Mulher x Mulher

A classe feminina sempre foi muito fraca e desfavorecida desde os primórdios  da nossa sociedade, e assim como os negros, elas precisam sempre estar se provando capazes e quebrando seus próprios limites para conseguir o seu lugar ao sol. Mas algo que sempre enfraqueceu as mulheres, é a rivalidade entre elas e como a industria, os homens, a mídia sempre conseguiram manipular muito bem isso. Essa cultura de mulher x mulher sempre foi muito presente e está até nos dias de hoje, seja a Joan Crawford vs. Bette Davis ou Lady Gaga vs. Madonna, as pessoas sempre irão preferir a guerra do que a união do poder feminino.

De uma forma totalmente brilhante e com a elegância de sempre, Ryan Murphy, nos trouxe no segundo episódio de Feud o real motivo e toda a manipulação por trás da guerra entre Joan e Bette e como essas divas podem ser facilmente manipuladas. As vezes ninguém precisava jogar uma mulher contra a outra, as vezes a falta de união vinham delas mesmas e de suas inseguranças graças a essa mídia machista que temos. Desde o inicio isso é perceptível, quando Joan se sentiu ameaçada por uma atriz mais nova e bonita e não sossegou até Aldrich demitir a moça.

A abordagem da série em torno disso foi muito inteligente e perspicaz, e a sua narrativa da sexualização e do desmerecimento da mulher foi muito inteligente também. Toda essa escravização da beleza fez Joan perceber que não existiam mais papeis para ela, para a sua idade e quando ele tentou fazer algo que realmente fugisse da sensualidade e da exposição de seu corpo, ela foi chutada sem dó nem piedade pelo dono da MGM, o que fez com que Joan migrasse para a Warner e ai sim caísse de vez na guerra de ego entre ela e Bette. A função da Joan na Warner foi simplesmente ir contra Bette que era a dona da vez e sempre teve uma personalidade forte se negando a abaixar a cabeça para essa indústria machista e Joan foi uma forma de Jack (dono da warner) mostrar para Bette que ela não era mais dona do pedaço sozinha.

E mais uma vez vemos a industria colocando uma mulher contra a outra, Jack sabia como ganhar dinheiro em cima disso e se aproveitou fazendo da maneira mais sórdida possível; oficializando de vez a guerra entre as duas. As duas até tentaram fazer as pazes e se unir para que tudo desse certo, afinal de contas elas sabiam que aquela era a oportunidade de ouro, ou elas fariam dar certo, ou poderiam dar adeus a todo glamour e atenção que estão acostumadas. Sabendo do evento que seria Joan e Bette no mesmo filme, Jack percebeu que aquela poderia ser a chance de voltar a faturar com elas novamente, mas não pela atuação das duas e sim pela fofoca e por especulações maldosas. Aldrich agora tinha a missão de colocar uma contra a outra e fazer daquelas gravações um verdadeiro casos de família.

E não demorou para guerra vir a tona e é ai que percebemos até que ponto as pessoas podem ser fúteis e superficiais, o tipo de fofoca que foi criado em torno das duas era totalmente medíocre e ninguém queria saber de fato ago interessante sobre elas e como elas contribuíram para a arte naquela época, as pessoas queriam mesmo era ler sobre os peitos falsos da Joan ou da velhice da Bette. O triste mesmo era ver como mulheres tão maravilhosas e intensas cada uma à sua maneira foram tão facilmente manipuladas e feitas de fantoches pela industria e é ainda mais triste perceber como essas coisas e toda essa manipulação machista perdura até hoje e vive com tanto vigor e folego.

Só que Jack queria mais, para ele todo aquele ataque fútil e sem propósito ainda estava só no começo e ele queria mesmo que Aldrich escolhesse a sua favorita e a favorecesse. Ele então escolhe Bette e de uma maneira muito curiosa vimos algo nascer entre os dois, fiquei realmente na duvida se todo aquele jogo de sedução do Aldrick era pura estratégia ou se ele realmente se sentiu atraído por Bett.

Manter duas divas no set é saber que você está lidando com dois hiper mega egos com personalidades fortíssimas e que um não irá se submeter ao outro. E como Joan não é boba, ela logo percebeu algo estranho entre Aldrich e Bette e não queria ficar por baixo, logo, ela inventou algo no meio da noite para atrair o Aldrich até a sua casa e o seduzi-lo, a estratégia, claro, não deu muito certo. Mas eu amo isso na Joan, mesmo que seja algo meio destorcido para ela, eu amo o fato de como mesmo depois de uma certa idade ela ainda se sente linda e sensual e com toda a capacidade de seduzir um homem.

E na mesma Proporção em que mulheres podem se odiar e se tornar as piores inimigas umas das outras, elas podem ser unidas e compadecidas umas com as causas das outras. Esse foi o caso de Hedda ao saber que Joan estava na ruína e a beira da falência a venenosa jornalista prometeu salvar a amiga e esticar sua carreira por mais cinco anos.

Para personalidades como Joan e Bette, estar perto de pessoas jovens é como uma lembrança de que a juventude e o vigor as abandonaram e quando Bette vê a sua filha roubando todas as atenções e exibindo toda a juventude que falta nela, ela não aguenta e despeja todo o seu rancor em cima da filha que também não fica por baixo e diz tudo o que esse desejo incansável pelo sucesso e pela glória fez com Bette. (PS.: O dialogo dessa cena foi uma das coisas mais impecaveis que eu já vi nos últimos tempos.)  Cada palavra dita pela filha dela me fez perceber como essa mulheres que vivem pelo trabalho e pelo reconhecimento a todo custo  são sempre ausentes, desfuncionais e incapazes de demonstrar o seu amor de uma forma pura e desinteressada. Isso é refletido tanto em Bette quanto em Joan, as duas nunca encontraram a paz completa, pois, tiveram suas vidas defasadas pelo egoísmo e estrelismos exacerbado o que fez com que elas sempre estivessem sozinhas.

Feud termina seu segundo episódio nos surpreendendo com o início de um possível romance entre Aldrich e Bette e nos lembrando como a mídia e a indústria pode ser cruel e totalmente sem escrúpulos.

Essa série é simplesmente magnifica e não tem como ficar insensível a atuações tão viscerais como a de Jessica e Susan. As duas é de uma perfeição tão impressionante com por alguns momentos eu fecho os meus olhos escuto a Susan falando e penso ser a Bette de verdade. A forma como Ryan tem levado a série só mostra como esse homem merece todo o sucesso que tem e o porque dele ser o maior nome da Tv Americana atual. Feud ainda promete muitas surpresas e eu estou esperando por aquela cena que vai mostrar tanto Bette quanto Joan totalmente despidas de suas armaduras e completamente vulneráveis, eu sei que essa cena está por vir e vai ser de tirar o folego.

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Dam Souza
Dam Souza

Baiano que tem caruru e vatapá no sangue, aquele que é o canto da cidade e só discute com quem entende de Inês Brasil.
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  • Bruno D Rangel

    Assisti ao filme e logo depois assisti esse episódio. Foi incrível. Deu pra entender um pouco mais aonde querem chegar.
    Quanto ao filme, sei que é uma obra prima, mas achei longo demais e com algumas situações cômicas (da maneira errada), mas enfim. É considerado um dos melhores filmes da história e eu respeito isso.

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