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Kidding – S01E04 – Bye, Mom

Aquele carinho na alma quando mais precisamos.

Kidding é uma das melhores séries que assisti nos últimos tempos e muito se dá pela sua simplicidade, a forma suave que ela retrata a realidade e o modo quase puro que o sofrimento é mostrado. Todos conseguimos perceber que Jeff está a ponto de surtar, é como se assistíssemos a contagem regressiva de uma bomba. Só que ao mesmo tempo que ele é “tudo”, ele também é “nada”. Ele consegue mascarar, como ninguém, todos os seus problemas, os demônios que habitam a sua cabeça e conter uma raiva, que é totalmente compreensível, dentro de si. Claro que essa raiva, algumas vezes, encontra espaços para escapar. Seja num discurso mais agressivo ou quebrando um abajur, afinal, ninguém é de ferro.

A maior questão quando se trata de Kidding é a capacidade que Jeff tem de esconder suas emoções e angustias, para tentar ajudar, e reconquistar, aqueles que são mais próximos: sua (ex)esposa e seu filho. Só que fazendo isso, ele coloca suas próprias necessidades de lado. Talvez tenha sido assim durante toda a sua vida, talvez ele não precise de muito para ser feliz. Mas quando vemos um homem que perdeu uma das três coisas mais importantes da sua vida tentando seguir a diante e colocando tudo a frente da sua dor, nós devemos, ao menos, parar e pensar. Talvez o fato do tempo da bomba relógio que o Jeff se tornou esteja cada dia passando mais rápido, seja porque as pessoas não deixam ele lidar com a perda da forma que deseja. Seja conversando francamente ou fazendo um episódio sobre a morte em seu programa. A morte deveria ser um assunto comum, corriqueiro, falado. A morte é imprevisível. É a única coisa certa no mundo. Mas enquanto ele tenta lidar com seus próprios problemas internos, com os do filho e sua ex-esposa, ele precisa lidar com problemas em seu programa, com as dificuldades que seu relacionamento confuso com o seu pai está causando. Será que o substituir por um boneco é a melhor forma de lidar com os problemas de Jeff? Será que isso não causaria um transtorno ainda maior para o homem? Ou será que, naquele momento, o programa importa mais do que o Sr. Pickles passa?

O falta das pessoas com Jeff é a palavra que define esse episódio: EMPATIA.
A forma que ele age com o motorista do acidente de seu filho. Mesmo num momento tão difícil, ele é capaz de pensar no outro. Pensar na filha do motorista, que é viúvo e não pode mais trabalhar. Pensar que um dia essa menina precisará ir à faculdade. Pensar que eles precisam se alimentar. Que eles precisam de ajuda. É muito difícil de encontrar alguém que seja capaz de arcar com as despesas da família do responsável pela morte do próprio filho, só porque alguém precisa ajudá-los. Alguém capaz de não deixar o sentimento de tristeza se transformar em raiva e passar essa raiva para outra pessoa. Como ele disse, não há culpados, foi um acidente. Um terrível acidente. Mas sempre tendemos a culpar alguém por tudo de ruim que acontece em nossa vida. É como se precisássemos achar uma pessoa para apontar, direcionar nossa raiva. Assim como Jill faz com o motorista. Mesmo que tenha sido um problema no semáforo, mesmo que ele não tenha avançado o sinal, mesmo que ele também tenha ficado com sequelas do acidente, ele sempre será o culpado pela morte do filho. Porque é mais fácil pensar assim. É mais fácil ter a culpa em uma forma humana, do que em algo tão inconstante como o acaso.

E quando encontramos alguém que não enxerga dessa forma, que tenta ver o mundo com os olhos de um pouco menos pesados, tendemos a retirar a esperança da pessoa. Às vezes nem é por mal, talvez tenha sido a forma que foi nos ensinada a ver a vida. Alguns enxergam o copo meio cheio e outros meio vazio, não é o falam? Então enquanto alguns buscam o lado bom de tudo, outros sempre procuram o pior, seja falando que já comeram um bolo melhor, já assistiram um filme mais legal ou até mesmo dizendo que a pessoa não ligou de volta porque não gosta dela.

Talvez nãos seja maldade, pode ser um mecanismo de defesa. Ou até mesmo um desejo, um instinto de deixar todos preparados para o pior. Só que, na verdade, deveríamos fazer o caminho oposto, aprendendo e compartilhando a capacidade de ver o lado bom das coisas. O filme pode não ser o melhor do mundo, mas te divertiu por algumas horas; podem existir bolos mais gostosos, mas se você falar que aquele é o melhor do mundo, fará o dia de alguém melhor; e “não é porque a pessoa não ligou de volta que ela não gosta de você, talvez o telefone tenha ficado ruim.” Pode ser uma mentira, mas digamos que seja uma mentira do bem. Ou pode ser verdade, quem sabe?

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Thais Pereira

Feminista, leonina com ascendente em gêmeos e lua em virgem, viciada em memes, em Friends e problematizar na internet. Formada em História da Arte, mas consciente que nunca vai trabalhar com isso na vida. Normalmente eu escrevo e falo mais do que deveria. Eu mesma, Thais Mello.

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