Aniversário de 20 anos de estreia de uma das melhores séries? É claro que o Panela não poderia deixar de falar sobre!

Em 10 de março de 1997, chegava às TVs no extinto canal WB uma série com uma premissa tão estupidamente simples (e genial) que até hoje me pergunto o porquê de não terem pensado nela antes: e se a loirinha não tivesse que ser a vítima indefesa? E se ela fosse, pelo contrário, a heroína badass que salva o mundo do mal? É uma premissa tão boba que nem mesmo a própria emissora que iria exibir a série acreditou nela, já que a sua primeira temporada teve apenas 12 episódios e foi colocada para substituir o horário de uma série durante a mid-season. No entanto, quanto algo é pra acontecer, não há nada que possa impedir.

O sucesso da série foi tão grande que ela ganhou outras seis temporadas completas com 22 episódios, spin-offs, indicações ao Emmy, diversas menções em listas de “melhores séries de todos os tempos” e uma legião de corações de fãs que até hoje fazem questão de manter viva a lembrança dessa série tão. Legião essa da qual faço parte e que não poderia perder a oportunidade de lembrar o quão maravilhosa essa série é, principalmente numa data tão significativa.

Como foram sete temporadas que passamos com a Scooby Gang em Sunnydale, nada melhor do que apresentar aqui sete motivos pelos quais você deve dar uma chance à série e assistir Buffy the Vampire Slayer.

Empoderamento feminino

Numa semana onde tivemos o dia internacional da mulher e fazendo um especial de uma série que traz como premissa retirar a mulher da posição de vítima para colocá-la na posição de guerreira, seria bastante vergonhoso deixar essa razão de lado. Poderia usar vários exemplos do conjunto fascinante de mulheres que vimos na série, mas nada melhor para exemplificar este empoderamento, se não a protagonista.

Ela é uma menina indo para a escola ao mesmo tempo que é uma das grandes armas do mundo contra o mal. Ela sai escondida à noite para sua patrulha, mas tem medo da bronca e do castigo que ela pode receber de sua mãe. Ela quer namorar, sair com os amigos e ansiar por um futuro normal, e, no entanto, tem que suportar um enorme fardo nas suas costas.

Buffy Summers é uma mulher em toda a complexidade e multidimensionalidade que essa palavra oferece. Esse olhar sobre a feminilidade confere um brilho sem igual à série, criando um cenário onde tanto a superfície quanto qualquer outra camada de análise (há pessoas que chegam ao ponto de dizer que a série toda é uma metáfora do amadurecer feminino, o que eu não discordo) proporcionam uma visão única e poderosa sobre a mulher. Isso porque só falei da protagonista, se estendesse para as outras mulheres da série, podemos encontrar muito mais riqueza nesse aspecto.

A mitologia

Criar um universo para uma série de TV não é novidade alguma e nem é lá tão difícil também. O problema é que a maioria das tentativas de se expandir a mitologia desses universos, os roteiristas sempre acabam causando o efeito oposto, tornando as séries mais frágeis e diminuindo aquele encantamento que o um mundo bem planejado poderia ter.

Em Buffy the Vampire Slayer, não temos isso. Cada acréscimo, cada expansão, cada novo detalhe é incluído com tanto esmero que passamos a admirar a série cada vez mais. Seja com a hierarquia dos demônios ou com a história por trás da Caçadora, a mitologia de Buffy é tão completa que tem até nome – Buffyverse – e não se prende apenas à esta série. É bastante difícil não se impressionar com a construção dessa mitologia e ainda mais impossível não ser conquistado por ela.

Sabe ser imperfeita

Muitas séries hoje em dia sofrem do que eu chamo SDP (Síndrome Da Perfeição). Elas enfiam grandiosidade épica ali, uns plot twists construídos desde o início acolá, recheiam isso com um elenco estelar uma estética cinematográfica que é pra todo mundo aplaudir porque “é muito bem feita”. O que eles se esquecem é que o material feito é pra TV, onde, assume-se, o público assistirá com a interferência de diversas distrações: o celular tocando, as roupas no varal durante a chuva, os intervalos comerciais, a mãe dizendo que a comida está pronta e por aí vai. Tudo isso sugere que muito dificilmente o espectador estará tão imerso no que está vendo para realmente poder admirar toda a pretensão e ambição desse material.

Sabendo disso, Buffy aproveita-se dessas distrações presumidas para ser imperfeita. Se num episódio algum lugar é destruído e no seguinte, ou até nele mesmo, ela aparecer intacta, muito provavelmente haverá uma piada sobre. Se em certo momento, os personagens secundários parecem se esquecer das inúmeras ameaças e mortes recorrentes, em outro a série sugere brilhantemente que não é bem assim. Se numa temporada a ameaça é uma deusa indestrutível e logo na próxima decai para três nerds fracotes, veremos que isso pode gerar uma trama genial.

Reconhecer que é uma série de TV e saber usar a estrutura limitada (lembrem-se que estamos falando de uma série procedural de fantasia da TV aberta nos anos 90) a seu favor é de uma inteligência ímpar que só faz Buffy se destacar ainda mais.

Até quando é ruim, é boa

Ok. Talvez esse seja um lado fã falando, mas até quando Buffy é realmente ruim, ainda tem coisas boas a se admirar. No episódio que mais desgosto tem pessoas possuídas por espíritos demoníacos de hienas e mesmo assim serve para desenvolver certa tendência de Xander a querer ser o macho dominante, fora que, como não admirar o fato de que PESSOAS ESTÃO SENDO POSSUÍDAS POR ESPÍRITOS DEMONÍACOS DE HIENAS? Em outro deles, este sendo comumente referenciado como O pior episódio da série, vemos Buffy virando uma mulher das cavernas, e se o plot é ridículo e o episódio é inútil, ao menos temos Sarah Michelle Gellar nos presenteando com uma das atuações mais curiosas que já vimos.

Ela não volta atrás

Não tem aquelas manias que as séries costumam ter de trazer personagens de volta à vida? De dar uma despedida enorme para os personagens e fazê-los voltarem poucos episódios depois? De ser incoerente com os personagens e fazerem-nos tomar decisões e dar um passo atrás logo depois? Buffy, com raras exceções, não tem isso.

Se um personagem resolveu sua trama, ele sai de cena. Se um personagem morreu, não tem volta. Se um personagem seguiu um caminho mais obscuro e/ou que iria de encontro ao que conhecíamos, não há volta. A série segue em frente, a trama segue em frente e tudo o que conhecíamos que foi deixado de lado ou esquecido permanece assim. É algo simples, que causa um efeito de tensão impressionante e que muitas séries esquecem de fazer nos dias de hoje.

Criatividade e versatilidade

Se Buffy soube aproveitar as limitações e imperfeições que sua estrutura proporciona, imagina então o que ela fez com as possibilidades que a mesma estrutura oferece? Episódio musical que até hoje é um marco na história da TV? Teve! Episódio com crítica social sobre a violências nas escolas? Teve também! Episódios especiais de datas comemorativas que se destacam até hoje? Todos estavam lá. Mas mesmo assim, eu vou chamar a atenção para três episódios que sintetizam essas características.

O primeiro é Restless, o season finale da quarta temporada, onde a série brinca com surrealismo, entrega todo um estudo psicológico de seus personagens (até então e para o futuro), encerra a temporada com um anticlímax sem igual e faz um episódio diferente do que se vê até mesmo nos canais fechados hoje em dia. É uma realização histórica, única e bastante ousada que merece ser lembrada e que marca um ponto de virada da série: as coisas vão ficar mais obscuras daqui pra frente!

O segundo é Hush, décimo episódio da quarta temporada, que é um episódio feito em sua maioria sem quaisquer diálogos, afinal de contas, os demônios roubam as vozes dos habitantes de Sunnydale. É um episódio que serve como resposta do showrunner Joss Whedon às críticas que atribuíam o sucesso a seus diálogos afiados, é um episódio que transita entre o ápice da comédia e o ápice do terror sem soar incoerente em momento algum e que coloca os personagens em momentos-chave para o desenvolvimento de certos acontecimentos futuros. E ainda foi indicado ao Emmy! Se isso não é ser épico, eu não sei o que é.

O terceiro e não menos importante é The Body, décimo sexto episódio da quinta temporada, que trata do luto sobre a morte de um personagem importante. É um episódio impactante pela maneira como retrata toda a morte e todo o processo do luto. Não há trilha sonora alguma, não há uma grande força do mal por trás da morte, é uma morte natural que veio sorrateira, inesperada e que não havia como impedir. O uso de poucos cortes, as atuações e principalmente o texto tornam esse um dos episódios mais triste já visto sobre a morte. A frase “we’re not supposed to move the body” me assombra até hoje.

Enfim. Não tem como não destacar essa versatilidade de tom e atmosfera ao falar da série, pois foi com a qualidade altíssima que a série tinha quando saía do lugar comum que ela cravou o seu lugar na história.

Os personagens

Meu lema quando vejo séries é: pode ser a série melhor escrita, melhor planejada, melhor dirigida, melhor atuada e melhor tudo o que for, se não tiver personagens carismáticos e/ou que eu me identifique, não vale a pena pra mim. Felizmente, Buffy passa muito longe de não ter personagens cativantes, pelo contrário. Do Drácula ao Angel, da Buffy à Buffybot, do eterno coadjuvante Jonathan até Willow, todos tem um tratamento tão bem dado e uma identidade tão forte que é impossível não se deixar levar por eles.

No entanto, o melhor não é nem essa conquista dos personagens quanto ao público e sim suas trajetórias. Ver Anyanka passando de um demônio qualquer para uma das personagens mais integrantes da Scooby Gang é uma das trajetórias mais divertidas da série. Acompanhar o conflito interno de Angel pode ser até meio chato para alguns, mas outros defenderão o personagem até a morte. Assistir Spike sair de um projeto de vilão para ir ao maior potencial par da personagem-título é lindo de se ver. Ainda assim, nenhuma dessas evoluções chega perto da evolução do trio de protagonistas.

Como falei no início, Buffy passa por um processo de maturação que vai apagando gradualmente seu calor humano e o brilho do olhar para dar lugar a um semblante cada vez mais sério e preocupado, de alguém que tem cada vez mais noção de todas as responsabilidades que carrega. Xander passa por um processo semelhante ao sair do inseguro menino para um homem que descobre quem quer ser e o que pode fazer com o que tem em mãos. E o que falar de Willow? O que falar da minha personagem preferida de todas as séries que eu já vi? Acho que não tem como resumir apropriadamente, mas posso dizer que a Willow que encerra a série é tão igual e ao mesmo tempo tão diferente daquela do início que isso só torna a sua trajetória ainda mais sensacional.

Ainda há outros personagens que eu poderia ressaltar como Cordelia, Giles, Faith, Dawn, Oz e Joyce, porém eu precisaria de um especial separado para falar sobre como cada um deles é repleto de nuances e como suas respectivas trajetórias revelam o quanto a série acertou com seus personagens.

 

Essas foram apenas as principais razões que encontrei para tentar resumir o quão excelente Buffy the Vampire Slayer foi. Deixei muita coisa de fora, é verdade e infelizmente não iria caber tudo aqui mesmo. Contudo, creio que talvez seja hora de você desfrutá-la, pela primeira vez ou não, e poder aproveitar toda a experiência inesquecível com a qual ela nos presenteia em sua plenitude.

“She saved the world. A lot”

PS: A série encontra-se completa na Netflix.

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Ícaro
Ícaro

Cinéfilo de carteirinha e atual professor de Herbologia em Hogwarts, tem a escrita como uma de suas paixões e acha que o mundo seria um lugar melhor se as pessoas não ligassem tanto para a opinião dos outros.
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