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Cine Panela: Baby Driver – Em Ritmo de Fuga

TEQUILA!

Neste momento em que escrevo este texto, encontro-me escutando Songbird do Oasis. A canção me contagia com uma sensação de leveza plena e inexplicável. Músicas suscitam sensações e sentimentos tão comumente que eu desafio qualquer um a falar que não tenha sentido algo parecido na vida escutando alguma canção.

Parte integrante e talvez até importante da nossa vida, a música sempre está presente para canalizar nossos sentimentos. Ela pode nos ajudar a extravasar a raiva, oferecer conforto num momento de tristeza, nos fazer dançar de acordo com seu ritmo e até nos fazer refletir. Querendo ou não, ela se encontra no nosso dia a dia e é impossível, ao menos para mim, imaginar uma vida sem música.

Da mesma maneira, a música é capaz de nos manipular e despertar emoções, e o melhor exemplo para isso são trilhas sonoras de filmes. Já imaginou como seria a clássica cena do ataque no chuveiro em Psicose sem aquela melodia cortante e tensa? Já tentou pensar em como Mad Max – Estrada da Fúria seria sem sua explosiva e empolgante orquestra de guitarras e instrumentos de percussão? Já cogitou falar de Pulp Fiction sem sequer mencionar a escolha certeira do repertório utilizado ali? Com raras exceções, o uso da música em filmes é tão ou mais expressivo quanto o uso em nossa vida.

Ao trazer um protagonista que escuta músicas o tempo todo, Em Ritmo de Fuga (um título surpreendentemente apropriado ao filme) aproveita para mixar o efeito canalizador e manipulador da música, explorá-los à enésima potência e conferir ao longa uma intensidade e identidade que os diferenciam de outros exemplares genéricos do Cinema de ação.

Narrando a história de Baby, um motorista especializado em fugas de assaltos, o filme conta com a utilização de uma trilha excepcional que encontra-se em contante sincronia com os sons diegéticos, com a movimentação dos personagens e até mesmo com a própria montagem, criando uma espécie de balé cinematográfico que é igualmente estranho, enérgico, empolgante e complexamente coreografado. Dessa forma, é sinalizado sutilmente ao público que a trama possui um pé no surreal, o que permite ao filme certas liberdades de quebras de lógica, mesmo que ele esteja centrado em aspectos majoritariamente verossímeis.

Mas a música não serve apenas como apoio para a construção do estilo estrutural do filme, já que ela também diz muito sobre como o protagonista se sente e como ele interage com o mundo a seu redor. Ao cantar a música que ouviu seu interesse amoroso cantar anteriormente, ao pedir para que os seus “companheiros de trabalho” esperem para começar a ação em sintonia com a melodia, ao gravar o que ouve apenas para remixar depois, Baby nos mostra que enxerga e se conecta com o mundo através da música. E todo esse vínculo é ressaltado pelo eficaz e simples trabalho de som, que nos coloca em seu lugar quando muda o volume da música de acordo com a proximidade do fone de ouvido ou quando surge com um zumbido para representar o tinido ouvido pelo protagonista.

Ainda assim, é necessário falar que, além de pontuais flashbacks para nos aproximar de Baby, o filme não perde tempo para aprofundar seus personagens ou torná-los multifacetados, muito pelo contrário: ele deixa claro desde o início que os personagens não passam de idealizações, de arquétipos utilizados para fazer a trama andar. E isso não quer dizer que os personagens sejam vazios, uma vez que até a menor participação é carregada de identidade e personalidade, quer dizer que o diretor tem plena consciência de que o foco do seu trabalho não é criar uma representação social, não é fazer um estudo de personagem ou algo do tipo, é simplesmente entreter o público.

Aliás, usar o termo “simplesmente” aqui é um descaso, já que o entretenimento apresentado passa longe de ser simples. Em seu trabalho mais contido e sóbrio até então, Edgar Wright evidencia o vigor e a criatividade que já havia exibido com a Trilogia do Corneto e com Scott Pilgrim. Mesmo não contando com elementos fantásticos dessa vez, ele mantém o seu senso de inventividade intocado e nos proporciona algumas sequências de tirar o fôlego, seja pela ação ou pelo riso.

De um domínio exemplar, as sequências de ação fogem do clichê de cortes rápidos e ininteligíveis para apostar em uma lógica visual irretocável que torna qualquer manobra absurda feita por Baby em algo crível. Em certo momento, o carro dirigido por ele anda literalmente pelas paredes de um estacionamento, e por mais claramente irreal que esse acontecimento fosse, nunca passou pela minha mente questionar a veracidade dele diante da lógica apresentada. Como se isso não fosse o suficiente, ainda há cenas de tiroteio tão eletrizantes quanto as das fugas de carro e que apresentam um nível de qualidade que nem mesmo as de Chumbo Grosso conseguem rivalizar.

Enquanto a ação é espetacular por ser muitíssimo bem executada, o humor merece ainda mais destaque por aparecer através de diversas abordagens. Se na camada mais explícita temos alguém apontando um rifle para o outro dizendo para essa pessoa não citar frases de Monstros S.A. (!), na camada menos chamativa podemos ver espalhada pelo cenário a letra da música que toca nos créditos iniciais. Se num momento uma gag visual mostra Baby tirando óculos sabe-se lá de onde, num outro podemos vê-lo ignorando veementemente as notícias de telejornal sobre os seus trabalhos. Seja como for o tratamento dado ao humor, o timing cômico de Wright é sempre afiado e suas tiradas nunca deixam de ser inspiradas.

No entanto, é interessante reparar que esse humor, essa embalagem leve e cool, diminui gradativamente sua intensidade em prol do senso de urgência, que domina o terço final da obra. Isto serve tanto para provar que o filme sabe se levar a sério quando quer quanto que ele realmente se importa com os personagens a ponto de tratar a conclusão de suas histórias com a maior sobriedade possível.

E o melhor de tudo isso é perceber que, por mais bem dirigido e tecnicamente incrível o filme seja, Wright não apresenta esse domínio todo por narcisismo, para chamar a atenção de críticos ou para se tornar um papa-prêmios, ele simplesmente ama aquilo que está fazendo e isso é perceptível durante toda a sessão. Mesclando Cinema e música como nunca havia feito antes, o diretor se mostra tão disposto em compartilhar seu trabalho com o público que não há um só momento, por menor que seja, que seja dispensável ou chato. O filme transborda paixão do início ao fim e nos conquista por isso.

Injetando adrenalina aos montes, Em Ritmo de Fuga, através de uma montagem de fluidez narrativa invejável, traz um elenco carismático, uma trama divertida e assegura Edgar Wright no posto de um dos cineastas mais instigantes e imaginativos em ativa. O filme já está no rol dos melhores do ano e é uma grande prova de que, às vezes, não se precisa de uma enorme ambição para se produzir uma grande obra.

PS: Se você terminar de assisti-lo sem querer fazer tudo no ritmo das músicas que está ouvindo, não merece falar comigo nem com meu anjo.

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Autor

Ícaro

Cinéfilo de carteirinha e atual professor de Herbologia em Hogwarts, tem a escrita como uma de suas paixões e acha que o mundo seria um lugar melhor se as pessoas não ligassem tanto para a opinião dos outros.

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