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Especial: Dunkirk

A guerra entre como contar uma história e a história contada.

Não é difícil escutar por aí que um filme é ruim porque “não tem roteiro” ou porque “a história é fraca”. Alguns exemplos recentes como Mad Max – Estrada da Fúria e Gravidade sofreram injustamente com esses tipos de comentários, sendo que em cada um deles há a exploração exemplar de recursos da linguagem cinematográfica para transmitir mensagens que vão além da narrativa comum e esperada. Afirmar que uma obra é ruim porque sua trama não é lá das mais complexas ou porque não debate temas relevantes é um desserviço ao que o Cinema pode proporcionar em diversos termos, dentre eles a experiência sensorial. Dito isto, espero ter deixado claro que meu problema com Dunkirk não chega nem perto de ser essa ausência de foco no roteiro.

Dirigindo seu décimo longa-metragem, Christopher Nolan conta a história da evacuação de soldados em Dunkirk através de três pontos de vista: o de um soldado buscando retornar para casa, o de um caça protegendo os ares e o de um civil recrutado para o resgate dos soldados. E acompanhamos todas essas histórias intercaladamente em uma narrativa não-linear. É uma premissa ousada e instigante, mas que tem seu potencial desperdiçado gradualmente pela ausência três simples aspectos: personagens, tensão e objetivo.

Poderíamos afirmar que os personagens não-marcantes seriam para representar o fato de que, na guerra, indivíduos não existem, mas sim apenas os lados que disputam a vitória. Poderíamos dizer que os personagens foram subjugados em detrimento do foco na escala e na condução técnica, mas não é bem isso que acontece. Nolan extingue de seus personagens qualquer dimensão humana ou qualquer identificação com o público, o que torna qualquer cena mais emotiva em algo cafona e ineficaz.

Há algumas mortes e não nos importamos com elas, um personagem aparece equilibrado num momento para no outro surgir atormentado pelos terrores da guerra sem haver qualquer sinal do que causou essa mudança de comportamento, há uma homenagem bem no final que suscita mais uma indagação sobre o merecimento dela do que o pensamento de estar diante de um momento tocante. Não há conexão com qualquer um que vemos, o que não apenas deixa o filme distante do público como também impede qualquer ator de receber algum destaque, já que não é possível oferecer muita coisa quando não se tem nada em mãos.

E se não nos importamos com os personagens, como nos sentiremos tensos diante das situações que os coloca em perigo? Nenhum momento arquitetado pelo roteiro consegue ser particularmente inquietante ou criativo, e isso, somado a ausência de sangue e de tom de urgência (os personagens tratam as situações com uma apatia preocupante), deixa qualquer uma dessas sequências ausente de qualquer apreensão. Isso acaba se revelando curioso, uma vez que o trabalho de Hans Zimmer consegue servir muito bem ao propósito de evocar tensão. Tocando incessantemente, sua trilha ora denuncia a frieza emocional do longa ao contrastar sua intensidade com a indiferença que vemos em tela e ora realmente consegue despertar o sentimento adequado àquela cena, mas, num geral, fica a sensação que o filme não faz jus à trilha que tem.

Mesmo assim, o que realmente me incomodou em Dunkirk foi o seu quase completo desprendimento de objetivo. Após seu término, a sensação que fica é a de que nada realmente foi dito, que andamos e andamos, mas não chegamos a lugar nenhum e a principal culpa disso fica com a montagem. Por melhor executada que seja em alternar os três pontos de vista, a constante mudança de ótica, ao invés de nos atrair, nos nega um envolvimento mais profundo com cada situação e suas particularidades, causando assim uma percepção de pouca evolução de cada trama. E esse intercalar nem mesmo serve para um propósito narrativo e parece puro capricho, uma vez que uma narrativa linear funcionaria tão bem ou até melhor do que aquela concebida aqui, o que é preocupante vindo de um diretor que usou esse recurso tão bem no clímax de A Origem. No entanto, podemos, talvez, encontrar um objetivo na obra não no relato em si, mas na forma em como esta história é contada.

Nolan é um saudosista e quer recuperar a sensação única de se ver filmes numa sala de cinema e também é extremamente apegado ao realismo em seus trabalhos, então não é de se estranhar que em Dunkirk ele aposte em uma imersão tão extrema quanto crível. Seja visual ou sonoramente, o filme te coloca no meio de uma guerra sem a menor dificuldade ao mesmo tempo em que ele se mantém longe da espetacularização da batalha, e ele merece aplausos por isso.

A fotografia aposta numa paleta dominada por cores frias para ressaltar o desolamento daquela situação, assume leve tons de sépia que remetem à época da história e proporciona um refinamento visual sem igual na filmografia do diretor (seu problema de mise-en-scène é quase resolvido por completo aqui). Já o som é alto, barulhento, assusta e incomoda, mas tudo isso justificado dentro de uma proposta que traz à tona o tão desejado realismo que Nolan almeja e nunca torna o áudio indiscernível. Tenho absoluta certeza que essa imersão não aconteceria em outro lugar e que acharia um trabalho horrível se não visse numa sala de cinema. E, por mais paradoxal que pareça, falar isso é um elogio.

Filmes foram feitos para serem vistos numa sala de cinema. Toda a concepção de uma obra cinematográfica é comumente feita com o objetivo de ser vista neste lugar. Isto significa dizer que tentar desmerecer um filme por isso, por falar que ele não seria tão bom se não tivesse sido visto no cinema, é apenas atestar que um de seus principais objetivos, quiçá o principal, foi atingido com sucesso. Um famoso escritor disse, e eu não poderia deixar de concordar, que o mais importante de tudo é a atmosfera, pois o critério final de autenticidade não é um recorte de uma trama e sim criação de uma determinada sensação, o que cai muito bem ao que Nolan faz aqui. Enquanto o diretor obtiver sucesso em nos imergir em seus filmes, mesmo diante de alguns problemas como aqueles vistos aqui, ele terá um voto de confiança de minha parte.

Neste (des)balanço entre impacto narrativo e imersão técnica, o filme sofre por uma falta de foco, por nunca decidir abraçar a escala e ação em detrimento da narrativa clássica, por nunca oferecer, de fato, um desenvolvimento que realmente estimule empatia pelos personagens ou pela própria história. No fim, apesar de nunca ser realmente ruim, Dunkirk se configura bem mais como uma curva equivocada na carreira de Nolan do que como a obra-prima irretocável que tanto quer ser. E acreditem quando eu digo que afirmar isso é bastante decepcionante.

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Autor

Ícaro

Cinéfilo de carteirinha e atual professor de Herbologia em Hogwarts, tem a escrita como uma de suas paixões e acha que o mundo seria um lugar melhor se as pessoas não ligassem tanto para a opinião dos outros.


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