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Especial: Black Panther – Pantera Negra

Eu demorei muito pra começar a escrever sobre esse filme por um motivo bem simples. Black Panther, o tal Pantera Negra, mudou a minha vida. 

Hoje, 27 de fevereiro, Pantera Negra já faturou 727 milhões, 911 mil e 738 dólares, no mundo todo, em ONZE dias. E tem tudo pra ser um dos filmes mais lucrativos da história. Por mais que isso seja uma informação relevante e importante, não é sobre isso que eu quero falar. Eu quero falar sobre representatividade.

Desde pequeno, eu sentia um desconforto toda vez que ia brincar com meus amigos. E eu nunca tinha entendido muito bem, até o dia 16 de fevereiro de 2018, o porquê disso. Na hora de escolher qual personagem a gente seria, era muito fácil pros meus amigos escolherem. Eles queriam ser o Ranger Vermelho, talvez o Ranger Branco, o Superman ou até mesmo o Batman. E quando eu dizia que queria ser algum deles, eu nunca podia ser. “Tu pode ser o Ranger Preto ou aquele Homem-Aranha preto”. Como eu gostava de estar participando, de fazer parte, eu não me importava. À medida que o tempo ia passando, eu continuava nessas mesmas escassas possibilidades, enquanto todos os outros tinham um mundo de opção.

Tudo mudou quando surgiu o Super-Choque. Foi o primeiro personagem com o qual eu realmente me identifiquei, com o qual eu realmente senti uma conexão. E meus amigos também perceberam isso, já que meu apelido passou a ser Super-Choque. Eu já tava velho demais pra brincar de super-herói, mas quando tinha Halloween ou festas a fantasia, era no Virgil Hawkins que eu pensava em ser. Mas nunca pude, já que nunca sequer achei a máscara dele pra vender em qualquer loja de fantasias ou de brinquedo, e fazer a roupa era uma impossibilidade financeira. E eu tenho certeza que, enquanto as crianças brancas cresciam se vendo nos personagens que elas mais gostavam no cinema, nos quadrinhos, na televisão, as crianças negras, assim como eu, também não tiveram muita opção.

“Tá, mas e o Super-Choque? E o Blade? E aquele, o Spawn? E a Tempestade? E o Raio Negro? E o Spike? E o Luke Cage? E o Falcão? E o Cyborg, da Liga da Justiça? E o Gelado? E aquele Lanterna Verde? Por que eles não serviam como herói nas brincadeiras?” pode perguntar alguma pessoa cheia de boa intenção mas sem nenhuma noção de vida. E, pacientemente, eu explico que todos eles se enquadram em alguma categoria não exatamente boa pra que as pessoas se identificassem plenamente com eles. Basicamente, personagens negros  a) não são principais nas histórias em que aparecem; b) têm relação com crime ou uma origem criminosa; c) são os ajudantes de algum herói branco; d) não fazem parte do universo principal da editora ou não são muito famosos. Eu citei doze personagens e nenhum foge dessas categorias.

Desde a primeira aparição do T’Challa em Capitão América: Guerra Civil, eu já fiquei ansioso com o personagem e com tudo que ele representava, só por existir. Ele mostrou que tem toda a força, velocidade e agilidade que o Steve Rodgers tem e, ao mesmo tempo, mostrou que as tecnologias dele são melhores do que as do Tony Stark. E isso foi só na primeira aparição.

Aí, começaram a sair os atores escalados pros outros personagens, começaram a sair as imagens deles caracterizados e a empolgação só aumentava. E eu sentia que não era só em mim que isso acontecia, eu vi nos meus amigos e pessoas que eu não conhecia uma ansiedade boa, uma espécie de eletricidade no ar. E começaram a sair os trailers e a gente foi apresentado a Wakanda, às Dora Milaje, aos costumes e, principalmente, a um elenco majoritariamente negro, mas só em um lampejo, nada muito revelador, mas já foi o suficiente pra eu ter a certeza de seria um dos melhores filmes que eu veria na minha vida.

E eu acertei, nossa como eu acertei. Falando especificamente do filme, Pantera Negra é demais, é espetacular, é estrondoso, é incrível, é inacreditavelmente maravilhoso. Esteticamente, o filme é perfeito, dando uma atenção pra detalhes que pra muitos podem parecer irrelevantes, mas que ajudam a compor Wakanda e seus moradores. As atuações são irrepreensíveis, com o Chadwick Boseman sendo a representação de tudo aquilo que eu imaginava quando lia os quadrinhos do Pantera Negra; a Lupita Nyongo tá excelente, fazendo uma Nakia imponente e que mostra desde o primeiro momento em que aparece em cena quais são as suas motivações e que ela não precisa da ajuda de ninguém pra fazer qualquer coisa; a Danai Gurira fez uma Okoye que vai ser aquela personagem que as crianças negras vão querer ser quando tiverem brincando na escola e nos parques; a Shuri é a melhor personagem desse filme, de longe. Cativante, genial, brilhante, sem nenhum papas na língua, sendo necessária pro funcionamento e evolução tecnológica de todo um país. Sente o peso disso, sente o peso que isso tá tendo no mundo e, mais importante, vai ter no futuro quando as meninas negras tiverem alguém pra se inspirar quando resolverem seguir o caminho da ciência, ou qualquer que seja a área escolhida.

Mas o Michael B. Jordan, ah, o Michael B. Jordan. Eu digo, sem medo nenhum de estar errado, que ele é o melhor vilão que a Marvel já teve. Eu li em algum lugar que Pantera Negra é o primeiro filme Shakesperiano da Marvel e em um primeiro momento eu não entendi exatamente o que tavam querendo dizer com isso. Mas quando parei pra pensar no Erik Killmonger, eu percebi que fazia bastante sentido. É complicado categorizar o Killmonger como um vilão, na real. Porque, se a gente for parar pra pensar, ele não tá necessariamente errado. Ele chegou em casa, viu que o pai dele tinha sido assassinado pelo rei do seu país natal, seu tio, e passou todo o resto da vida buscando vingança por tudo que haviam tirado dele. E, enquanto ele fazia isso, ele via toda a injustiça, toda dor e sofrimento que os irmãos dele passavam, em todo o mundo, enquanto o país que podia facilmente resolver essa situação se mantinha em silêncio, afastado do resto do mundo. As ações dele, por mais exageradas que sejam, são justificadas e até mesmo a busca pelo trono é de pleno direito dele.

Eu sempre fui fã de quadrinhos. Desde que aprendi a ler já lia histórias do Homem-Aranha, do Batman, do Superman. O próprio Pantera Negra tinha o seu próprio título, mas não era um personagem que eu acompanhava. Naquela época, as histórias eram muito simples, com pouca variação da base original na qual o personagem foi criado. Mas à medida que fui crescendo, o próprio personagem foi se aprofundando e indo além de ser apenas um rei de uma nação escondida. O T’Challa casou com a Tempestade, sabe? E se tornou um personagem que eu passei a acompanhar com mais atenção, com mais vontade, porque foi também nessa época que eu comecei a me ver como negro, a entender e a aceitar que a cor da minha pele significava muita coisa. E durante todo esse tempo, havia um vazio que eu não entendia muito bem o que era, que eu não saberia explicar caso me perguntassem. Daí, sentado na sala de cinema, na sessão da pré-estreia do filme, cercado de outras pessoas negras igualmente maravilhadas com tudo que o filme mostrou, eu finalmente entendi. Sabe aquela coisa tu não sabia que faltava na tua vida porque tu não sabia que ela sequer existia? Pantera Negra preencheu um vazio de me ver representado em um filme, de ver meus amigos representados no filme, de ver negros e negras de todo o mundo em estado de êxtase porque eles, depois de anos e anos, tavam no cinema pra ver um filme dirigido por negros, roteirizado por negros e protagonizado por negros.

Mas nem tudo são flores. O filme tá sendo atacado de todos os lados. Um grupo de supremacistas brancos, nacionalistas e misóginos falaram que iam atacar o Rotten Tomatoes e fazer com que a nota de Black Panther fosse menor, já que um filme protagonizado por negros, com um branco sendo silenciado com LATIDOS e com o outro morrendo ofende demais os fofos. Várias pessoas tavam se organizando pra levar crianças negras de populações carentes pro cinema ver o filme, mas teve gente que criticou esse ato por achar que isso representa “racismo branco” (sim, tem gente em 2018 achando que o racismo branco existe). Mas mesmo assim, com essas críticas, o filme é um sucesso. E ele é um sucesso, além do fato óbvio de ser um excelente filme, por mostrar, finalmente, um herói com o qual os negros podem se identificar plenamente. Representatividade importa, e importa demais. Agora, ao invés de precisar ser o Ranger Preto ou o Homem-Aranha Preto, as crianças podem brincar de ser a Shuri, a Okoye, a Nakia, o T’Challa ou o Killmonger. E como diz a música que encerra o filme, agora todas as estrelas estão próximas.

 

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Rafael Augusto

Um hiperativo que não sabe viver sem ler, escrever, ouvir música, ver séries e filmes, geralmente tudo ao mesmo tempo. Fã de ficção científica, suspense, Stephen King e histórias em quadrinhos.

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