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The Night Of – Recap 1ª Temporada

“Sobre tudo que pode dar errado numa noite e aquela que está sendo considerada a melhor estreia do ano. Ainda não conferiu? Corre que dá tempo.”

Desde sua estreia, The Night Of não para de receber elogios de público e crítica. Para se ter uma ideia, sua média no IMDB é 9,1 e no Rotten Tomatoes 95%!, já figurando o topo de séries com melhores medias. Na verdade, se trata de uma minissérie, ou seja, provavelmente essa temporada será a única, o que é melhor que ficar enrolando e tirando trama de onde não tem mais neah. Sim, estou falando de True Detective. Serão oito episódios no total, o que se torna uma ótima opção para quem quer evitar se prender a algo muito prolongado, como séries que estão na quinta, décima temporada. Como a minissérie também é mais enxuta, não conta com 22 episódios certinhos, o investimento em cada capitulo é maior e a qualidade melhora, pois não há necessidade de enrolação e episódios filler, Game of Thrones bebe muito dessa fonte.

Exibida pela HBO, um ponto interessante é que a série foi concebida por James Gandolfini, ator principal de Família Soprano (considerada ponto de ruptura na dramaturgia das séries, está entre as 10 mais bem avaliadas do IMDB) e interrompida devido a sua morte em 2013. Só agora, depois de um longo processo de execução o projeto foi lançado, com o total de oito partes,  seis foram exibidas até agora. A seguir farei um resumo/comentário, sobre o que foi visto até a quinta parte, evitando o máximo possível de spoilers para não estragar muito a graça de quem ainda pretende começar, mas se você vai ler esse texto para se decidir se vai ver ou não, por favor, nem precisa, a série é sim maravilhosa, tudo que dizem, já pode baixar o piloto e se deliciar, e também maratonar, porque uma vez que você começa, quer logo saber o que está acontecendo, eu mesmo terminei os cinco em dois dias.

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Mas falando sobre o piloto, aqui a série já mostra a que veio. Acompanhando toda a noite de Nazir, universitário muçulmano (queria evitar o adjetivo e me igualar aos jornalistas da série, mas no enredo tem sua importância) que pega o carro dos pais para ir a uma festa e acaba se envolvendo numa série de circunstancias que o colocam numa situação complicada e fora de controle. O diretor aqui foi muito bom em conduzir o clima. Escura, sombria, tensa. Se fosse enquadrar em um estilo, diria thriller, noir, suspense, drama, e um pouco de terror, pois não pude deixar de sentir um pouco de medo em algumas partes. De tão real e trágico, assusta. Toda hora há uma tensão no ar. Algo ruim vai acontecer, você sabe disso. E o pior, você vê que pode acontecer com qualquer um, numa noite qualquer. Destaque para a atmosfera criada nas cenas entre ele e a menina, envolvente, sensual e assustadora, me lembrou um pouco David Lynch, em suas devidas proporções, pois fazia tempo que não via uma cena tão boa. Aqui o vermelho era evidente, diferente de todo o resto do piloto, onde tons escuros e cinzas reinam, o que dá um ar mais opressor ainda a cidade. E que opressão, desde o momento em que ele sai da casa, me sentia sufocado e desesperado ao ver tudo dar errado. O piloto inteiro na verdade é um show à parte, podendo ser assistido tranquilamente como um filme e te fazer vidrar do primeiro ao último minuto sem sequer piscar o olho.

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A partir dessa primeira noite a minissérie desenvolve seu enredo e suas consequências. Diria que ao todo se trata de como o sistema está falido. O que acontece na primeira noite é desenrolado em várias esferas nas partes subsequentes. Entre elas:

A família, que sempre é a que mais sofre. Impossível não se comover com toda a dificuldade e abandono que é ser imigrante, mesmo que teoricamente, e aqui isso também é abordado, a questão do preconceito e xenofobia disfarçados de liberdade de expressão a lá Trump, a balança, ou sistema sempre pendem para o lado mais fraco, nesse caso culpe os imigrantes.

Do lado dos contra, temos a segurança, um sistema que devia lhe proteger, acaba usando o poder contra você, abusos de policiais aqui não são novidade, e num país onde os casos que a polícia consegue resolver não passa de cinco por cento ao ano, além de vários criminosos a solta, as vezes a polícia acaba incriminando a pessoa errada por questão de circunstância, resultado. Como bem dito na série, nem todas peças, só algumas precisam bater para acusar um culpado, e se tem uma coisa eu aprendi com The Wire foi: policiais só querem resolver logo seus casos. Quem gostou de Making a Murder vai se sentir em casa.

A partir do segundo episódio, entramos na esfera jurídica dos Eua, que também precisa ser revista. Aqui também, mas por lá cabe ao estado, promotor pegar ou não o caso. Se sim ele tem que ir até o fim e ganhar, não se entra para perder, pois além de prejuízo é uma questão de imagem para os políticos. Mostrar o Estado punindo um inocente não pega bem. Então, se depois de acusado, aparecer um indício que a promotoria pegou a pessoa errada, é mais fácil ignorar essas provas que trazer a tona a verdade, e quanto mais tempo preso o inocente, pior fica para voltar atrás do  erro. Steve Avery que o diga com seus dezoito anos de sentença.

E no fim da cova, mais falido que tudo temos o sistema punitivo. Não está funcionando. Fato. Cadeia acaba virando graduação em criminalidade. Poucos conseguem sair corrigidos. Maior parte sai é pior. A exemplo de Nazir, estudante que nunca se envolveu com crime, mas gora está tendo de lidar para sobreviver. Quando esse plot começou a ser abordado, com essa trama de Freddy, bem Prison Break, já na segunda parte, não gostei e digeri bem, queria o foco nas investigações, no caso, não via muito pano para sair dali. Mas mordia língua, lá para quarta, quinta parte, percebi a essencialidade e riqueza nessa abordagem. Essa parcela não podia ficar de fora, pois é ele, que foi preso injustamente, e está tendo que sobreviver naquela selva. Cada dia a mais que ele passa preso uma parte dele via embora, se entregando cada vez mais ao crime. Essa passagem, mesmo que curta trará consequências irreparáveis na vida de Nasir. Mas conquanto saia vivo, tudo bem. Ou será que não? Melhor morrer logo, do que ter que conviver com os danos. Em duas semanas saberemos.

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Outro episódio que merece destaque e não sairá de minha memória tão cedo é o terceiro. Quase tão boa como o piloto, mas do seu próprio modo. Aqui o protagonista vira o advogado de defesa de Nazir, um advogado porta de cadeia, sem classe e bem desvalorizado entre os colegas de profissão. A série também consegue tratar bem isso do underdog, pessoas constantemente pisadas pela sociedade por isso ou aquilo, e que ninguém dá nada, mas que no final acabam saindo na frente dos opressores. Não que haja vitória ou alegria aqui, longe disso. Aqui não tem espaço para felicidade. Aqui o foco é a derrota, Stones no chão. Por isso esse episódio foi tão bom, ou ruim, o que preferir.  A constante humilhação que ele vai recebendo até a lapada final. Nenhum ser humano merece o tratamento que ele recebe. Foi difícil não chorar. O que só te faz apiedar, gostar e torcer mais ainda por esse personagem tão sofrido. Em sua luta, mesmo que desengonçada, vergonhosa e sem muitas armas ou credibilidade, ele não deixa de dar tudo de si, usar sua inteligência afiada, se dedicar até com a última pereba da perna (esse plot passou os limites do digerível!) para vencer junto com Nazir essa luta contra um sistema que ao invés de o proteger, acaba destruindo sua vida.

P.s: Queria achar um erro na técnica dessa minissérie mas não consigo. Fotografia, enredo, direção, tudo muito artístico, de primeira qualidade, no ponto. E críticas a sociedade também. O que seria de uma minissérie sem sua boa contextualização.

P.s.2: O restante das partes será coberta por reviews individuais, essa semana ainda sai o seis, e mais duas semanas até descobrirmos o derradeiro e triste(?) fim de Nazir.

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Autor

Roz

Engenheiro por formação, escritor wannabe por obrigação. Nem exatas, nem humanas, renascentista. Reinventando-se. Inconformista. Cinéfilo. Cosmopolitan. Shitalker. De Pepita a Bowie. De 80s cheese a Sopranos.

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