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Glow – S02E04 – Mother of All Matches

It’s my favourite guilty pleasure.

Num ótimo episódio praticamente todo focado em mães, com outros assuntos tratados transversalmente (como esteriotipização do negro), as semelhanças e conexões entre Debbie e Tamee, como mulheres e pessoas, foram ressaltadas. Por partes.

– Debbie:

A personagem continua na luta de conciliação entre ser mãe solteira cuidando de criança, ao mesmo que trabalha para pagar suas contas. A batalha é real! Nesse, o foco foi a superação de ter sua vida antiga acabada: hora de se livrar de todos os móveis que te lembravam dela. Essa transição da personagem já dura um bom tempo (desde o piloto), e enquanto o marido seguiu em frente na maior, ela ainda tem conversas desesperadas e sem sentido com estranhos, que acabam em choro. Supera mulher. Hora de seguir. Deixa de choro e de drama.

Também tivemos levemente tratada a responsabilização da mãe na criação dos filhos. Para o marido otário (nossa, esse ator só faz personagem porre) é fácil continuar sem nenhuma responsabilidade sobre o filho. É a mãe que sempre cuida, literalmente. Este é um papel bem definido da mulher na sociedade, que muito lentamente vem sendo mudada. Basta ver a seleção brasileira. Metade dos jogadores foram criados sem pai presente.

A seleção dos filhos sem pai: Seis dos 11 titulares do Brasil na Copa cresceram distantes do pai biológico: Mães como a de Gabriel Jesus tiveram de se desdobrar sozinhas para criar os filhos atletas.

Com tanta coisa na cabeça, não se pode culpar uma mãe por, ao parar e respirar um minuto, acabar esquecendo o filho numa creche. É uma função sem descanso. E quão ridículo é o marido tentando condenar Debbie por esse deslize. Como ele não faz nada, não tem direito nenhum de reclamar ou culpa-la pela criação do garoto.

– Você está me chamando de uma mãe ruim? 

 

– Miss Bem-Estar Social.

Fomos apresentados ao filho de Tamee. Estudante negro em uma das melhores universidades do país, graças a uma bolsa Martin Luther King, que com certeza deve ser uma bolsa dedicada a estudantes negros. A Miss Bem-Estar Social ridiculariza exatamente isso, o conhecido como Estado de Bem-estado Social, muito popular nos anos 70. Pelo princípio desta corrente, todo individuo tem, desde seu nascimento até sua morte, uma série de direitos garantidos e indissociáveis, como educação, saúde e dignidade, que devem ser garantidos pelo Estado. A exemplo temos programas sociais, como SUS, bolsa família e ações afirmativas. A critica a esse sistema é o muito conhecido no Brasil (gostamos de imitar os EUA até nos argumentos): é um sistema injusto, que não leva em conta o mérito e cria vagabundos.

 

”Eu recebo tanto dinheiro do governo, que eu simplesmente jogo fora.”

A personagem de Tamee é mistura de todos os estereótipos. Ela, negra, levando uma vida boa na praia, as custas dos EUA e daqueles que pagam impostos (com o auxilio do governo não se compra mais nem uma calça para um ajovem de 16 anos, imagina uma viajar). No final ela é derrotada e humilhada, colocada para trabalhar num subemprego de fastfood composto em maior parte pessoas à margem. Essa representação cria uma imagem negativa demonizada das pessoas que realmente precisam desses recursos, como seu filho, que precisou de uma bolsa e cota para poder ir a uma universidade de qualidade. É aquela história. A casa grande surta quando a senzala vira médica. Se os negros subirem de vida, quem vai limpar minha casa?

De certo modo o show e o diretor estão abusando de Tamee e da imagem do negro. Durante décadas, no cinema, os negros não podiam interpretar personagens principais ou que não fossem criados, por simplesmente não existirem outro tipo de papel. Essa representação favorece estereótipos, e por isso hoje é tão importante representatividade positiva. Glow mostra essas questões as debatendo superficialmente.

Um ponto favorável foi o filho ter aceitado melhor que do eu pensaria que fosse. Já estava todo pronto para um drama de proporções épicas. Que bom que foi ele foi compreensível, ao mesmo que aquele olhar no final deixa a entender que não vimos tudo do assunto. De Tamee, uma mulher tão forte, decidida e direta, não esperava o medo e receio que teve para contar ao filho. Há uma inconstância aí.

Encerramos com o final surpresa e estrategicamente aberto da finale passada. Garota da Liberdade vindo tomar a coroa e triunfar sobre o Bem-Estar Social (ou vagabundos, como diria um presidenciável). Como sempre, tem que ter aquele twist de última hora para deixar os espectadores na ânsia de mais. Zoya sequestrou um bebezinho, e Liberdade promete recupera-lo futuramente.

Uma frase que define Glow foi dita no ep: É meu guilty pleasure favorito. No caso, prazer culpado. A série não entra na categoria por não ser trash lixo suficiente, é até bem produzida na verdade, assim como não chega a ser favorita. É aquela série sem grandes altos e baixos, divertida de assistir e passar o tempo. Não é a da vida ou do ano, mas dá para aproveitar a luta.

P.S.: O quanto do show que vemos é real?

P.S.1? Amei o look de entrada de Liberty Belle. Vestido curto com bandeira dos EUA na cauda. Piranha patriota sem ser vulgar.

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Autor

Roz

Engenheiro por formação, escritor wannabe por obrigação. Nem exatas, nem humanas, renascentista. Reinventando-se. Inconformista. Cinéfilo. Cosmopolitan. Shitalker. De Pepita a Bowie. De 80s cheese a Sopranos.

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