Quero meus 5 dólares de volta.

Há poucas coisas piores em RuPaul’s Drag Race do que uma queen desistindo quando é convidada a dublar por sua vida. O lipsync é o aspecto mais sagrado do reality, e resignar-se à eliminação é um ato de desrespeito. Se uma rainha é convidada (sim, convidada. Lipsync não é o fim, é uma chance de ouro) para o lipsync, é melhor que ela se esforce nele, ou corre o risco de destruir toda a imagem construída durante a temporada. Os nervos podem muitas vezes ficar como obstáculo na dublagem, sendo um verdadeiro reflexo do talento de uma rainha, mas isso não é o que aconteceu com Charlie Hides nesta semana. Quando ela se viu no fundo do poço, parou completamente de tentar se salvar, exibindo para nós um lipsync extremamente desagradável.

Charlie entra no lipsync com muita bagagem emocional, eu concordo. E, como ela mesma disse, ela não dubla, mas canta ao vivo. Porém, nada disso justifica seu desempenho abissal. Antes da passarela, a queen se desmancha falando sobre a crise da AIDS e como ela perdeu muitos de seus melhores amigos durante esse tempo, e tenho certeza que é difícil sair dessa vibe pesada para logo depois disso trabalhar para os jurados. Mas poxa, garota… quando RuPaul diz para você dublar por sua vida, você precisa se livrar de tudo o que está segurando você e mostrar que ela não cometeu um erro gigante em lhe escolher para competir nesta temporada. Charlie está parada no mesmo lugar, abanando as mãos aleatoriamente ao som de “I Wanna Go” enquanto, enquanto sua energia é tão baixa que as queens ao fundo começam a gritar para ela fazer algum esforço.

Eu não consigo me lembrar de nenhum outro momento em que as queens gritaram com alguém para se recompor durante o lipsync, e Charlie Hides dá, na minha opinião, o pior lipsync da história do programa. Sua entrevista exibida durante a dublagem torna-se ainda pior quando ela usa a desculpa de que as queens britânicas cantam ao vivo em vez de sincronização labial – então, ela está apenas esperando RuPaul dizê-la “sashay, away”. Infelizmente, depositei muito do meu carinho e confiança em Charlie, porém ela tem sido muito insegura durante a temporada – principalmente por causa da sua idade – e se dar mal em um desafio que ela esperava fazer muito bem foi algo que simplesmente destruiu sua autoconfiança.

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“Good Morning Bitches” dá às queens um desafio divertido que as divide em equipes de dois programas matinais (como na Season 3, lembram? Um desafio muito foda). Porém, o ritmo segue um pouco áspero. Como em “She Done Already Done Brought It On”, o episódio se concentrou em uma única equipe durante o processo de planejamento do desafio, o que tirou muito a tensão da narrativa. É claro que a equipe do “Morning Bitches” foi bem melhor que a do “Not On Today”, mas com uma delas recebendo toda a atenção antes de filmar, a edição deixa mais óbvio ainda quem são as vencedoras e as perdedoras.

A rivalidade entre Trinity e Eureka foi provocada no início da temporada, e reacende quando Trinity escolhe Eureka para estar na sua equipe do “Not On Today”. É um pouco desagradável como Eureka constantemente questiona a autoridade de Trinity como líder da equipe, mas há também a questão de Trinity não ouvir o resto de sua equipe quando toma decisões. Eu acho legal esse espírito de liderança, quando Trinity se encarrega de atribuir papéis, mas criar um ambiente onde todos se sentem envolvidos é importante também para construir uma forte dinâmica de grupo. Sua equipe não tem isso, e o resultado é um programa ao vivo que mais parece um ensaio (e um péssimo ensaio, diga-se de passagem).

Criar um enredo para as âncoras, no qual Peppermint está dormindo com o marido de Trinity, é uma decisão ruim que é especialmente prejudicial ao personagem de Trinity, que se comporta como alguém frio e não muito envolvente diante das câmeras. Da mesma forma, Peppermint não tem o calor convidativo de uma âncora que precisa “esquentar” seus telespectadores para que eles comecem o dia bem-humorados. Já Charlie é muito agressiva com Cynthia durante os ensaios, para ter certeza de que ela não vai errar a pronúncia das palavras. Mas, uma vez de frente para a câmera, Cynthia é a única que parece entender bem o que está fazendo.

Charlie acredita que sua experiência a torna especialista no desafio, o que a leva a ultrapassar os limites. A entrevista em equipe com Naya Rivera (MINHA SANTANA ESTÁ VIVA, SIMMMM) tem um ar meio morto durante, mas desmorona completamente no final, quando Charlie resolve dar a despedida do programa achando que as âncoras haviam se esquecido de fazê-lo Trinity e Peppermint não sabem o que está acontecendo, e Naya se sente, obviamente, aborrecida por não ter conseguido dar um bom “Tchau, tchau”. Charlie não recebe a culpa dos jurados mais tarde, e Trinity e Peppermint acabam compartilhando a responsabilidade por não assumir o controle e certificar-se de que a convidada do programa recebeu uma saudação de despedida graciosa.

A equipe do “Good Morning Bitches” é totalmente salva, o que é bom, pois deu pra notar de longe como ela foi bem superior. Não temos ideia de como Aja funciona liderando uma equipe, o que é lamentável, porque parece que há um grande potencial dramático em se colocar a queen do bottom da semana passada como líder. Ganhamos uma boa quantidade de rivalidade entre ela e Valentina, sendo que esta demonstra total maturidade em reagir à negatividade de Aja. Ela reconhece que Aja a está atacando por não receber os elogios que deseja, e respeitosamente diz para ela se concentrar em dar aos jurados o que eles pedem, em vez de ficar atacando sua concorrência.

Eu realmente gosto da vibe da Valentina. É refrescante ter uma drag jovem e extremamente polida, com autossegurança e que não é arrogante sobre seu talento. Ela, na verdade, está interessada em usar a experiência do Drag Race para crescer na sua carreira, e vê as outras queens como irmãs que podem ensiná-la, em vez de inimigas que precisam ser retiradas.

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Shea e Sasha são as grandes vencedoras da semana, fazendo um trabalho surpreendente com sua esquete que mostra como utilizar a barra de chocolate RuPaul em refeições saudáveis. Ao contrário de Trinity e Peppermint, elas trazem enriquecimento para seus personagens, e sua atração uma pela outra amplifica a química diante das câmeras. É bom ver esse lado bobo da Sasha, e ela sabe ter Shea como uma boa parceira – por falar em Shea, ela vem crescendo assombrosamente nesta temporada, e já tá atrás de garantir seu lugar na final, hein?

Eu realmente não gosto quando o Drag Race faz um desfile abreviado, porque é muito difícil obter uma impressão de “naughty nighties” quando elas só são mostradas na tela por alguns segundos. Isso também rouba de nós a reação dos jurados, e faz com que a passarela seja um quadro muito vazio do programa. Dito isso, uma festa do pijama não é uma categoria de runway muito emocionante. A equipe de Aja faz looks de lingerie mais tradicionais, enquanto a equipe de Trinity vem bem mais ambiciosa, ganhando até o nome de “prostitutas” por Michelle. E eu amei quando Ross se referiu diretamente a Cynthia, Eureka e Nina, dizendo que as três ainda estão apropriadas para a hora de dormir, mas estão fazendo algo diferente no quarto. Hehe.

Trinity acaba no bottom com Charlie, por ser a líder da equipe perdedora, e tipo… que cena horrível quando o lipsync começa. É essencialmente uma performance solo da Trinity, e enquanto la está fazendo todos os movimentos certos na passarela, a completa falta de entusiasmo de Charlie joga uma sombra em todo o momento. Uma grande parte da diversão do lipsync é ver as queens reagindo uma às outra e se alimentando da energia uma da outra, e, por se recusar a se envolver, Charlie acaba colocando a última pá de terra sobre o episódio. É raro para mim ficar chateado depois de um episódio de Drag Race quando eu concordo completamente com a eliminação, mas o lipsync de Charlie parece realmente algo exibido para afugentar o público. Estamos aqui para ver drag queens competir, e a dublagem é o momento em que elas podem realmente entregar tudo de si. Mas, por se recusar a fazer qualquer esforço, Charlie Hides engana a si mesma, aos jurados e aos telespectadores. Uma pena, mesmo.

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Rapidinhas:

• Shea é muito boa diante das câmeras! Espero que ela termine como fixa no WOW Presents do YouTube depois da temporada.

• Qual é a deficiência da Valentina? Fiquei aguardando a resposta e Eureka a corta antes que ela possa compartilhar. Aff.

• Entre sua atitude ácida com Trinity e suas unhas de fora para Sasha depois de uma piada sobre desordem alimentar, Eureka está, aos poucos, mostrando seu potencial de vilã nesta temporada.

• A reflexão de Sasha após a discussão sobre a AIDS é muito, muito similar a ela refletindo sobre a tragédia da Pulse na semana passada. Ela é boa em falar coisas inteligentes, acerca de como esses eventos afetam a nossa comunidade.

• Nina Bo’Nina Brown Joyner-Kersee. Nina Bo’Nina Brown Rodham Clinton. Nina Bo’Nina Brown Bowyer-Chapman.

• Sua Santidade, Naya Rivera, foi uma jurada muito comprometida, o que eu gostei bastante!

• “Elas têm uma boa química. Mas, às vezes, as coisas podem entrar em combustão no laboratório de química. Entende o que eu tô dizendo?”

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Henry Kapranos
Henry Kapranos

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  • Bruno D Rangel

    Charlie foi a primeira com quem simpatizei de verdade e me decepcionou demais nesse programa. A falta de confiança se transformou em uma desistência. Uma pena. E o pior é que não foi nem uma desistência emocionante, como a da Yara Sofia. Triste.

    Valentina me impressiona com a maturidade e a calma de não entrar no jogo de Aja e Eureka (as duas vilãs para mim e quem eu menos gosto).

    Achei que Peppermint merecia mais o bottom do que Trinity. Aquela roupa dela tava de doer. Sasha se mostrando uma ótima pessoa. Não gostei dela no começo, mas já aparece entre minhas favoritas.

    Por fim, o desfile curto, a ausência de mini challenge e o fato de mostrarem apenas uma equipe nos ensaios frustra demais.

    • Henry Ribeiro

      Oi, Bruno!

      Então, eu também tinha simpatizado bastante com a Charlie. Achei que ela seria uma surpresa boa, por ser material para ir longe na competição, mas durante todo o episódio ela me surpreendeu negativamente. É uma pena que a desistência dela não tenha sido com a da Yara, que saiu por cima, mas né… choices.

      Valentina é aquela coisa centrada, focada no jogo, em fazer o melhor dela sem puxar o tapete de ninguém. Ela me lembra muito a Violet da metade pro fim do jogo. Isso me atrai muito e me faz gostar dela cada vez mais!

      Aquela roupa da Peppermint… Jesus. Acho que o fato da Trinity ter ido ao bottom se devia tão somente a sua liderança bem questionável, porque o look dela tava muito bom. Sasha é um amor, né? Quero no Top 3 sim!

      Saíram 11 minutos extras dos cortes, tu viu? Se não viu, eu te passo o link! Um abraço!

      • Bruno D Rangel

        To aqui, esperando ansiosamente pelo link hahaha

        • Henry Ribeiro

          Desculpa pela demora!

          facebook.com/FuzzcoNews/videos/vb.1454833861438887/1855136164741986

  • Eduardo

    Não sei, quando vejo atitudes como as de Jaymes e Charlie, entrando no programa fragilizadas e saindo pior ainda (não ao ponto de gravar uma setlist com 14 músicas e depois se matar na banheira), eu fico me perguntando o quanto RuPaul conhece suas candidatas, ou se “lucra” com a vergonha das meninas.

    Ps 1: Sasha continua uma cópia de Alaska, mas rende boas surpresas.
    Ps 2: Eureka quer ser Ginger Minj. Que bom que Trinity taí pra impedi-la.

    • Henry Ribeiro

      Oi, Eduardo!

      Olha, é complicado isso em realities. Quando se entra em um programa desse tipo, você tem que estar com seu psicológico a 500% e apenas foco, foco, foco no jogo. Não se pode deixar levar pelo seu individual, nem esmorecer por qualquer coisa. É triste que RuPaul talvez não tenha feito as melhores escolhas nessa season – e olha que eu nem tô falando apenas das meninas!

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