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Black Mirror – S03E02 – Playtest

E você, do que tem medo?

Entre os treze episódios já exibidos de Black Mirror, talvez Playtest seja o “menos problemático”, ele levanta poucas questões, mas isso não faz dele inferior aos demais. Muito pelo contrário, ele é, na minha opinião, um dos melhores. Playtest é quase um thriller psicológico, devido sua temática, a forma com que foi gravado e por ser bem aterrorizante. Ele não traz nenhuma grande questão social como plano de fundo, é mais o uso da tecnologia de forma pesada em nossas vidas e num campo onde ela está cada vez mais avançada: nos videogames. Mas talvez ao grande vilão desse episódio seja algo que está dentro de cada um de nós e que nos conhece melhor do que ninguém: nosso próprio medo.

Cooper é um americano que está numa viagem de volta ao mundo, meio que tentando fugir da própria realidade. O pai morreu depois de anos lutando com o Alzheimer e ele cuidou dele até os últimos momentos. Agora vive com a mãe, mas ele não tem tanta intimidade, então ele sente a necessidade e escapar. Mas eu vejo que essa fuga é a primeira demonstração de medo dele. O Alzheimer é uma doença genética e eu sinto como se ele temesse acabar como o próprio pai, então ele busca experiências de vida, antes que a sua própria mente o traia. Nisso ele viava para India, Espanha, França, Austrália e encerra sua volta ao mundo na Inglaterra, onde conhece Sonja no Tinder. Eles passam a noite juntos e na manhã seguinte Cooper descobre que clonaram seu cartão, impossibilitando assim sua volta para casa. Ele pede abrigo para Sonja e procura um emprego num aplicativo com oportunidades pera viajantes. Uma em especial chama atenção por pagar bem e ele se interessa, é para testar um novo jogo da companhia SaitoGemu.

Quando Cooper aceita participar do experimento e vê que há alguns procedimentos médicos inclusos, ele já fica meio desconfiado, mas ele precisa do dinheiro. Então liga novamente o celular que tinha desligado, tira uma foto e envia para Sonja. No inicio é tudo muito tranquilo, apenas um jogo simples, com um animação 3D, mas depois oferecem um novo jogo que está em teste, que vai testar o medo de cada um. É implantado um chip na base do pescoço, onde carregam as informações. Esse novo jogo mexe diretamente com o medo do jogador, ele usa sua própria mente para te assustar. Ele lê suas informações, busca coisas que se fazem sentir medo e faz com que você as encarem, como quando Cooper tem que enfrentar as aranhas. O sistema identificou o medo de aranhas que ele tinha e fez com que aparecessem, mas ali ele pode encarar seu medo, porque elas não podem o ferir. Porém, por ser um jogo completamente adaptável, ele vai buscando novas formas de te assustar, se baseando em suas reações, assim sempre encontra uma forma melhor (ou pior) de te assustar.

O sistema vai se desenvolvendo de forma inesperada, a comunicação com o centro de controle é interrompida e Cooper recebe uma visita de Sonja. Ela aparece para dizer que ele está em perigo, que ele precisa fugir, mas ele está certo que ela faz parte apenas de sua imaginação. Só que ele consegue tocá-la, sentir o calor de sua pele, coisas que não eram possíveis com nada do que tinha aparecido antes, mas quando ela o ataca, ele percebe que tudo aquilo é parte do jogo e tudo se torna muito real pra ele. Ele sente a dor da facada que ela deu em seu ombro, mesmo a facada não sendo real. Cooper tenta encerrar o teste e dizem que ele precisa ir até o ponto de acesso no andar de cima. Ele sente que tem algo de errado, acha que vai ver a mãe dele do outro lado da porta. E então a gente percebe o quanto ele se sente culpado pelo relacionamento complicado que tem com a mãe. Por mais que as coisas estejam estranhas entre ele, talvez o maior medo dele, naquele momento, seja perder a mãe. Talvez seja por isso que ele pensou nela justamente naquele momento. Só que não tem mãe do outro lado, não tem nada. Ele está surtando, está ouvindo coisas. O sistema se enraizou em seu cérebro de uma forma que não há como desligar. É como se o Alzheimer tivesse o encontrado cedo demais: ele não sabe onde está, quem é, como fazer para voltar para casa. Talvez o seu medo tenha se tornado realidade.

Uma das melhores parte de Playtest é que sempre que pensamos que acabou, não acabou. Somos levados ao momento de ativação do chip, mostrando que tudo o que tinha acontecido no episódio durou apenas alguns segundos dentro da cabeça de Cooper, o jogo ainda estava intenso demais e desligaram assim que ele começou a gritar. Eles encerram o teste, ele volta para os Estados Unidos. Assim que chega em casa, ele procura pela mãe, que está no quarto, falando sozinha, dizendo que precisa falar com Cooper, saber se ele está bem. Ela olha pra ele, mas é como se não reconhecesse. Parece que ela também tem Alzheimer e está completamente esquecida, só que entre os gritos de “mãe, mãe, mãe” de Cooper, somos trazidos de volta no tempo mais uma vez, para o momento no primeiro teste, onde ele ligou o celular para tirar a foto. Sua mãe ligou no início do procedimento e após apenas 4 segundos, o celular deu uma interferência no sinal e causou sua morte. E sim, culpado como aparentava desde o início, Cooper morreu gritando “mãe” repetidamente.

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Thais Pereira

Feminista, leonina com ascendente em gêmeos e lua em virgem, viciada em memes, em Friends e problematizar na internet. Formada em História da Arte, mas consciente que nunca vai trabalhar com isso na vida. Normalmente eu escrevo e falo mais do que deveria. Eu mesma, Thais Mello.


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