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Black Mirror – S04E01 – U.S.S. Callister [Season Premiere]

Um novo e brilhante futuro estreiam a nova temporada de Black Mirror.

Com uma legião de fãs conquistados no último ano, e direito até a um bordão próprio, finalmente Black Mirror está volta. A espera pela data de retorno foi longa, mas chegou a hora de refletir sobre o futuro que estamos construindo e ficar deprê ao final de cada ep, como só BM sabe fazer. Prontos para ver se ver nesse espelho distorcido?

Quase um filme, o ep inicial se passa em parte no espaço. Em uma mistura do conto de Harlan Ellison publicado em 1967, “I Have No Mouth and I Must Scream” (“Eu Não Tenho Boca e Preciso Gritar”), com o clássico dos anos 60, Star Trek (mesmo as roupas são iguais). Tem nave, tripulação e missões, no maior estilo sátira. A diferença aqui, é que o mundo real, como conhecemos, ainda se faz presente. O espacial é apenas a realidade virtual de um jogo, onde seu criador tem poder total sobre o mundo e seus participantes.

Pouparei detalhes no desenvolvimento do enredo e vou focar mais nos assuntos abordados nesse ep. Até que foram poucos, quando comparados a outros. Entre eles:

Mecanismos de defesa: O comandante Daly sofre de evidentes problemas psicológicos, entre eles alguns mecanismos de defesas comumente usados para lidar com emoções desagradáveis. Daly não consegue: conviver em sociedade, ter a confiança e segurança necessária para viver a vida que ele quer, se impor perante os outros e mais. Isso faz com que ele, frequentemente, sinta ou ache que está sendo passado a perna, foi feito de besta, que é desvalorizado, rebaixado pelos demais. E essa repressão de pensamentos conflituantes têm de ir para algum lugar. Seja extravasando no externo (em alguém, em algo), ou no interno (subconsciente, super eu). Aqui é nas aventuras e tripulantes da nave.

Lugar que se tornou seu refúgio. Os vídeos games podem servir como essa válvula, mas trocando o jogo em si, pela imaginação, não há diferença no uso dos recursos. Quantas vezes, em nossa mente, não estrangulamos o chefe que não deu moral ao nosso trabalho suado? A constância desse estado pode levar a uma grave crônica de alienação, na qual a realidade não mais importa, apenas o que se passa na cabeça.

Subestimamos demais doenças psíquicas. Lutar com demônios internos, pode ser bem mais difícil que lutar contra o corpo. Ponto para a série, por não ter tratado o tema como algo simples, culpa exclusiva dele. Por ter respeitado esse distúrbio tão comum, e usado palavras mais que adequadas e elevadas: “Ele precisa é de ajuda.”

Feminismo: Cumprindo a proposta dessa 4º temporada de trazer mulheres fortes como protagonistas (já estava me sentindo enganado no início ao ver Daly dominando), BM traz também uma quebra no gênero sci-fi, acostumada com seus homens comandantes e mulheres em segundo plano de minissaia. Somos nerds Nutella do século 21 e a revolução chegou. Para derrubar o patriarcado, acabar com abusos e dar vez de liderança às mulheres também.

E olha, a representatividade da Netflix ta linda de ver. Mulher e etnias presentes em quase toda tripulação, não só em cotas como no passado. Essa inversão de valores é interessante e empolgante de constatar, ao menos algo está caminhando. Tempos difíceis para o conservadorismo.

Houve também um revenge porn, usado para chantagear a garota da realidade. Caso este, como sabido, pesa bem mais nas costas da mulher que tem suas fotos expostas, do que nas do homem.

Clonagem: Levando em conta a perspectiva de uma vida criada artificial ou virtualmente, até quando esta pode sentir e sofrer como nós? A filosofia ainda não chegou no ramo da inteligência artificial, mas esses questionamentos podem ser feitos. A abordagem já bastante utilizada na ficção, recentemente em Westworld, em torno da qual gira esse ep de BM.

Não é como ter pena de personagem que você mata no CS ou LOL, é mais como se, uma versão sua acordasse num pesadelo eterno.

Libertação de uma existência condenada a satisfazer os caprichos de um tirano. Você pode ser como Walton (coincidentemente o homem branco) e se acostumar a esse looping infinito por medo da certa retaliação. Ou pode fazer como os escravos: se rebelar, lutar e lutar até conseguir.

Pode-se dizer que este foi um ep bem peculiar de BM, que vagamente relembra Playtest. Não tivemos tecnologia inovadora que transforma o mundo,  nem feeling tristeza aguda quero morrer ao terminar. Pelo contrário, foi até esperançoso, tirando o Daly. Se começou assim, parece que San Junipero abriu as portas e veio para ficar com sua onda happy. Mas não se engane, essa felicidade não é de graça. Tem de ser duramente conquistada, sofrimento de dar inveja a Maria do Bairro. O que é legal, precisamos de mais distopias futuristas alegres sim. Contudo, tenho reservas em perder a marca registrada de BM. Veremos como isso se desenrola.

Mantendo a tradição, Brack Mirror traz um episódio inicial de qualidade. Plot twist mind-blowing, check. O ritmo desenfreado de agonia para ver como o personagem vai conseguir se safar continua. As referências aumentaram. Tecnologia inovadora faltou, a explosão na cabeça também. Longe de reclamar, pois, na essência, a série continua a tratar maravilhosamente bem as questões primordiais da existência humana: natureza, vida, morte, sociedade e futuro.

8/10

P.S.1: Primeira vez que gritam, “espero que morramos”, na fuga de escape. Morri nessa hora.

P.S.2:  O ep tem umas saídas fáceis de roteiro, como: o tempo com o entregador de pizza ser exatamente o suficiente para a garota invadir o ap, roubar todos os DNAs no freezer e sair sem ser vista.

P.S.3: Kirsten Dust e Aaron Paul fizeram participações especiais. Alguém notou?

Isso é tão: The Twiligth Zone, série de ficção cientifica-fantasia-terror dos anos 50, com episódios independentes entre si, os quais se expõem como metáfora para comentários sociais da época, filosofia, moral e mais. Te lembra alguém? É isso mesmo. BM é replicante de um original de 70 anos atrás. Esse ep, inclusive, se encontra em partes do 1×06. A série é obra-prima, must-see, até dedo de Hitchcock teve, e de lá que saíram os maiores clássicos do gênero, como De Volta para o Futuro e Blade Runner. Abaixo, uma amostra. E na falta do Fisk, tem torrent com legenda;

 

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Autor

Roz

Engenheiro por formação, escritor wannabe por obrigação. Nem exatas, nem humanas, renascentista. Reinventando-se. Inconformista. Cinéfilo. Cosmopolitan. Shitalker. De Pepita a Bowie. De 80s cheese a Sopranos.

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