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Black Mirror – S03E04 – San Junipero

“Heaven Is A Place On Earth”.

“San Junipero” é considerado por muitos como o melhor episódio da terceira temporada de Black Mirror – inclusive, os próprios responsáveis parecem compartilhar desse pensamento, já que este foi o episódio escolhido para representar a terceira temporada do seriado nos Emmys deste ano – mas ainda assim, ele é inusitado, tomando caminhos contrários ao que fomos habituados a esperar de Black Mirror.

E talvez essa seja sua principal marca. “San Junipero” demora a te mostrar que estamos presenciando o “futuro”, pois figuradamente se passa (numa recriação do que seria) nos anos ‘80. E a princípio você sabe que tem que haver algum tipo de influência tecnológica/corrupção de valores permeados pelas mídias atuais em algum momento, mas também se deixa levar pela atmosfera nostálgica da cidade de San Junipero.

De ponta pé inicial somos apresentados à  Yorkie, uma jovem discreta, que encaixa perfeitamente no estereótipo de “weirdo” (“esquisitona”, em bom português). Ela parece ser uma turista na cidadezinha, e enquanto desajeitadamente tenta se encaixar no ambiente, dá de cara com a espevitada e light-hearted Kelly. Então nos damos conta que é em cima dessa relação que o arco da história irá se desenvolver.

Existe toda uma química entre as duas garotas e de imediato já nos vemos torcendo pra algo sair dali. Mas como esperado, isso não vem de forma tão dada. Yorkie sente-se intimidada com a presença exuberante de Kelly e reluta a deixar-se levar. E é apenas após uma semana que ela decide ir atrás de seu novo interesse romântico.

E é nessa busca que temos o primeiro contato com o aspecto futurístico do episódio. Yorkie é aconselhada a procurar por Kelly em “outra década”, pois ela já foi vista nos anos 80, 90 e até 2000. Para muitos a ficha caiu tão logo quanto o terminar da frase, mas confesso que eu ainda fiquei bem “hmm, que?” no momento.

Ao longo de semanas, Yorkie percorre diversas décadas à procura de Kelly, o que me levou a princípio a pensar que se tratava de viagem no tempo, olha que mente previsível! Rola todo aquele papo de “ah, eu sou bicho solto, tô morrendo e quero aproveitar a vida sozinha”, mas no fim das contas elas dormem juntas sim e Kelly diz que quer encontrar Yorkie na “realidade”.

Claramente, já não tinha mais como não compreender o que estava acontecendo. “San Junipero” (assim como as outras cidades de outras épocas) trata-se de uma realidade virtual, onde pessoas fazem o login e podem viver suas vidas cibernéticas out loud, no maior estilo “Second Life” dos anos 3000 (o ano lá é 2040, no entanto, rs).

Não demora muito para termos uma visão panorâmica de toda a situação e do verdadeiro “plot” do enredo. Yorkie é uma senhora tetraplégica que está morrendo em um asilo, ela visitava “San Junipero” como um test-drive para o que pretendia após sua morte. Assim como muitos nesta realidade, Yorkie optaria por ter sua mente vivendo eternamente dentro da realidade virtual, enquanto seu corpo real iria morrer (uma coisa bem “Avatar” mesmo). Como ela precisaria da autorização de algum parente próximo e isso não seria possível, o enfermeiro Greg estava disposto a casar-se com ela e então assinar a autorização, realizando o desejo final de sua amiga.

Já o dilema de Kelly é um pouco mais complexo do que uma assinatura. Embora ela realmente goste de Yorkie e adore todo o tempo que passam juntas, Kelly já viveu uma vida, já teve um amor verdadeiro, já experienciou o amor incondicional de ser mãe; mas teve tudo isso tirado de si com a morte de sua filha, antes da criação e implementação do mais real e palpável “vida eterna após a morte”, o que afetou seu casamento e levou seu marido à optar por não viver eternamente na realidade virtual após sua morte.

E acho que talvez esse seja o kicker subliminar de “San Junipero”. A tecnologia avança e cresce, cria raízes e toma proporções cósmicas, sempre nos levando em direção ao infinito. Ao infinito, o que de forma bem sutil nos leva à questão de “brincar de Deus”.

Quem estudou história sabe que lá pela época medieval, a Igreja Católica vendia indulgências, você pagava uma quantia de dinheiro e teria um terreno reservado para si no céu, na vida eterna após a morte. Basicamente, “San Junipero” é a retratação desse “conceito” de forma não-abstrata e plenamente possível.

Mas vamos voltar ao epicentro do dilema de Kelly. Seu marido e sua filha não irão voltar e ela sente que optar por ficar em San Junipero com Yorkie é como trair e abandonar sua família. Yorkie transita completamente para “San Junipero”, enquanto Kelly continua a visitá-la periodicamente à medida que espera por sua morte final e irreversível.

Você se sente no meio desse dilema também, parece tão certo elas ficarem juntas ali, afinal de contas, foi à essa história que fomos apresentados, não vivenciamos nada da backstory de Kelly com seu marido e filha. Partimos do momento em que ela conhece Yorkie, e é a essa história que estamos apegados.

Mas em contrapartida, é impossível deixar de se colocar no lugar de Kelly. Viver uma vida eterna ao lado de quem ela ama (sua 2ª chance) ou continuar apegada a ideia de fidelidade à sua família?

O fato é que, optar por não transitar para San Junipero não vai trazer sua família de volta, nada irá trazê-los de volta. E agora, Kelly tem a oportunidade de ser feliz de uma nova maneira. E indo bem contrário aos típicos finais Black Mirror, Kelly escolhe sua segunda chance!

Finalmente fomos apresentados à um final onde a tecnologia foi utilizada para o bem. Onde ela não acabou por corromper pessoas e destruir vidas, mas sim, proporcionar uma segunda chance à duas pessoas que já sofreram bastante em um primeiro ciclo. Você finaliza o episódio com um baita sorrisão no rosto e com vontade de gritar “FINALMENTE, PORRA!”.

Então, pra fechar com chave de ouro, vamos lá: FINALMENTE, PORRA!

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Luana Medeiros

Imagine só que um dia me foi perguntado quem eu era, e juro, até hoje não sei responder. Mas os fatos são: tenho 21 anos; sou de escorpião; amo meu cachorro e meu gato mais que tudo; estudo Rádio/TV/Internet, ouço Maroon 5; piro no Adam Levine; consigo colocar os pés atrás da cabeça; e – contraditoriamente – por fim, nasci de 7 meses.


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