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Strike – S01E02 – The Cuckoo’s Calling, Part 2

Aprofundar seus personagens é sempre uma ótima escolha.

Na review do episódio anterior, apontei que a série parecia muito mais um recorte das vidas de Cormoran e Robin, com um plano de fundo sobre a morte de Lula Landry, do que uma série de investigação propriamente dita, e isso ficou ainda mais claro neste segundo episódio. Levando o relacionamento de ambos a um patamar menos cordial e mostrando mais sobre os protagonistas que na première, esta segunda parta da adaptação de O Chamado do Cuco intensificou tudo o que havíamos visto de bom anteriormente.

Começando os comentários do episódio por Robin, devo dizer que o desenvolvimento dela está impecável. Sim, mostrar ocasionalmente o quão desconectado Matthew parece estar dela é uma ótima maneira de mostrar que seu noivado não é tão perfeito quanto aparenta. Sim, mostrá-la pensando rápido e fingindo ser uma outra pessoa quando atende um telefonema no escritório de Cormoran é uma forma eficaz de tratar o quão preparada a personagem é. Contudo, o momento que quero destacar aqui é sua entrevista de emprego.

Inicialmente mostrando a Robin confiante e prática que conhecemos, a cena desconstrói a personagem rapidamente com uma menção ao que aconteceu durante o seu período na universidade. Através dessa memória sendo relutantemente trazida de volta à sua mente, seu olhar determinado vacila e sua firme voz treme, o que indica que, seja lá o que tenha acontecido, ainda é algo que permanece doloroso em sua memória. Isso serve para mostrar que por trás de toda a aparência de uma forte mulher, ainda há uma ferida capaz de abalá-la, e se eu não soubesse o que aconteceu, estaria aqui formando diversas teorias sobre (e falharia em todas elas).

Não foi apenas para exibir esse traço do passado da personagem que a cena serviu, afinal, ela também foi eficaz em situar a presente situação de Robin. Elaborando planos que mostram tanto ela distante daqueles que a entrevistam quanto eles distantes dela, a direção nos diz que aquele universo e ela estão distantes a ponto de não conseguirem mais se manterem em harmonia. Um ponto que é ratificado pela sua expressão no elevador, revelando expectativas e confiança quando ela está chegando e apresentando o surgimento de dúvidas sobre o futuro que ela quer seguir quando ela está saindo. E ainda podemos ir mais longe e dizer que sua função como secretária de um detetive representa o seu desejo real e intenso de trabalho, enquanto a empresa e o trabalho burocrático representam a vida que os outros, incluindo seu noivo, desejaram e criaram para ela. São sutilezas desse tipo que estão colocando Strike em um patamar acima da média.

O desenvolvimento de Cormoran não teve a mesma elegância do de Robin aqui, mas também serviu para mostrar certos traços de sua personalidade que não percebíamos anteriormente. Na breve conversa com sua irmã, pudemos reparar que apesar de eles não terem um relacionamento necessariamente ruim, ele a trata com certa frieza, como se não soubesse ser um irmão, como se achasse que tal aproximação fosse ser prejudicial para um dos lados, como se tivesse medo de criar um laço. Somado a isso, vimos também a facilidade que o detetive possui para se entregar a prazeres efêmeros sem a menor dificuldade, como no caso de sua transa com Ciara ou como quando ele usa o álcool como uma fuga do fim de seu relacionamento com Charlotte.

Se Robin teve um ponto de digressão de quem ela é para dar um primeiro passo para mudança, o personagem-título da série não fica atrás nisso. Utilizando a dinâmica e a química entre os protagonistas para canalizar essa mudança, vemos Cormoran encontrar em Robin a antítese para toda a ideologia que ele seguia. Com ela, ele quebra suas regras, ele sai do âmbito da polidez e seriedade, ele permite que ela realmente o conheça, o que rima justamente com aquilo que ele representa na vida dela: o ponto onde ele realmente pode ser quem é, e não quem os outros querem/esperam que ele seja. É uma complementaridade bela de se ver e impossível de não torcer por e a singela cena deles no bar já é fácil a minha favorita de toda a série.

Mas nem só de Robin e Cormoran a série vive e temos diversos outros personagens e uma morte sendo investigada e esses dois pontos foram também conduzidos com excelência. Em um grau menor, Ciara informou que Lula estava obcecada em descobrir qual era a sua família de nascença, mostrando que ela não estava realmente numa disposição para o suicídio. Sabemos agora que Derrick não estava na portaria e sim na piscina durante a hora da morte de Lula, o que nos leva a considerar um assassinato. Wardle está se tornando ativamente mais envolvido no caso, o que já mostra uma parceria inusitada para um possível próximo caso. Já Lady Bristow basicamente entregou a conclusão do crime dizendo que Lula sentia medo de alguém e logo em seguida dizendo a frase “the leopard never changes his spot”, sugerindo que esse alguém já havia feito algo ruim anteriormente e que o assassinato de Lula não foi um acidente ocasional.

Ainda assim, nenhum desses cenários chegou próximo do impacto do testemunho de Tansy sobre a fatídica noite. Após ser gentilmente chantageada por Cormoran sobre seu relacionamento com Tony, ela começou a revelar não apenas o que aconteceu naquela noite, mas o que vem acontecendo em sua vida. O relacionamento tóxico que ela possui com Freddie é deixou marcas tão profundas que só de saber que alguém possui conhecimento da verdade, de quem ele realmente é e do que realmente aconteceu, seu primeiro instinto não é entregar um depoimento e sim confessar o quão difícil é permanecer sobre tantos abusos. Foi uma cena igualmente delicada e poderosa, especialmente ao mostrar Cormoran desviando o olhar dela, atestando sua dificuldade/rejeição a envolvimento emocional.

Entregando a informação de que Lula disse que era “tarde demais”, Cormoran tem em mãos um cenário completo para o assassinato: alguém que já matou anteriormente e alguém por quem Lula sentia medo teve por volta de trinta minutos para cometer o ato. Essa mesma pessoa estava sendo chantageada por Rochelle e também a matou. Sabemos que não pode ser Tansy, Derrick, Lady Bristow (!), Ciara e Freddie. E com as filmagens que ele recebeu (perceberam as luvas após a morte dela?), já podemos dizer que alguém entre Guy, Evan, John, Tony ou alguém relacionado à busca da família de nascença dela deve ser o assassino. Tendo lido os livros, é óbvio que já sei o futuro, contudo, ver como a série deixou as pistas enxutas só me faz querer elogiá-la ainda mais.

Mantendo o padrão de desenvolver paralelamente o assassinato e os personagens, Strike continua acertando e vai cada vez mais se tornando uma pequena pérola televisiva desse ano. Espero que o desfecho da trama de O Chamado do Cuco no próximo episódio faça jus à qualidade desses dois primeiros e sustente um saldo digno para a série. E pelo trabalho apresentado até agora, não duvido nada de que isso realmente aconteça.

 

PS’s:

  • “É a outra perna que tem as terminações nervosas”. Que safadjénho esse Cormoran!
  •  Se alguém aí não estiver shippando Robin e Cormoran, favor, se retirar pela segunda porta à esquerda;
  • Cormoran bêbado >>>>>>>>

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Autor

Ícaro

Cinéfilo de carteirinha e atual professor de Herbologia em Hogwarts, tem a escrita como uma de suas paixões e acha que o mundo seria um lugar melhor se as pessoas não ligassem tanto para a opinião dos outros.


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