagens de Ash nas redes sociais para forjar um “Ash virtual”, com o qual Martha poderia conversar sempre que quisesse. Os dias passam, mas a dor não. Só que as surpresas não param por aí, porque Martha descobre que está grávida. Ela não consegue lidar com tudo sozinha e vontade enorme de dizer ao falecido amado que espera um filho dele faz com que ela resgate o email e acesse o programa. A principio eles trocam algumas mensagens, como se fosse um bate-papo. Depois ela envia vídeos que tinha dele e o programa faz um mapeamento da voz de Ash, tornando possível que eles conversem pelo telefone.

Martha deveria viver seu luto e quando estivesse pronta, tentar seguir com a sua vida, mas ela se agarra a essa cópia virtual de Ash, como se a sua sanidade dependesse disso. Eles conversam o dia todo pelo telefone, ela ignora tudo e todos que tentam entrar em contato. A vida dela passou a girar em torno daquele “sistema operacional”. Até que ela deixa o celular cair e ele para de funcionar, sua reação faz parecer como se ela tivesse perdido Ash para sempre de novo. Nesse momento vemos o quão presa e dependente a essa cópia ela está, e como isso exerce poder sobre ela. E é nessa hora também que o “Ash virtual” comenta que há uma opção de upgrade: ele deixaria de ser virtual e seria real. Ela, desesperada, aceita, é claro. Quem não iria querer uma nova chance de ver, tocar, sentir a pessoa amada? Só que depois que o “novo Ash” é ativado, Martha começa a questionar suas próprias escolhas porque, mesmo que pareça com o seu Ash, aquilo ali é só uma cópia dele, que imita expressões, coisas que ele poderia falar ou como poderia agir. Mesmo muito parecido, ele nunca seria o Ash. Com mais álcool que deveria em seu corpo, Martha acaba deixando a saudade falar mais alto e passa a noite com o “novo Ash”, percebendo o erro que cometeu no dia seguinte, quando sua irmã a visita e encontra roupas de homem no banheiro. Ela diz que está feliz que Martha está seguindo em frente, mas se ela soubesse que o homem em questão é uma cópia do seu falecido cunhado, perceberia que a irmã precisava de muita ajuda.

Martha surta e expulsa o “novo Ash” da casa e ele passa a noite do lado de fora, porque não pode se afastar do ponto de ativação sem o seu administrador, que no caso é a Martha. Então ela pede que ele se vista, porque vão sair. Eles caminham até um penhasco que existe perto de casa, onde Ash já havia comentado que casais se jogavam num ato louco de amor. E chegando lá, ela pede que ele se jogue. A principio, ele diz que não, porque nunca teve pensamentos suicidas, mas depois parece que iria seguir as ordens dela. Mas Martha diz que se ele fosse mesmo o Ash não pularia, ele gritaria, diria que não queria morrer. Então o “novo Ash” faz exatamente disso, dizendo e implorando para a amada, falando que não quer morrer, que quer viver. E ela se sente como se estivesse ali tentando matar seu próprio marido. E Martha surta novamente, sem saber o que fazer, sem conseguir separar completamente o que é real, do que é virtual.

No começo do episódio nós descobrimos que Ash tinha um irmão que morreu e a mãe lidou com a morte dele e, posteriormente, do pai colocando todas as fotos deles no sótão, como se isso fosse fazer a dor passar. E num exemplo claro de que o mundo gira e tudo é cíclico, Martha lida com o “novo Ash” da mesma forma: trancando-o no sótão. Isso mostra que, mesmo tendo a atitude de conseguir desvincular a sua vida do ex-marido falecido, esse vínculo ainda existe, pois o android ainda está lá, cumprindo seu papel de fingir momentaneamente que é o Ash. E Martha acaba levando a filha para o mesmo caminho, pois a menina também tem contato com a cópia do pai. E esse contato provavelmente não será bom para a criança.

Esse episódio me fez pensar em diversas coisas, tal como: 1. relacionamentos virtuais; 2. quem somos nas redes sociais x quem somos na vida e 3. inteligencia artificial x sentimentos. 1. Quando Ash morre e Martha descobre que pode manter contato com ele, ela se desconecta do mundo real e passa a viver naquele mundo virtual onde ele ainda existe. Seus outros amigos e familiares não possuem tanta importância, ela passa mais tempo conversando com ele, do que vivendo. Isso mostra como relacionamentos virtuais nos fazem perder contato real com as pessoas, pois muitas vezes deixamos de nos relacionar ou buscar relacionamentos diretamente, para fazer isso através de aplicativos e redes sociais. Como se o contato humano não fosse tão necessário ultimamente.

2. Quando Martha passa a conversar com falso Ash pelo computador e telefone, as coisas que ele lhe respondem são retiradas daquilo que ele postava na internet. Mas será que todas essas postagens retratam perfeitamente quem era o Ash? Provavelmente, não. Todo mundo é sempre muito legal na internet, não existe mau humor, não existe impaciência, a internet é o reino das aparências e da felicidade produzida. Então quando o “novo Ash” ganha vida e não corresponde ao que o antigo costumava ser, Martha percebe que aquele android é e sempre será apenas uma cópia mal feita do homem que ela amava.

3. Se levarmos com consideração o filme “Her” (2013), onde Theodore, um homem divorciado e que não aceita sua separação, se apaixona pela inteligencia artificial (AI) do novo sistema operacional de seu computador, Be Right Back é a sua evolução, mesmo sendo lançado antes. No filme, a AI Samantha também se diz apaixonada por Theodore, mas como uma máquina pode amar, pode sentir? Em Be Right Back, após dormirem juntos, Martha diz que ama Ash, claramente ainda envolvida pelo momento e fora de si, mas ele responde: “Eu também te amo.” Em Her, Samantha diz a Theodore que é apaixonada por ele e por mais outras mil pessoas. Será que eles amam ou foram autoprogramados para amar? Será que algo que é programado é verdadeiro?

Desapegar de algo que amamos é difícil, ainda se esse algo é alguém que partiu. Porém, se não houver um mínimo esforço para manter a cabeça no lugar, podemos acabar perdendo coisas ainda mais preciosas: nós mesmos e nossa sanidade.

 

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Thais Pereira

Feminista, leonina com ascendente em gêmeos e lua em virgem, viciada em memes, em Friends e problematizar na internet. Formada em História da Arte, mas consciente que nunca vai trabalhar com isso na vida. Normalmente eu escrevo e falo mais do que deveria. Eu mesma, Thais Mello.


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