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Panelaço: Motivos Para Assistir The Handmaid’s Tale

The Handmaid’s Tale veio pra destruir com o emocional de todo mundo ao contar uma história que tem todos os ares de ser uma distopia, distante do nosso mundo, mas que aos poucos vai mostrando que a realidade e a ficção nunca foram tão próximas.

Baseada no livro de mesmo nome escrito por Margaret Atwood, a série exibida pelo canal Hulu conta a história de um Estados Unidos que foi tomado por uma ditadura militar-teocrática e acaba alterando todas as bases da sociedade como nós conhecemos. A única coisa que não muda é o machismo, agora amplamente baseado por aquilo que está na Bíblia. Nessa nova realidade, livros, jornais, revistas e filmes não existem mais, tudo foi destruído pelo novo governo. O mesmo pode ser dito sobre universidades, professores e até mesmo advogados, já que o direito a defesa não existe mais. As pessoas que são consideradas criminosas são fuziladas e penduradas no Muro, em praça pública, para que todos possam ver e que as mortes sirvam de exemplo enquanto os corpos apodrecem. Para ser considerado um criminoso nesse novo regime não é necessário que a pessoa faça algo tão grave — o simples ato de cantar uma música em existam palavras proibidas no novo sistema, como “liberdade”, já é o suficiente.

Na Gilead, novo nome do Estado, absolutamente teocrático e totalitário, as mulheres são as maiores vítimas, anuladas por uma opressão como nunca antes se viu na história. Na Gilead, as mulheres não têm direitos e são divididas em diversos categorias, cada um deles possuindo uma função específica no novo Estado. Uma dessas categorias é a de aia, na qual a mulher pertence ao governo e existe unicamente para procriar. Nesse futuro, houve uma catástrofe nuclear que tornou boa parte da população estéril, e tornou todas as mulheres que ainda podiam ter filhos preciosidades. Elas são transformadas em aias e são oferecidas pelo governo a algum homem do alto escalão do Exército e são estupradas diariamente até que engravidem. Quando conseguem engravidar e a criança nasce saudável, as aias amamentam a criança, que é propriedade do casal que a escravizou, durante alguns meses e em seguida são entregues a outro homem, para o processo recomeçar. As aias não tem mais nomes próprios e recebem o nome do homem a quem pertencem. Interpretada por Elizabeth Moss, a protagonista da série tem o nome de Offred, do inglês of Fred, cuja tradução é “de Fred” ou “pertencente ao homem chamado Fred”. As aias são controladas dia e noite, não tendo permissão para ler, escrever e só podem ir ao banheiro um determinado número de vezes por dia. Além disso, nenhum homem pode ver nenhuma parte de seu corpo e o ideal é que até o rosto esteja escondido. Um destino ruim também é reservado para as não-mulheres, que são aquelas que não podem ter filhos, as homossexuais, viúvas e feministas. Elas precisam trabalhar nas colônias, que são lugares onde o nível de radiação é altíssimo.

Agora que já vimos as bases da história, o Panela de Séries traz 6 motivos para vocês verem a série.

1 – Premiações 

A série foi uma das grandes vencedoras do Emmy.  Ganhou o prêmio de melhor série dramática, desbancando Westworld, Stranger Things, This Is Us e House of Cards, só para citar algumas. Além disso, também levou o prêmio de melhor atriz em série dramática, premiando Elizabeth Moss pelo excelente trabalho na série – sério, a atuação dela é algo inacreditável, merecendo ganhar todos os prêmios que sejam possíveis ganhar. Nem Viola Davis foi páreo para ela.

Outro prêmio rolou na categoria de Atriz coadjuvante em série dramática, consagrando o trabalho de Ann Dowd na série. Se fosse uma novela da Globo, certamente a atriz seria uma daquelas que seria xingada e ofendida nas ruas. A personagem dela, Tia Lydia, é uma espécie de tutora para as aias, dizendo o que elas podem ou não podem fazer, reprimindo e atacando a menor possibilidade de rebelião – inclusive, a reação dela ao ser chamada para receber o prêmio foi muito boa, já que ela foi pega totalmente de surpresa. Além disso, outra atriz da série também concorreu nessa categoria. Samira Wiley também foi indicada, mostrando a força da série nas atuações.

Se esses três prêmios não foram suficientes para você querer ver a série, ainda tem mais um. The Handmaid’s Tale também venceu o prêmio de Direção em série dramática, com Reed Morano. Tá bom ou quer mais? Se quiser mais, ainda tem prêmio por melhor roteiro pra série de drama, design de produção, cinematografia para série com câmera única e melhor atriz convidada para Alexis Bledel (Ofglen). Oito Emmys já parece um bom começo pra primeira temporada, não?

2 – A crítica ao momento atual do mundo

O livro foi escrito nos anos 80, então a história se passa naquela época. Mas a série se passa em um período que não sabemos se é um futuro próximo ou um presente alternativo. Então, questões cotidianas são relatadas e fazem com que seja mais fácil que a série choque as pessoas que a assistem, pela distinção entre o que é real e o que é ficção seja muito tênue. A cada dia que passa, o mundo retrocede mais em questões que já deveriam ter sido ultrapassadas, como a recente discussão sobre a cura gay, punições brandas em casos de feminicidio e toda a questão de ataques à religiões. Além disso, a Turquia não ensina mais evolução nas escolas. The Handmaid’s Tale é vista como uma distopia, mas até que ponto os acontecimentos da série são tão diferentes do que aqueles que as mulheres passam quase que diariamente?

3 – A importância do streaming

The Handmaid’s Tale é do Hulu, um canal de streaming que vem produzindo produtos de grande qualidade, como 11.22.63, adaptação de um livro do Stephen King (vejam, vale muito a pena), além do projeto vindouro Marvel’s Runaways. Mas a questão aqui é que quanto mais séries feitas por serviços de streaming ganharem prêmios, mais reconhecimento os canais, e os produtos, terão. É importante que a dependência dos canais de televisão diminua, pois dessa forma o conteúdo fica ainda mais diferenciado e mais e mais obras são trazidas para o público. Séries como Sense 8 Orange Is the New Black, só pra citar dois exemplos, abordam questões muito importantes e que muito provavelmente não seriam feitas pelos canais abertos da televisão americana. Fortalecer o streaming é melhorar o produto que consumimos.

Porém, tem o outro lado da história. The Handmaid’s Tale é uma série que ficou bastante desconhecida do grande público, exatamente por não estar sendo divulgada pelos grandes canais. Aqui no Brasil, poucas pessoas ficaram sabendo da existência da série e foram conhecer toda a genialidade da série só após as indicações e premiações do Emmy. Mas não se desespere. O Paramount Channel, da tv paga, vai transmitir a série. Ainda não há data para acontecer a estreia, mas o canal diz que é em breve.

https://twitter.com/ParamountTVBR/status/910156290495733760

4 – O protagonismo das mulheres

Mais importante do que todas as outras coisas é ver que esse ano vem sendo um ano das mulheres serem protagonistas das séries. Big Little Lies, para dar outro exemplo, foi uma série que conquistou diversos prêmios e traz mulheres nos papeis principais. The Handmaid’s Tale tem mulheres como protagonistas, como coadjuvantes e poucos são os papeis masculinos de relevância na série. Por ser um universo “distópico” que mostra as mulheres sendo rebaixadas ao menor lugar possível na sociedade – mas ao mesmo tempo tendo suma importância para a manutenção da espécie – o foco da série é todo nas mulheres e em como elas lidam com esse admirável mundo novo. Para isso, foram necessárias grandes atuações de todas as atrizes envolvidas, para passar o peso de todo um mundo pautado num machismo ainda maior do que o que temos hoje. Elizabeth Moss está muito bem como protagonista, Yvonne Strzechowski é outra que rouba a cena toda vez que aparece. Alexis Bledel também tá muito bem no tempo em que aparece. A Samira Wiley como Moira traz a qualidade de sempre pra abrilhantar a série ainda mais. E ainda tem a Ann Doyd, sendo aquela vilã que a gente odeia com todas as forças.

5 – O peso das cenas

A série vai te deixar mal. Isso é uma verdade que tu já precisa saber antes mesmo de começar a ver. Em um mundo onde mulheres são estupradas todos os dias até engravidarem, darem a luz, amamentar, dar o filho pra família do homem que a estuprou e depois recomeçar o ciclo, as cenas vão ser pesadas. A forma como o estupro é visto como uma questão de viver ou morrer, já que ou as mulheres “aceitam” isso ou vão para campos de trabalho forçado trabalhar com radiação; a dor da lembrança de um passado que já não existe mais e que talvez nunca mais volte; o drama de esquecer até mesmo o seu nome, porque nesse mundo nem um nome as mulheres podem ter mais. A história é pesada, densa, cheia de emoções e que serve exatamente pra isso, pra chocar o mundo.

6 – O cuidado com o presente/futuro

O livro foi lançado na década de 80, mas os temas nele discutidos são mais atuais do que nunca. Como já dito anteriormente, a crítica ao momento atual do mundo permeia a obra. Mas não basta a crítica. Precisamos ter noção do que está acontecendo, do que a obra está tentando nos mostrar, porque uma passagem diz que as pessoas viram as mudanças acontecendo, mas demoraram demais para lutar pelos direitos. Quando foram para as ruas, já era tarde demais. O novo governo já respondia com tiros qualquer protesto.

E isso a série faz com grande qualidade, pois faz com que a gente reflita o ponto em que tudo chegou e pense até que ponto estamos muito distantes de nos tornarmos a Gilead. Afinal de contas, todos os pontos que deram origem a essa nova nação já existem, porque machismo e totalitarismo religioso já fazem parte da nossa sociedade. O futuro, como diz a imagem abaixo, é um maldito pesadelo, mas até que ponto o presente já não é um?

MENÇÃO HONROSA: leiam o livro, gentes. A obra é de uma profundidade absurda, trazendo muito mais peso pra história, mostrando o que a Offred realmente pensa, falando mais profundamente do que realmente acontece naquele mundo muito louco. Têm discussões bem boas sobre feminismo, sobre a questão de estar presa em um universo opressivo e aceitar a opressão como forma de sobrevivência – e precisar lidar com isso em algum momento. Além disso, o texto da Margaret Atwood é muito bem escrito e merece todo o reconhecimento que tão dando pro livro. Vale o investimento, mesmo.

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Rafael Augusto

Um hiperativo que não sabe viver sem ler, escrever, ouvir música, ver séries e filmes, geralmente tudo ao mesmo tempo. Fã de ficção científica, suspense, Stephen King e histórias em quadrinhos.


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