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The Deuce – S01E01 – Piloto [Serie Premiere]

Estreia domingo (10/09) pela HBO, The Deuce, série ambientada em Nova York começo dos anos 70 que irá abordar a legalização e crescimento da indústria pornô na sociedade, assim como suas consequências. Estrelada por James Franco e produzida pelo repórter policial David Simon e seu colaborador George Pelecanos (responsáveis por The Wire, aka melhor série criminal), essa maravilha foi liberada em stream pela HBO Go, ou seja, já tem para donwload por aí – longe de estar incentivando pirataria, rs.

Texto sem Spoilers prejudiciais

O piloto, quase filme de 1h e meia mas que nem deu para pesar de tão rápido que passou, cumpre bem sua função de apresentar tempo espaço e personagens.  Não espere felicidade aqui. Crua e por vezes repugnante, a série carrega uma sujeira, pecado no ar (como o próprio título e nome da rua sugerem) que não deixam de ser envolventes a medida que entramos cada vez mais nesse mundo criminoso suburbano.

Por esse episódio sozinho, diria que o tema central é prostituição. Mas pelo visto as laburas do trabalho serão só o contexto do que está por vir da trama principal, a indústria pornô. Vai haver uma revolução, mudança abrupta (clara quando se vê um filme, tv dos anos 60 e um dos 70), e é impossível não se instigar para saber o como tudo isso vai se desenrolar.

O desenvolvimento é lento porém natural, com começo meio parado e tramas sem aparente ligação, que te fazem indagar, o que tem a ver tudo isso e para onde vai. Todos os núcleos, aparentes soltos se alinharam bem para o final. É fácil se apegar rápido aos personagens e suas histórias. Como não amar as putas neah gente. É muito amor por essas mulheres, suas personalidades e fatalidades na vida. Algumas partes é bem Bruna Surfistinha páginas pretas sessions, com todo tipo de cliente bizarro, do que espanca ao que gosta de ficar vendo filme junto.

Não conseguiria escolher uma favorita entre a mãe independente com sua analogia do carro e ciente de sua profissão, Darlene e seu tenso relacionamento com o cafetão e casos abusivos, Ashley com aquele final ou Lori que chegou agora na cidade e ainda sofrerá muito pelo visto (espero).

Personagem do James Franco é o mais deslocado do eixo, o é curioso por ele claramente ter um papel principal. Até o momento sabemos que tá fudido e interpretará dois personagens gêmeos (vêm Paola e Paulina). Só não tá mais deslocado que a estudante, branca, privilegiada e empoderada da NYU.

Com a prostituição ilegal, as profissas estão sujeitas a todo tipo de coisa pessoa louca que aparece em sua frente, sem nenhum direito, garantia ou segurança, tendo de recorrer a um homem para sua proteção (cafetão), que por não ser o corpo dele em jogo (no dos outros é refresco), submete suas vassalas as mais degradantes condições. Vai fazendo. Vai dando. Quem liga se você está sendo violada, ou se não tá aguentando. Quero meu dinheiro.

Não é de hoje que os homens gostam de decidir sobre assuntos pertinentes somente a mulher e seu corpo. Seja aborto, seja prostituição, seja roupa que ela usa. É como se sua vida estivesse sendo decidida por uma pessoa que não conhece suas necessidades e fraquezas. Nãos sabe o que você passa, ou quem é.

Contudo, a série não trata de fazer julgamentos ou puxar para um lado. Da analise e observação do mundo, apresenta os fatos e realidade como eles o são, sem fazer juízos. Estilo filosofia grega clássica do epokhe, suspensão de juízo. Difícil é só refletir e não sentir junto com o drama dos personagens. Esses parênteses para militância fui que abri.

A série não é sobre crime e putaria, mas principalmente sobre humanidade, alma, com fortes críticas sociais, sem querer dizer feminista para não ser restringista e unilateral. Apesar de que, nesse piloto se pode ver a imposição abusiva do homem sobre a mulher, ela como inferior, submissa, objeto, mero valor de troca, uma nota e uma gozada, um carro usado ou menos, escrava quase sempre.

Umas percebem sua condição mais claramente, como a estudante, que vê como sua soltura da delegacia não foi de graça e o policial espera, espera não, claramente quer algo em troca. Ela na cama dele. Você não cansa de objetificar a mulher, ela pergunta. Franco responde que não sabe o que é isso. Realmente, são poucos que sabem, e mesmo assim não teria como saber completamente.

Em tempos que uma loja de móveis (?) Alezza faz comercial com mulher de biquíni para promover seus produtos, vemos como certos pensamentos ultrapassados não foram superados. Que que custa pensar, fazer uma propaganda interessante, criativa, com uma ideia. Chama mais atenção e marca mais que uma mulher semi-nua. A Skol virou a página, a Schin pelo visto não, mas fato é, o progresso é inevitável. Comerciais e empresas assim ficarão cada vez mais escassas.

O final é bem emblemático. Mostra uma mulher feita de escrava, outra fazendo sexo por sua deliberada vontade. Mas será que o poder de escolha das duas é tão diferente assim ou ambas são ensinadas, desde pequenas, a ter seu mundo girando em torno da atenção de um homem. Estando aqui só para satisfazer a necessidade deles e pronto, seja ele um James Franco bonzinho, que faz e pede com carinho, seja um cafetão intimidador que aprendeu com Nixon, Trump e todo líder que inspira medo como forma de controle usando seus privilégios para se manter em cima de topo e usar os que estão embaixo.

A série é definitivamente um must see. De primeira, reflexivo, acurado, inquietante, bem feito e harmonioso sem deixar de ter enredo que te prenda. Pode-se esperar que definitivamente vem mais coisa boa de onde saiu esse hino.

 

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Robson Abrantes

Engenheiro civil na semana, escritor wannabe nas horas vagas e sonhador integralmente. Nem de exatas nem de humanas, renascentista. Reinventando-se desde 92. Inconformista. Cinéfilo. Cosmopolitan. Shitalker. Teve seu 1º contato com o mundo das séries nas madrugadas do SBT, vício que não conseguiu largar desde então.


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