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Black Mirror – S04E04 – Hang The DJ

Everything happens for a reason.

Em tempos de relacionamentos frágeis, que são feitos para não durar, quase como tivesse realmente uma “data de validade”, esse episódio de Black Mirror parece apresentar um bom ponto nisso tudo. E se vivêssemos num mundo onde nosso pares fossem escolhidos pelo sistema, de acordo coma forma que agimos e reagimos, do que gostamos e fazemos, será que daria mais certo? Se precisássemos de uma correspondência de 99,8% com o nosso par? Se o sistema localizasse aquele parceiro ideal para casarmos, será que o índice de divórcios cairia? Chegaria ao mágico número de 0?
Frank e Amy são os as primeiras escolhas do sistemas para ambos e conseguimos ver como eles se dão bem logo de cara. Há aquela química, há o flerte, há a insegurança de fazer não algo por medo da reação do outro. Enfim, todas as coisas que fazemos quando temos um encontro com alguém que gostamos estão lá e podemos sentir. Só que o prazo de validade deles é bem curto, apenas 12 horas. Bem, curto se formos pensar num relacionamento a longo prazo. Mas se pensarmos no Tinder, 12 horas podem ser o bastante. Só que mesmo com o interesse mútuo, eles não fazem nada a mais naquela noite e ficam com a sensação do “poderia ter sido“, porque, claramente, sentiram algo um pelo outro, mas não souberam o que fazer com aquilo, tendo apenas 12 horas de date. São pareados com outras pessoas logo depois, onde ficam por muito mais tempo e os relacionamentos são péssimos. Enquanto Frank sofre com uma namorada praticamente intragável, Amy passa de par em par, todos com um prazo de validade curto, ou seja, casos sem muita importância.

Até que são pareados juntos novamente e nós pensamos: “finalmente o amor venceu”, certo? Mas nem eles tem muita certeza ou querem criar muita expectativa e decidem por não olhar a validade do relacionamento dessa vez. E tudo passa como um próprio filme de amor, com diversas cenas fofas, onde vemos que aquela química que eles mostraram logo no primeiro encontro era totalmente real. Só que como conviver com a dúvida? Como dividir a casa, aquele momento da vida com alguém, sem saber até quando vai durar? Imagina viver dessa forma? Sem condições! (ironia off) Mas Frank não consegue lidar com a dúvida, ele precisa ver até quando terá Amy em sua vida e quebra a promessa, acessando a informação com a sua conselheira. Só que quando um do casal acessa essa informação sem o parceiro, o sistema fica instável e tende a alterar a data de validade. Inicialmente, Frank e Amy teriam cinco anos pela frente, mas depois que Frank deu o passo em falso, o tempo começou a cair drasticamente, indo para apenas 21 horas. É claro que o rapaz fica completamente inconsolável, mas alguém pode julgá-lo? Se você tivesse a capacidade de ver quando tempo duraria o relacionamento com o seu parceiro, veria ou preferiria ser surpreendido por um fim repentino? Eu realmente não sei o que é pior: viver com a certeza do fim, como se lutasse contra os ponteiros do relógio; ou viver como é a nossa realidade, sem ter certeza de nada.

Quando Amy descobre que ele quebrou a promessa, ela o deixa sozinho. Ele tenta argumentar, falar para fugirem dali, independente do que tenha do lado de fora, ele só quer ficar com ela. Mas Amy está muito decepcionada e ele fica completamente arrasado, mas a conselheira lhe diz que um término brusco como esse foi, poderá lhe ensinar alguma coisa. O que não deixa de ser verdade, quem nunca aprendeu algo depois de um pé na bunda inesperado? O tempo passa e Amy é notificada que o seu par ideal foi localizado e que a cerimonia será no dia seguinte. Sim, você é apenas notificado que encontraram o seu parceiro de toda a vida, direito de escolha zero. Porém, ela tem direito a encontrar um antigo par para se despedir e nem precisa pensar duas vezes, ela escolhe Frank. Eles tem pouco tempo juntos, mas Amy diz que ela entendeu o que é tudo aquilo, que não passa de um teste. Eles não se lembram de nada além de estar ali. Pergunta se ele não teve a sensação de já conhecê-la, se já não teve a sensação de estar sempre encontrando com ela e sempre sendo separado pelo sistema. E então a mágica ocorre, amigos.

Eu não quero quem quer que o sistema calcule como o ideal, ok?

Eu quero você. Eu quero você.

Eles tentam fugir e quando os seguranças tentam pará-los, todos congelam, menos eles, que correm na direção de uma escada, que os levaria para o outro lado do muro. Mas quando estavam no meio da travessia, tudo começa a sumir e eles se veem num lugar estranho, com um “998” em suas cabeças, um diversos outros “eles” ao redor e com outros números. Todos os Franks e Amys são transformados em dados e o sistema informa: 1000 simulações concluídas, 998 rebeliões registradas. Ou seja, em 1000 vezes em que eles foram pareados no sistema, em 998 eles lutaram contra as escolhas que fizeram para ficarem juntos. Então o sistema se transforma na tela de um celular e vemos Amy num bar, olhando para a foto de Frank, enquanto aparece “99,8% match”. Eles se olham e temos a mesma sensação novamente: a química, o flerte, a insegurança. Só que agora, tudo isso é real.

Quando terminei o episódio, fiquei num breve momento de mind blowing, só que dessa vez do bem. E pensando sobre tudo, cheguei a algumas conclusões que podem, ou não, ser verdade, mas na minha cabeça fazem sentido. O Frank e a Amy que conhecemos nos primeiros minutos do episódio não passam de “dados” dentro de um aplicativo. Eles foram inseridos lá assim que ambos fizeram as contas, por isso eles não tem um passado, não tem parentes, não tem uma casa. Eles só vivem naquele espaço, porque só existem lá. Pra mim, há quem não concorde, todas as 1000 simulações que eles tiveram no aplicativo aconteceram num curtíssimo espaço de tempo, tal como no episódio “Playtest” da terceira temporada, onde tudo durou apenas alguns segundos. Há quem diga que o espaço de tempo pode ser diferente, as simulações podem ter ocorrido durante todo o tempo entre o momento em que fizeram a conta e o momento em que estavam no mesmo lugar, próximos o bastante para aparecerem um no aplicativo do outro. Particularmente, acho a minha teoria mais legal, mas no fundo não importa muito, porque o legal de tudo isso é imaginar ao menos a possibilidade de pessoas formadas por dados, se relacionando num mundo digital, para ajudar as pessoas a encontrar um relacionamento na vida real.

Quando, no primeiro encontro, Frank diz a Amy que não conseguiria imaginar como seria terminar com alguém, o sistema o junta com alguém que faz com que ele tenha vontade de terminar a cada segundo. E eles ficam juntos por um ano. Já Amy conhece um cara que à primeira vista era maravilhoso, lindo, bom de cama, mas… havia uma pequena coisa que a incomodava. E num relacionamento uma pequena coisa pode virar uma bola de neve se não soubermos lidar. E se a gente já souber que aquilo não vai durar, como vamos nos esforçar para aprendermos a lidar com os defeitos e problemas das outras pessoas? Complicado, né? Fora todas as relações curtas e sem sentido que eles empurram para Amy, onde tudo acaba se tornando um “sexo sem compromisso”, onde no final ela sempre acaba sozinha novamente. Seria essa aquela cutucada de leve na sociedade que o criador sempre gosta de dar? Que as pessoas não levam mais os relacionamentos a sério, que tudo se resume a sexo? Bem, quem sou eu para questionar, né? Porém concordei com a Amy quando ela disse que todas as escolhas seguidas do sistema e com curtas duração, era para que você ficasse cansado e depois aceitasse quem fosse como o seu par “ideal”, porque já estaria tão exausto de relações curtas e sem importância, que ficaria contente com qualquer coisa. Triste? Sim. Real? Também. Não vemos pessoas que se submetem em relacionamentos tóxicos e horríveis só porque pensam que, finalmente, encontraram alguém que quis ficar com elas?

E depois, “no mundo real”, será que os cookies de Amy e Frank lutaram tanto para ficarem juntos, para no final suas versões reais durarem menos de 12 horas? Será que eles viveram feliz para sempre ou foi apenas um caso de uma noite? Aquele sorrisinho do Frank me deixou muito esperançosa num final feliz, porque sou dessas, confesso. Mas, se não der certo, bem. Basta eles voltarem ao aplicativo, suas cópias virtuais se rebelarem outras 998 vezes, assim eles conseguem outro 99,8% de match. É bem simples, né?

E você, já deu algum match no Tinder hoje? Nunca se esqueça: tudo acontece por uma razão…

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Thais Pereira

Feminista, leonina com ascendente em gêmeos e lua em virgem, viciada em memes, em Friends e problematizar na internet. Formada em História da Arte, mas consciente que nunca vai trabalhar com isso na vida. Normalmente eu escrevo e falo mais do que deveria. Eu mesma, Thais Mello.

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