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Panelaço: Os Melhores Filmes de 2017

Um ano de surpresas.

Esquadrão Suicida levando um Oscar, a confusão na revelação do vencedor da categoria de Melhor Filme, uma super-heroína se tornando a maior bilheteria de um filme de origem de heróis, um terror sobre racismo se tornando um inesperado sucesso de crítica e público, um filme de uma franquia famosa se tornando massivamente aprovado pela crítica e desaprovado pelo público, polêmicas relacionada a assédios Hollywood… 2017 foi definitivamente um ano singular para o Cinema em diversos aspectos, mas nenhum deles foi mais significativo do que em relação à qualidade dos próprios filmes.

De modo geral, não lembro qual foi a última vez onde filmes mainstream mostraram tanta vontade de ir longe, de colocarem contra a correnteza de padronização e zona de conforto. Não lembro qual foi o último ano onde vimos tanta diversidade dentro ou fora das histórias contadas em tela. Este ano representou uma ótima tentativa de mudança no cenário audiovisual e este Panelaço tem a árdua tarefa de representar com seis obras um ano repletos de filmes excelentes. Lembrando que levamos em conta o lançamento em terras tupiniquins, ou seja, alguns filmes cotados para o Oscar do ano que vem e que não estrearam ainda por aqui não serão considerados. Dito isto, vamos ao ranking!

6° – Star Wars: Os Últimos Jedi (Star Wars: Episode VIII – The Last Jedi), dirigido por Rian Johnson

Quando O Despertar da Força foi lançado há dois anos, ele nos apresentou novos personagens, trouxe o retorno de outros, deixou diversas perguntas no ar e lacunas a serem preenchidas pela sequência. Eis que chega aos cinemas neste fim de ano e o que ele faz? Subverte todas essas expectativas criadas, toma decisões ousadas e pavimenta um futuro completamente inesperado para a saga. No entanto, não é apenas por fazer isso que o oitavo episódio dessa space opera está nessa lista, e sim pela maneira como ela faz isso.

Rian Johnson poderia muito facilmente descaracterizar o que já conhecíamos, poderia muito bem manchar este episódio com suas decisões, mas não isso que acontece. Ao trocar o maniqueísmo por humanização, o diretor torna uma saga que sempre possuiu um escopo de escala em algo humanizado, deixando a jornada muito mais intensa, muito mais urgente e muito mais inesquecível. Numa terra dominada por franquias que não arriscam, que fazem um feijão com arroz desapaixonado e robótico, que estão mais preocupadas com o que está por vir do que com o que está acontecendo agora, Os Últimos Jedi trouxe um sopro de ar fresco muito bem-vindo que mais do que justificam sua posição aqui.

5º – Corra! (Get Out), dirigido por Jordan Peele

Já nos assustamos com psicopatas, assassinos em séries, espíritos, alienígenas e monstros de todos os tipos. Ainda assim, nenhum deles assusta tanto quanto o tema tratado por Corra!, que é o preconceito. O racismo, mais especificamente. Ao utilizar este assunto como ponto de partida para sua obra, Peele se permite ir além de um terror comum e aproveita para tecer comentários importantes sobre algo que assusta diversas pessoas no dia-a-dia. Quando um policial aborda o carro onde o protagonista está com sua namorada, a situação é tensa e facilmente convence o público de que estamos diante de mais um caso de preconceito pela sua proximidade com a realidade. Quando Chris está vivendo com os Armitage, há um desconforto constante e crescente que é perfeitamente identificável como uma sensação de não-pertencimento, de rejeição, ainda que o contexto seja bem maior que este.

No entanto, o sucesso de Corra! não se limita apenas à discussão de um problema social e Peele concebe seu filme com um domínio invejável. O roteiro não deixa uma ponta solta sequer, a direção equilibra muito bem a comicidade de certos momentos com a tensão predominante da história, a condução do elenco é espetacular (Kaluuya, Williams, Keener, Gabriel e Howery possuem momentos de puro brilhantismo) e o encerramento é tão icônico quanto genial. Por esse trabalho de estreia completo e excelente que o filme se encontra nesta lista. Por isso e por nos fazer nunca mais olhar para uma xícara da mesma maneira novamente.

PS: O trailer entrega toda a trama do filme. Não que ele dependa de um twist, mas se quiser vê-lo sem saber de nada NÃO veja o trailer abaixo

4º – Manchester à Beira-Mar (Manchester By the Sea), dirigido por Kenneth Lonergan

Há um vazio que permeia as mais de duas horas de Manchester à Beira-Mar. Não um vazio que se assemelhe a uma frieza, uma distância emocional, nada disso. O vazio que o filme carrega consigo é aquele vazio mais se aproxima de um esgotamento emocional, de uma dor que é tão grande que é melhor desligar-se dela e não sentir nada do que sentir alguma coisa. Essa sensação é algo bastante difícil de reproduzir no Cinema, mais difícil ainda é mantê-la por uma longa duração sem fazer com que o filme seja redundante ou excessivamente dramático. Ainda assim, Lonergan faz isso com inteligência ímpar e transforma aquilo que poderia ser algo maçante em uma obra linda de se ver.

Este resultado poderia ser afetado caso o elenco não conseguisse sustentar esse sentimento, porém isso felizmente não acontece. Quase todos estão uniformemente ótimos, mas não tem como não destacar o trabalho de Affleck aqui. A forma como ele captura a essência do personagem, como representa irretocavelmente as transições de cada fase de Lee e como consegue transmitir todos os seus conflitos internos com uma inexpressividade proposital que diz muito mais do que qualquer exagero faz com que esta seja uma das melhores atuações dessa década e talvez do milênio. Uma combinação de roteiro, atuações e direção que coloca como obrigatória a presença deste numa lista de melhores filmes do ano.

3º – Blade Runner 2049 (idem), dirigido por Denis Villeneuve

Lento, contemplativo, filosófico e interpretativo. Não é uma combinação atrativa em se tratando do público em geral. Talvez isso explique o porquê de o primeiro Blade Runner ter sido um fracasso de bilheteria e de esse também não ter ido tão além nesse aspecto. É preciso tempo e paciência para digerir o que ambas as obras tem a oferecer e com Blade Runner 2049, surgindo numa época onde não só blockbuster como o Cinema como um todo bombardeia o público com obras mastigadas e com explicações excessivas, essa demanda é ainda mais difícil de ser atingida.

Entretanto, tudo o que o filme exige do público serve como uma recompensa para o que ele oferece. Sua lentidão é justificada pela maneira como a trama se desenrola. Sua contemplatividade serve para que apreciemos as nuances sutis de toda a jornada dos personagens que acompanhamos. O teor filosófico cai muito bem em uma trama cujo ponto central é a questão do que é ser humano. A ausência de respostas mastigadas instiga o público a interpretar aquilo que vê, o que retira o espectador de uma posição receptiva e faz com que ele se torne parte ativa da experiência. E além disso, ainda há toda uma execução técnica impecável e um elenco irretocável.

Blade Runner 2049 é diferente de tudo o que costumamos ver no Cinema atualmente e isso faz ele merecer uma menção nessa lista.

2º – Moonlight: Sob a Luz do Luar (Moonlight), dirigido por Barry Jenkins

Um comentário comum sobre Moonlight é a de que “nada acontece”. Se você estiver lendo esse texto e for uma dessas pessoas, me desculpa, mas isso demonstra uma falta de sensibilidade enorme diante do desenvolvimento de Chiron aqui. Contando com uma narrativa de três épocas diferentes da vida do protagonista, uma em cada ato, o filme conta muito mais através de imagens e do silêncio do que através de diálogos ou grandes acontecimentos.

Quase não escutamos Chiron durante os dois primeiros terços e quando ele fala sentimos todo o peso que ele carrega interiormente em sua voz. Acompanhamos a maneira como ele observa o mundo a seu redor com um medo palpável de se envolver nele. Vemos que a repressão de sua sexualidade é muito mais devido ao fato de ele não se aceitar como indivíduo do que por qualquer preconceito externo. Quando o filme acaba, a pergunta “quem é você, Chiron?” ainda não é completamente respondida não porque faltou desenvolvimento do personagem, mas porque ele se prendeu tanto dentro de si que acabou por não se conhecer. Um filme delicado, rico tematicamente, que mereceu todos os prêmios que recebeu e que era presença obrigatória aqui.

1 – A Criada (Ah-ga-ssi), dirigido por Park Chan-wook

Somos muito levados a desconsiderar o Cinema de outros países. É muito raro o público brasileiro assistir a qualquer coisa que fuja dos EUA/Reino Unido/Brasil. Sendo assim, creio que muitos de vocês que estão lendo esse Panelaço não deviam nem saber da existência desse filme sul coreano até agora. Posso dizer que se ele se encontra nesta posição, em uma seleção tão forte, méritos são o que não faltam para ele estar aqui.

Perverso, sensual e surpreendente, A Criada possui uma duração longa e ainda assim parece passar em pouco tempo. Seu ritmo ágil, sua trama repleta de reviravoltas, seus personagens intrigantes, sua coragem de ser ousado, seu elenco afiado e comandado por uma direção exemplar… tudo em A Criada faz a experiência ser completa e, ao fim, nos deixa completamente sem fôlego diante daquilo que acabamos de assistir.

Sei que fui bastante vago, mas é simplesmente porque acredito que esse filme mereça ser apreciado com o mínimo de conhecimento possível para que, assim, cada pequeno momento possa ser aproveitado em sua plenitude. Se você ainda não viu esse filme e não tem estômago fraco para sexo e violência, assista e entenda o porquê de ele ser considerado pelo Panela de Séries como o melhor filme de 2017.

E esse foi o Panelaço de melhores filmes de 2017. Já viu todos? Concorda ou discorda com algumas posições? Deixe seu comentário e diga o que achou das escolhas!

Menções honrosas:

  • Mulher-Maravilha
  • Toni Erdmann
  • Silêncio
  • Em Ritmo de Fuga

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  • Phelipe Tylin

    Preciso assistir A criada, todos falam bem.

  • robson a

    Muito boa a lista Ícaro.
    Merecido o primeiro lugar, esse filme precisa ser descoberto.
    Injusto mesmo, só Moonlight e Star Wars.
    Faltou A Ghost Story, meu fav do ano e melhor que vi em tempos. Colocaria também Raw nas menções.

Autor

Ícaro

Cinéfilo de carteirinha e atual professor de Herbologia em Hogwarts, tem a escrita como uma de suas paixões e acha que o mundo seria um lugar melhor se as pessoas não ligassem tanto para a opinião dos outros.


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