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Dear White People – S01E09 – Chapter IX

Quem tudo quer, tudo… quer.

A parte mais legal de uma obra de dramaturgia é quando ela se volta a um apelo e, através dele, consegue inserir diversas nuances a serem discutidas fora das telas. Dear White People incrivelmente segue a receita à risca. O racismo, ponto forte da trama, não se torna porém o único foco de visão e análise por parte dos espectadores.

Em Chapter IX, Coco dá à luz uma discussão acerca de como as mulheres de nosso tempo são ensinadas a seguir determinadas regras nutridas pelo patriarcado, levando a crer que só será bem sucedida se, mesmo com uma carreira sólida ou com uma vida independente já construída, encontrar um homem que a faça de primeira-dama. A vulnerabilidade de Coco faz com que ela encontre, em Troy, alguma espécie de abrigo cuja função é lhe proteger e ela se sente também na obrigação de fazê-lo por ele – a exemplo da reação que teve contra Lionel ao ler o artigo, e dos questionamentos que fez ao seu provável amado sobre as coisas que ele teria falado. É inaceitável para Coco que as coisas, no mundo, caminhem da maneira errada das regras que foram impostas pelo patriarcado, mesmo que isso não seja culpa dela e sim do meio na qual ela foi inserida desde muito cedo.

Colandrea Conners é a típica garota sonhadora que todos nós já fomos um dia. É a menina em corpo de mulher que ainda sonha em ser uma grande mulher, com uma família sólida, com bases intelectuais bem construídas e que acredita que tudo o que faz deve se voltar a conseguir isso um dia. O seu anseio constante de se sentir importante é um reflexo, ao mesmo tempo, de ser negra e mulher. Coco, infelizmente, não acredita em si mesma tanto quanto acredita num futuro que talvez não chegue, e que só nesse futuro ela poderia ser feliz.

Caminhando com Troy, ela acredita cegamente que poderá desfrutar a vida com a qual sonha, ainda que para isso tenha que sacrificar seus sentimentos e emoções na frente dos demais. Coco não acompanha muito bem a tendência de se inserir no meio social “branco” aos poucos, e várias vezes aparenta estar perdida e exagera nas inserções, acreditando estar fazendo a coisa certa, mas com o único intuito de se promover (inocentemente). Até que ponto isso pode lhe cegar de uma forma que ela faça ouvidos de mercador para o esfacelamento da resistência negra por parte dos filantropos na reunião à qual compareceu? Até onde vai a gana de Coco em ser alguém, se está sendo usada como acessório para provar que nem todos os negros são “ninguém”? Do lado dos Hancocks, Coco pede para Troy convencer Sam a cancelar o protesto – e a partir daí o garoto passa a questionar as prioridades dela.

Há alguém que não está nem aí para isso tudo: a própria Sam. Ao tentar convencê-la a não realizar o protesto, Coco e Troy enfiam os pés pelas mãos e se tornam uma cena engraçada, algo digno de risadas e pena. Afinal, como calar uma voz que já ecoa aos quatro cantos de Winchester? É aí que percebemos como sempre parece muito mais fácil se acomodar às coisas do que confrontá-las, porque o que o ser humano mais teme é sair da sua zona de conforto. Isso não funciona com Samantha White, que utiliza de todo o seu tempo e abdica até de sua vida pessoal para fazer valer o grito negro nos corredores brancos da universidade.

Ao final, Chapter IX retoma seu começo: não só oprimida por ser negra, Coco também carrega a responsabilidade de ser mulher. Quando Troy termina seu relacionamento com ela, é facilmente visível a doce criança que ela é, escondendo uma fera em seu íntimo, mas que ela mesma prende pelos grilhões da incerteza. Talvez ser abandonada por Troy seja muito mais frutífero para ela, uma vez que ela é mais inteligente e ambiciosa que ele. Mas de uma coisa há certeza: ela perdeu sua possível escada para o sucesso adulto. E, olha… ainda bem.

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Henry Kapranos

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