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Black Mirror – S03E06 – Hated in the Nation

Game Of Consequences: #DeathTo

Um dos maiores problemas da tecnologia, as mídias sociais, foram retratadas em vários episódios passados de Black Mirror, em especial no episódio “Nosedive” que explorou a compulsão de popularidade que as redes sociais podiam causar nas pessoas. Dessa vez, o episódio explorou o assunto de uma forma mais ampla e com um enredo ainda mais tenso e complexo que os demais, num tom de suspense que me lembrou muito o episódio “White Bear“, até porque ambos trataram sobre a questão do “ódio compartilhado”, digamos assim.

O último episódio de Black Mirror foi o mais longo entre todos os exibidos até então, foram aproximadamente 89 minutos de duração. Eu me senti assistindo um filme, por conta da sua longa duração e o enredo bastante complexo que podia render até mesmo uma temporada completa para uma série. A história tem uma narrativa que nos prende, por conta dos vários plot twists durante o episódio, quanto mais tempo vai passando, mais a gente vai descobrindo uma história ainda mais complexa que nossas teorias conspiratórias podiam imaginar. Particularmente, esse foi um dos meus episódios favoritos ao lado de “Shut Up And Dance” e “White Bear“, todos episódios com um enredo que me fizeram questionar o limite do que é certo e errado, além de nos fazer questionar até onde as atitudes podem ser consideradas justas ou extremistas.

Então, vamos conferir mais uma review de Black Mirror e problematizar um pouquinho sobre os questionamentos que o episódio nos trouxe.

A história de Hated in the Nation tem seu pontapé inicial com a detetive Karin Parke indo dá seu depoimento sobre um terrível caso de assassinatos que ela participou das investigações. Junto com sua nova estagiária Blue, elas foram as responsáveis pela investigação dos assassinatos em série de alvos de ódio na internet. A primeira morte foi a da jornalista Jo Powers que publicou em sua coluna um artigo bastante polêmico fazendo severas críticas a uma ativista cadeirante que ateou fogo em si mesma para protestar contra o corte dos benefícios das pessoas deficientes. A segunda morte tratou-se de um rap bastante rude, Tusk, que virou notícia e alvo de ódio nas mídias sociais por conta da forma rude que tratou um garotinho que era seu fã na TV. As duas mortes além de terem em comum o ódio que as vítimas tinham conquistado nas mídias sociais, ambas mortes foram causadas por umas abelhas artificiais intituladas de IDA (Drones de insetos autônomos), produzida pela empresa granular. Essas abelhas estavam sendo hackeadas por alguém e atacavam as vítimas em um local estratégico, causando profunda dor a ponto de que era uma dor tão absurda que as pessoas preferiam se matar do que ter que aguentá-la.

Blue se mostra uma profunda entendedora das tecnologias, perspicaz ela logo faz associações a esse crime a um macabro jogo popularizado nas redes sociais chamado Game Of Consequences, onde as pessoas postavam a #DeathTo com o nome de um alvo odiável e que o mais votado seria morto, sendo que naquele ponto duas dessas pessoas já haviam tido sua sentença decretada. Tentando salvar a possível terceira vítima do jogo, dessa vez com o agente da NCA (Agência Nacional do Crime), Shaun Li que também entrou pro caso. Mesmo com todas as tentativas de salvar a garota Holli que foi a odiada da vez, por conta de seu desrespeito num monumento dedicado aos mortos da guerra, as IDA’s acabem conseguindo fazer mais uma vítima, para desespero da detetive e de sua estagiária.

A quarta vítima da vez era o chanceler do Tom Pickering, o mesmo que curiosamente fez os cortes de benefícios que resultaram no suicídio da cadeirante que é a mesma do artigo polêmico da colunista Jo. Interrogando os ex’s funcionários da Granular, Karen conhece a história de Tess, trabalha no RH da empresa e curiosamente a mesma também já tinha sido vítima desse ódio descontrolado nas redes sociais, por conta do seu erro ao acusar de assédio um homem com dificuldades de aprendizagem. Todo esse ódio em Tess acabou resultando numa tentativa de suicídio que foi impedida por seu colega de quarto Garret que também trabalha na Granular, mas esse trabalhava justamente com IDA’s. Fazendo a ligação entre as vítimas dos assassinatos e a história de Tess, Karen logo desconfia do tal Garret que tem suas suspeitas confirmadas com a descoberta de um manifesto digital que continha na IDA que matou Jo, aliás esse documento além de mensagens bastante controversas, continha um selfie do próprio assassino.

Através da selfie do próprio assassino, Blue consegue rastrear a localização da foto que tinha sido tirada há seis meses. Chegando no local eles não conseguem encontrar o assassino, mas encontram uma unidade de disco, contendo um sistema de controle da IDA com a opção de desativá-las, além de uma lista com aproximadamente 387 mil pessoas. Nesse momento é que temos um plot twist do plot twist, porque na verdade o alvo do assassino não eram as pessoas mais votadas nas hashtags e sim as pessoas que participaram desse macabro jogo. Como o próprio nome dizia, era o “Game Of Consequences” e as pessoas que se sentiram no direito em escolher a morte de alguém, dessa vez iam pagar com sua vida aquilo que acreditavam ser sua liberdade de expressão. Karen bem que desconfiou de tudo, mas na sede de resolver tudo aquilo, Shaun “desativa” a IDA e com isso ativa para que elas cumprem o verdadeiro objetivo de todo esse jogo, que seria matar todos o que utilizaram a tal #DeathTo. Foi um verdadeiro massacre, um caso de segurança pública que chocou todo o país e em especial daqueles que acompanharam de perto todo os passos desse jogo sórdido.

O final do episódio temos Karen terminando seu depoimento e falando sobre o destino de Blue após as investigações, no caso o possível suicídio dela após o seu sumiço, já que Blue se sentia culpada por ter caído na pista falsa implantada pelo assassino. Saindo do julgamento, Karen recebe uma mensagem dizendo “Got Him“, no caso toma mais um plot aí. O falso suicídio de Blue na verdade foi uma forma dela desaparecer sem deixar pistas, partindo para uma busca solitária contra o Garret, o assassino de milhares de pessoas. O episódio persegue com a Blue seguindo Garret e deixando em aberto o desfecho dessa história.

Refletindo sobre o episódio

A série tem esse poder de nos apresentar um futuro não tão distante, mostrando os perigos que a tecnologia causa na nossa sociedade. O ódios nas mídias sociais é algo que já vivemos nos dias de hoje, já vimos várias notícias tristes envolvendo racismo, ódio gratuito, bullying e até mesmo suicídio. As pessoas se escondem atrás de uma tela e por conta da falsa sensação de anonimato e o perigoso “liberdade de expressão”, sentem-se no direito de opinar e julgar as pessoas da forma que querem, sem preocupar-se com a linha tênue que existe entre liberdade e libertinagem. Liberdade de expressão está bem longe de ofender alguém, todos temos o direito de expressar suas opiniões, mas de forma que sua opinião não ofenda ou denigra a imagem de outra pessoa.

Nos dias de hoje, vivemos um verdadeiro inquérito popular, onde as pessoas se sentem no direito de condenar ou absolver as atitudes dos que se encontram em evidência. Os realities é uma boa prova disso, programas como BBB e A Fazenda colocam pessoas numa casa para concorrerem a um prêmio em dinheiro, nesse meio período eles são observados atentamente pelo público e cada semana passam pelo juri popular, onde as pessoas decidem quem merece continuar na competição. Mas quais são os critérios usados para definir quem fica? Se olharmos bem a lista de vencedores e participantes populares, lidamos dos tipos mais variados como machistas, homofóbicos, racistas, agressores, entre outros tipos bem inusitados. É bem estranho e contraditório ver certos tipo de pessoas exaltadas nesses realities, numa sociedade que se diz tão conservadora e defensora dos morais e bons costumes, mas casos como esses mostram uma sociedade bastante hipócrita. Fazendo um paralelo com a série e a realidade que vivemos, as mesmas pessoas que julgam são as mesmas que um dia vão virar o alvo, apontar o dedo para alguém é o mesmo que se expor e permitir que também te apontem o dedo.

Todos precisamos sim questionar, criticar e até mesmo protestar contra certos tipos atitudes, não podemos aceitar ou nos calar diante de qualquer tipo de preconceito, crimes hediondos, corrupção, entre outras atrocidades, porém também você perde sua razão ao ser extremista em seus comentários, nada justifica uma ofensa pessoal ou até mesmo mensagens abusivas e ameaçadoras. Seja qual for o alvo, sendo ele digno de repúdio ou não, o correto é deixar que os tribunais façam seu julgamento, justo ou não é ainda esse poder que mantém a ordem e o limite em fazer justiça com as próprias mãos. Tem que se manter no direito de criticar as atitudes de alguém, mas nunca no direito de oprimir alguém, seja qual for o motivo.

Bem, encerro por aqui a review. Em breve a Netfilx lança a quarta temporada de Black Mirror, já que eles até já divulgaram o teaser e o nome dos episódios. Fiquem ligados no Panelas, estaremos cobrindo essa quarta temporada, sempre com nossas reflexões a partir do que o episódio nos propõe como discussão. Até breve e cuidado com o que você publica em suas mídias sociais!

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Michel Araujo

Meio baiano, meio sergipano, já passou dos 20 anos e um sofrido estudante de engenharia, com uma personalidade cheia de atitude e uma leve ousadia. Viciado em séries, realites e músicas, vai me encontrar sempre por aí escrevendo reviews, numa diversidade de gêneros de série e programas de TV.

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