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Cine Panela: Phantom Thread

Encerrando nossa maratona Oscar 2018 em grande estilo, temos Phantom Tread, o melhor e mais completo competidor, como também o mais subestimado.  Texto sem spoliers.

Ambientado na UK dos anos 50, o filme acompanha a vida de um grande estilista em seu processo de criação e relacionamento com mundo ao redor.

O diretor Paul Thomas Anderson, do clássico There Will Be Blood, fez um trabalho excepcional. Câmera lenta sem bruscos movimentos, close abertos, fotografia exuberante e design magnífico, desde as roupas (já pode ir na costureira encomendar os looks?) até os cenários. Irretocável. Assim como a trilha de piano, que contribuía para dar o ritmo e imergir na atmosfera fria-claustrofóbica do filme, intercalada com momentos de silêncio nas cenas mais climão, fazendo o ar pesar ainda mais. De todos os concorrentes do Oscar, sem dúvida, esse foi o que teve o trabalho mais primoroso e artístico em detalhes, abrangendo uma grande gama de técnicos para sua realização.

O filme não lhe oferece nenhuma resposta fácil. É sujo, dúbio, aberto. Nível que o favoritinho, Three Billboards, passou longe de alcançar. Isto não seria possível sem as atuações repletas de camadas de Reynolds e Alma. Vicky Creaps foi praticamente esnobada na categoria Melhor Atriz, maior parte pelo raso currículo e falta de divulgação (isso sim que garante Oscar). Só a cena do jantar seria suficiente para ela tomar a estatueta de qualquer competidora ali, até mesmo da McDermont. Daniel Day Lewis nem se fala, é ser redundante dizer que ele é um excelente ator em qualquer papel que pegue, oi Meu Pé Esquerdo.

A resolução virou para um tom totalmente inesperado e diferente do que vinha sendo trabalhado. Ao acabar, a sensação é de um grande WTF!!! na cabeça, aliado a um bombardeio de questionamentos, plus a certeza de estar diante de um filme soberbo.

Alguns dos temas abordados no filme são:

– Processo de criação artístico: Reynolds Woodstock segue uma rotina estricta, sem qualquer espaço para alterações. Tudo do jeito que ele quer, a hora que ele quer, sem espaço para qualquer distúrbio fora da ordem instaurada, no silencio possível. O som do estalido de uma colher no café da manhã pode atrapalhar todo seu dia. Sua nova assistente Alma, tem que aprender e se acostumar essa rotina e metodismo.

Pode parecer irritante, coisa de alguém mimado, sem limites, mas é assim que muitos artistas funcionam. O processo de criação varia para cada um, e depois que se descobre como seu relógio biológico interno melhor funciona, só resta se acostumar e seguir. Muitas pessoas por exemplo, não conseguem estudar com o mínimo barulho, já outras gostam do som da TV ligada, ou uma música rolando. Claro, não há como comparar a realização de uma tarefa simples assim com o mecanismo do cérebro de inventar, o qual requer bem mais. É um estado de hipnotismo que o artista deve se colocar.

Destaco aqui, algumas rotinas bem interessantes e bizarras, de certo modo inspiradoras.

– Alienação do mundo: Vemos em Reynolds o que podem ser considerados distúrbios sociais. Cara chato, louco, pessoa desprezível, por vezes somos tentados a rotula-lo. Mas esta parece ser outra regra dos grandes criadores. Tolstoi não conseguiu manter relação com sua mulher e filho, tendo de se isolar no campo para poder viver em paz, de onde lhe saíram grandes obras. Já Proust, passou mais de anos a fio em casa, sem sair ou manter qualquer relação social, nem a inauguração da invenção sensação do século, o metro, este foi ver, só conseguia escrever. Gênios são insociáveis por natureza. O que é uma saída para noite de ano novo comparada a criação de uma obra prima?

– Criatividade: Não de hoje é tratado o processo de inspiração a partir de uma musa. Sandman fez brilhamente, e aqui temos Alma como objeto, sendo sugado e sem possuir vontades. Servente para um fim. Não é uma pessoa, mas um meio. Matéria prima. Pode parecer desumano por vezes, mas se trata da realidade. O fruto tem que sair de algum lugar. A cena que Woodstock tira as medidas de Alma, mostra o lugar dela e sua importância.

– Amor: Amor é depender. Nesse jogo que chamamos relação, alguém tem que estar por cima, e outro por baixo. Tem de haver uma relação de dependência, de outro modo, para que precisaríamos da pessoa? O ilme dá um soco no estomago ao mostrar como gostamos de ser dependentes. Como nossas relações são feitas por carência, por necessidade, interesse. Você pode ser a pessoa mais forte e segura do mundo, mas isso não lhe garante que, quando numa relação, você não seja pisado, e pior, goste disso. Parênteses para casos de abuso, que não contam.

É como se Reynolds, cansado de ser forte e mandão o tempo todo, quisesse ser fraco e dominado, podendo assim extravasar sua fraqueza e vulnerabilidade. O filme é tão aberto a interpretações nesse meio, que qualquer explicação minha nesse aspecto seria restritiva.

Este, considero meu favorito do Oscar e certamente o mais completo em todos os sentidos, tanto no artístico, quanto no de discussão geradas. Não seria capaz de citar um erro. Todo ele foi bem desenvolvido, e até mesmo as cenas paradas, que aparentam não servir para nada, te emergem nesse desolante mundo do amor e das artes.

E vocês, o que acharam? Gostaram? Tão torcendo para quem nesse Oscar? Abraços e até a próxima.

*Créditos do poster da capa aqui.

 

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Autor

Roz

Engenheiro por formação, escritor wannabe por obrigação. Nem exatas, nem humanas, renascentista. Reinventando-se. Inconformista. Cinéfilo. Cosmopolitan. Shitalker. De Pepita a Bowie. De 80s cheese a Sopranos.

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