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Black Mirror – S03E03 – Shut Up and Dance

Antes de começarmos, estão todos com as câmeras de seus computadores devidamente cobertas? Estamos bem? Então vamos lá.

Shut Up and Dance é um dos melhores/piores episódios de Black Mirror, porque é daqueles que te faz pensar, porque é dos mais possíveis de se tornar real num espaço curto de tempo, já que qualquer pessoa com acesso a internet pode ser vítima de hackers, ter informações pessoais roubadas e depois ter chantageado por isso. Aliás, não é isso que já vemos acontecer, de certa forma? Pessoas mal intencionadas tem acesso a informações/vídeos/fotos comprometedoras, ou até mesmo filmam e tiram fotos tendo isso já em mente, e usam desse artifício para conseguir coisas para si. Quantas mulheres não tem suas vidas destruídas por conta de em revenge porn? Por causa de um homem que não aceita um término e se acha no direito de compartilhar coisas pessoais, a fim de apenas causar humilhação daquela pessoa que jurava amar momentos antes? Vivemos em tempos estranhos, meus amigos. E é para escapar da desgraça pública que seguimos a trajetória do nosso protagonista, Kenny.

Kenny parece um cara normal, trabalha, vive com a família, mas tem a viva virada de cabeça para baixo, quando a irmã usa seu computador, mesmo ele tendo deixado claro que ela não deveria fazer isso, e acaba baixando um vírus qualquer. Sua primeira atitude é uma que qualquer um teria: baixar um antivírus que retire aquele vírus. Só que o programa que ele baixa, vem com um malwere embutido, que dava acesso a webcam do computador e a desgraceira começa. Porque Kenny é filmado enquanto se masturba em frente ao computador e depois é ameaçado de ter o vídeo espalhado para todos da sua agenda de contatos, consequentemente pela internet, caso ele não siga todas as instruções que lhe derem.

Ao longo do episódio, Kenny encontra com outras pessoas que também estão sendo chantageadas pelos hackers e todos estão cumprindo com o que foi solicitado que eles fizessem. Inclusive Hector, que se torna o companheiro de Kenny nessa jornada, eles recebem instruções para fazer diversas coisas juntos, como dirigir para outra cidade e roubar um banco. Aliás, a cena que precede o roubo é uma das mais intensas de todo o episódio, mesmo sendo simples. Nós vemos o descontrole emocional de Kenny quando ele urina nas próprias calças ao saber o que precisarão fazer. Eles precisam confiar um no outro, pois, se um deles não cumprir com a sua parte, ambos terão seus pobres jogados na rede. Hector foi filmado no meio de um encontro com uma prostituta. Ele diz que foi um erro, que ama sua esposa, mas que se ela descobrir, vai embora com os filhos e ele não pode deixar que isso aconteça. Mas, convenhamos, se ele amasse a esposa, não teria transado com outras, né? Nem tentem a carta da necessidade masculina, porque isso não cola, mas seguiremos.

E nesse momento a gente para e pensa: será que tudo isso é realmente necessário, será que não seria mais fácil para esses personagens enfrentarem aquilo que fizeram, ao invés de se submeterem às ordens dos hackers? Será que seus pecados são mais graves que um assalto? Sabemos o que Hector fez, sabemos o que Kenny fez. Um traiu a esposa e o outro estava se tocando vendo um vídeo na internet, não vale a pena arriscar ir preso apenas por isso. É engraçado como começamos a relativizar as coisas, fazer comparações, de qual erro é pior, mais grave, mais perdoável. Porque uma traição é bem menor que um assalto, até porque não é um crime. E uma masturbação não é nada comparada com um roubo. Então uma pergunta rodava a minha cabeça: por que Kenny continua seguindo essas ordens? O que ele está escondendo?
Até que eles recebem as instruções que devem levar o dinheiro até uma parte afastada da cidade e Kenny precisa levar sozinho até mais em frente. Lá ele encontra outro homem, também mantido de refém, e recebe uma mensagem que diz que eles precisam lutar até a morte. Ou seja, tudo aquilo estava indo longe demais. Primeiro um assalto, depois um homicídio. E vemos que, a partir do momento em que Kenny se dispõe a fazer parte disso, há muito mais do parece.

Quando Kenny desce a colina, entendemos que ele foi até as últimas consequências e que não havia salvação para o que ele tinha feito, que naquele ponto já sabíamos que era algo mais que apenas se tocar vendo um pornô qualquer. O telefone toca e temos a mãe de Kenny gritando do outro lado da linha: “Por favor, Kenny, me diz que não é verdade.” Estão dizendo que ele fez coisas. E coisas envolvendo… crianças. Kenny não estava se masturbando com um pornô qualquer, ele estava vendo crianças, talvez pornografia infantil. E o homem com quem ele teve que lutar também estava envolvido com isso. Então ele percebe que nada do que ele fez adiantou, porque colocaram o vídeo na internet de qualquer forma, talvez esse fosse o plano desde o início. Apenas provocar o terror, conseguir manipular as pessoas como se fossem marionetes, brincar com o seu psicológico. Por punição ou, talvez, apenas por diversão. Enfim, a polícia o encontra com a arma e o dinheiro do assalto, e ele vai preso.

O que é bom e o que é mal, até que ponto os hackers deveriam agir? Deveriam ter feito todas aquelas pessoas passarem por aquelas situações, ou deveriam apenas ter encaminhado as imagens para a polícia? Seria uma forma de usar o fato de estarem anônimos, protegidos pelas barreiras da internet, livre de possíveis punições, para fazer justiça com as próprias mão? É fácil virar e bradar que eles deveriam fazer todos sofrerem pelo o que fizeram, já que alguns estavam envolvidos com traição, discurso racista e até pornografia infantil. Longe de estar defendendo aqueles que foram pegos fazendo coisas erradas, só que vivemos em tempos tão extremos, que eu paro e penso até que ponto podemos e devemos agir por contra própria apenas por termos poder para tal. Estamos vivendo num momento onde as pessoas se sentem promotores, júri e juízes nos tribunais da internet. Julgando e condenando tudo e todos, de acordo com o seu próprio juízo de valor. É uma guerra de poder, uma queda de braço interminável, onde o mais fraco sempre vai perder, sendo ele culpado ou inocente, vítima ou não. É aquela máxima: manda quem pode, obedece quem tem juízo.

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Thais Pereira

Feminista, leonina com ascendente em gêmeos e lua em virgem, viciada em memes, em Friends e problematizar na internet. Formada em História da Arte, mas consciente que nunca vai trabalhar com isso na vida. Normalmente eu escrevo e falo mais do que deveria. Eu mesma, Thais Mello.


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