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Strike – S01E03 – The Cuckoo’s Calling, Part 3 [Season Finale]

“O crime é um hábito.”

Uma ideia bastante propagada pela nossa sociedade é que crimes corrompem a pessoa e que é muito difícil, até mesmo impossível, para alguém cometer um crime e voltar a ser um indivíduo íntegro. É sintomático, então, encontrar essa visão em diversas obras ao redor do mundo, principalmente colocando o crime como algo que divide a linha entre o bem e o mal, o certo e o errado. Nessa perspectiva, muitas vezes os personagens vivem num dualismo sem meio-termo, onde sempre há vilões e mocinhos, onde não existem áreas cinzas nas quais os personagens possam ser encontrados.

Desde seu primeiro episódio, Strike apresentou os personagens exatamente nesse prisma menos definido, mais aberto a possibilidades. E isso poderia ser devido ao mistério do “quem matou?”, mas após a resolução do caso sobre a morte de Lula fica claro que não. Ao preencher a história com personagens que fogem do maniqueísmo, a série oferece um retrato humano e realista que torna todo o resultado muito mais crível e palatável do que aquilo que costumamos ver na TV. Casos como o de Guy Somé e do irmão verdadeiro de Lula corroboram para isso: todos são falhos ao mesmo tempo em que possuem suas qualidades. Ainda assim, há uma exceção a essa regra. Uma exceção que atende pelo nome de John Bristow.

Mesmo fugindo de uma abordagem caricatural ao personagem, John não apresenta um lado branco, alguma atitude minimamente não condenável. Ele é um completo vilão sem nenhuma ressalva possível, no entanto isso não diminui, de forma alguma, a construção do personagem. Colocar todas as mortes em sua mão poderia soar preguiçoso ou fácil, aqui, porém, elas reforçam o estabelecimento de certos traços de sua personalidade. John é egocêntrico, prático e inescrupuloso, e todos os assassinatos que ele cometeu surgiram de empecilhos para seus objetivos, não por algum impulso pontual ou por algum prazer obscuro. Até mesmo ao optar por ir atrás de Cormoran, um detetive decadente, e preparar todo o cenário para que ele apenas seja competente o suficiente para ajudá-lo a encontrar o novo o testamento de Lula, ele mostra que não tinha a intenção de o matar.

Esta maneira de estabelecer o personagem é simples, eficaz e faz com que a resolução do mistério, entregue em um diálogo ao invés de ser feita em um grande momento, seja apropriada, pois os holofotes da série nunca foram voltados para esse caso, pelo contrário, ele sempre serviu como plano de fundo para o desenvolvimento de Cormoran e Robin. Um desenvolvimento que, assim como nos episódios anteriores, ganhou uma ótima condução nesta parte final de Cuckoo’s Calling.

Um bom momento para exemplificar isso é o início do episódio, que se dividiu em mostrar Cormoran, Robin e os dois juntos, necessariamente nessa ordem. Toda a sequência que mostrou o passado de Cormoran como militar serviu para propósitos diretos. A perda da perna é algo ruim? Sim. Contudo, o fantasma da memória que ela carrega pode ser ainda pior. E ainda conseguimos vislumbrar a perspicácia que o levou a virar um detetive, quando ele consegue captar o que realmente está acontecendo naquela cena antes do ato se concluir. Nada tão mirabolante, é claro, mas sempre conduzido com competência.

Já na sequência da Vashti, podemos separar em duas partes: uma com Robin sozinha e outra quando Cormoran chega na loja. Na primeira, podemos nos deliciar com Robin fingindo ser uma riquinha fútil enquanto pega informações para o caso de Lula da mesma forma que podemos nos deleitar com a direção e a atuação de Grainger. No começo dessa cena, Robin termina de ler a mensagem de Cormoran e olha para a loja enquanto a câmera gira para focar no seu rosto e acompanha-la enquanto ela entra lá. Nesses instantes podemos ver, tanto pela mudança de expressão da atriz quanto pelo movimento da câmera, Robin conceber a personagem que ela irá assumir e constatar que ela faz isso com evidente prazer. Isso é um exemplo de boa atuação. Isso é um exemplo de um excelente trabalho de direção.

Quando Cormoran chega na loja, o contexto muda de figura. Se antes se tratava de Robin desfrutando-se do fato de finalmente ser mais ativa numa de suas ambições, agora se trata de como o Cormoran enxerga Robin e como ele acha que ela a enxerga. Vê-la naquele vestido verde tenha sido, talvez, a primeira vez que o detetive a encarasse como uma mulher e não só uma parceira de trabalho, o que por si só já perturba a relação deles de alguma forma. Mas é logo após, quando ele se mira no espelho e tenta se ajeitar, que fica claro que não só ele enxerga ela como uma mulher, como também ele se considera indigno de tê-la. Conseguir transmitir tanto significado, avançar tanto o desenvolvimento de uma história e de personagens em tão pouco tempo é algo que merece ser reconhecido e que mostra que a série está no caminho certo.

Aliás, é curioso notar isso, esse desenvolvimento sutil não é mero acerto ocasional, já que esse início foi refletido durante o episódio em diversos momentos. Compartilhando e partilhando as coletas das últimas informações sobre o caso, a dinâmica e a química dos protagonistas foi explorada ao máximo nesse episódio e foi impossível resistir aos dois em diversas cenas como naquela em que eles abordam Guy Somé ou naquela onde Robin conta o que descobriu sobre a família de nascença de Lula e acidentalmente o mostra uma foto dela e Matthew. No entanto, dentre elas, o destaque fica para aquela onde Cormoran pega nos braços de Robin enquanto eles estão na sacada do apartamento de Lula. O desconcerto dela é tão impagável que eu repeti a cena umas cinco vezes só quando vi pela primeira vez.

Encerrando em uma nota bem menos anti-romântica que sua contraparte (nos livros, Cormoran só deu o vestido para Robin achando que ela não continuaria a trabalhar com ele), a adaptação de O Chamado do Cuco prova que não se é preciso muito para se fazer um trabalho com qualidade, visto que todas as escolhas acertadas, todos os elogios que fiz durante esses três episódios surgiram muito mais relacionados a um apuro cuidadoso do que de uma ambição grandiosa, e isso é muito mais difícil de se fazer do que se parece.

O Bicho-da-Seda vai ter um grande desafio para conseguir superar o que foi apresentado aqui como adaptação e como obra independente, mas se conseguir manter o nível apresentado no primeiro episódio, o episódio mais low-profile da série até agora, já posso afirmar que Strike tem um futuro brilhante pela frente.

PS’S:

  • A transição dos sons de hélices de helicóptero para os sons da obra quando Cormoran acorda foi genial. Fora que demonstra um cuidado cirúrgico maravilhoso com cada aspecto possível. Michael Keillor é um ótimo diretor e é uma pena que ele não volte para os episódios de Bicho-da-Seda.
  • Atacar as pessoas com a perna do amigo. Quem nunca?
  • Eu queria deixar a review o mais positiva possível, mas tenho uma grande ressalva com o episódio: toda a cena com irmão da Lula foi muito ruim. E o ator que faz o irmão dela foi horrível. Mas estamos escondendo na fanbase.
  • Não é por nada, mas alguém aí conseguiria resistir à Robin usando aquele vestido? Ou à Robin num geral mesmo? Que mulher!
  • Por mais que aqui diga “SEASON FINALE”, ainda tem dois episódios pela frente. A nomeação é por pura questão de arquivamento mesmo.
  • COMO FAZ PARA PARAR DE SHIPPAR ROBIN E CORMORAN, GENTE?

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Autor

Ícaro

Cinéfilo de carteirinha e atual professor de Herbologia em Hogwarts, tem a escrita como uma de suas paixões e acha que o mundo seria um lugar melhor se as pessoas não ligassem tanto para a opinião dos outros.


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