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Strike – S01E01 – The Cuckoo’s Calling, Part 1 [Series Premiere]

A beleza de uma adaptação bem feita.

Muitas vezes quando se adapta algum material para o audiovisual, seja ele um livro, uma história em quadrinhos, um conto ou afins, há grandes chances de ele perder sua “alma”, sua identidade nessa transposição. E nem falo sobre acontecimentos mudados, personagens e/ou tramas deixados de lado na transição de mídias ou algo assim, uma vez que muitas adaptações copiam o original sem qualquer alteração e mesmo assim parecem vazias de conteúdo. Falo sobre de colocar em tela o que nos conquistou naquela história que conhecemos anteriormente, de traduzir neste novo trabalho toda a intenção e características que tornam aquela história bem-sucedida.

Baseados nos livros escritos por J.K. Rowling sob o pseudônimo de “Robert Gailbraith”, especificamente em “O Chamado do Cuco” nesse episódio, podemos dizer que Strike faz isso muitíssimo bem. Através de uma sequência inicial sem diálogos que retrata perfeitamente a superficialidade e o vazio da vida de Lula Landry, a série já mostra que está disposta a ser um material audiovisual antes de qualquer coisa, livrando-se de quaisquer possíveis amarras que o livro poderia trazer (toda essa sequência é distribuída pelo livro através do relato de diferentes pessoas sobre aquela noite), ao mesmo tempo em que sinaliza que manterá pulsante o cerne da escrita de Rowling quando mostra diversos detalhes tão característicos da história, como a máscara de lobo.

Isso é bom tanto para quem leu os livros e quer ver como certos aspectos ganharão vida na TV quanto para quem simplesmente quer acompanhar uma boa série investigativa. Estando em ambos os grupos, devo dizer que esse primeiro episódio me deixou bastante satisfeito por três motivos: elenco, adaptações e direção. Não que apenas esses atributos tenham apresentado qualidade, mas eles se destacaram tanto do restante que seria difícil não focar neles.

A começar por aquele que considero o maior acerto desse início de série, devo dizer que o elenco não tem um ponto ruim sequer. Johnson, mesmo sem falas, apresenta a beleza etérea tão alardeada de Lula nos livros sem esquecer de oferecer a ela um tom humano. Fitzgerald opta por um caminho contido que torna sua Tansy misteriosa e instigante. Scott mescla com exatidão a repulsa de seu Wardle por essa investigação específica de Cormoran e a cordialidade pelo respeito de sua função. É um conjunto de elenco afinado e afiado que deixa a série bastante atrativa. E se os coadjuvantes conseguem aproveitar o jogo de aparências sem cair na caricatura, os protagonistas superam esses trabalhos e intensificam todas as marcas dos personagens literários.

Mesmo sendo mais bonito (ou seria “menos feio”? apenas diferente?) que a descrição de sua contraparte, Tom Burke carrega toda a personalidade carrancuda e singular do personagem-título da série e ainda assim confere um carisma a Cormoran que, ao menos pra mim, não era tão forte nos livros. Já Grainger é exatamente aquilo que eu esperava de Robin: graciosa, prática, bela e extremamente cativante. Eu realmente não consigo imaginar alguém sendo uma Robin melhor do que ela. Ainda assim, o ótimo trabalho dos dois nem se compara com a química que eles possuem em cena.

Aproveitando-se da dinâmica singular entre Robin e Cormoran, a série brilha mais forte quando eles dividem a tela. Seja na comicidade causada pelo conflito da praticidade dela com o desleixo dele, seja na maneira como ambos se complementam a química deles é envolvente a ponto de nos fazer torcer para que os momentos entre os dois não acabe tão cedo. Não é à toa que quando Robin diz que sua semana como secretária de Cormoran está acabando, a sensação seja bem amarga, uma vez que sugere que essa relação pode ter um fim.

E Strike reconhece tanto o sucesso da dupla de protagonistas que aproveita para redirecionar o foco da história original para passar mais tempo com ele. Se no livro a trama dos protagonistas e a resolução da investigação ganham pesos equivalentes, tendendo um pouco para o caso da morte de Lula, na série isso é trocado. Estamos acompanhando o dia a dia de Robin e Cormoran e como a investigação é nada mais do que um mero trabalho a se fazer. Um exemplo disso é quando Robin compra um café para oferecer a Cormoran e a John e a cena foca mais na troca de olhares entre os dois do que no que Bristow está dizendo. Colocando a morte de Lula como uma trama paralela de luxo, a série foca no que tem de melhor e prioriza o desenvolvimento dos personagens que continuaremos a acompanhar no futuro.

Essa não é, porém, a única mudança acertada da série em relação ao livro. Mudando a ordem dos acontecimentos aqui (Rochelle fica viva por bastante tempo no livro) e suprimindo cenas em prol do ritmo acolá (Robin aceitando o pedido de casamento de Matthew foi resumido em um olhar rápido sobre a aliança dela), a série consegue suscitar um frescor que é capaz de fisgar até mesmo quem já sabe os rumos da história. O que é um elogio e tanto se tratando de uma trama que poderia soar facilmente maçante ou formulaica.

Grande parte dos méritos dessas decisões devem-se à direção de Michael Keillor, que não sucumbe em nenhum momento à verborragia de entrevista com suspeitos ou a uma estrutura metódica. Além da brilhante direção da sequência de abertura sem diálogos, Keillor aposta sempre que possível por planos-detalhes para nos contar visualmente a história dos personagens sem dizer uma só palavra ou para incluir eficientemente pistas sobre o que realmente ocorreu na morte de Lula. E não falarei nada específico aqui para não estragar a experiência de quem não sabe o que irá acontecer, mas devo dizer que, numa revisão, muitos conseguirão perceber o quanto já foi deixado subentendido nesse episódio de estreia.

Nunca sobrecarregando o público com excesso de informações ou de personagens, a première de Strike acerta em introduzir a história para aqueles que ainda não a conhecem, acerta ao adaptar o livro mantendo sua identidade original, acerta em trazer um elenco exemplar com uma escolha de protagonistas que não poderia ser melhor, mas acerta principalmente em simplesmente conseguir entreter genuinamente o espectador por quase 60 minutos como poucas séries conseguem. Mal posso esperar pelos próximos episódios!

 

PS’s:

  • Elarica Johnson, a atriz que interpreta Lula Landry, é a trouxa com a qual o Harry flerta no início de Harry Potter e o Enigma do Príncipe. Seria ela a mesma personagem? Estaríamos diante de um Potterverse? Rowling sempre esperta;
  • A abertura captura tão bem a atmosfera da série que quando o episódio terminou fui procurá-la e fiquei decepcionado de não encontrá-la em lugar algum;
  • Demorei dois livros para odiar o Matthew, mas levou um segundo nesse episódio para eu gritar “SAI EMBUSTE!”;
  • O berro que eu dei com a Robin querendo pegar o copo… Melhore, Cormoran!
  • Mesmo não sendo 100% fiel aos livros, algumas cenas foram iguais ao que eu imaginei e eu estou muito contente com isso.

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Autor

Ícaro

Cinéfilo de carteirinha e atual professor de Herbologia em Hogwarts, tem a escrita como uma de suas paixões e acha que o mundo seria um lugar melhor se as pessoas não ligassem tanto para a opinião dos outros.

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