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Cine Panela: Nomadland

Nos vemos pela estrada…

Nomadland (2020), dirigido por Chloé Zhao, é um dos principais nomes dessa temporada de premiações, e muito se deve por sua estreia ovacionada nos maiores festivais de cinema no primeiro semestre de 2020.

Sendo um filme reflexivo, Nomadland retrata histórias reais de pessoas que abandonaram “o sonho americano” para viver como nômades. Acompanhamos Fern, interpretada por Frances McDormand, em sua jornada pelas estradas norte-americanas em sua pequena van. Sua premissa um tanto quanto simples, esconde o cerne crítico da obra, bem como suas nuances em contar histórias reais de uma maneira pouco invasiva, mas facilmente comovente.

O sonho americano, construído em cima de um modelo de liberalismo econômico, propõe a liberdade e chance de sucesso e prosperidade para aqueles que trabalham duro em prol da nação. Nomadland contrapõe muito bem esse ethos, quando a protagonista se encontra trabalhando em uma das maiores, senão a maior, corporações capitalistas do mundo, a Amazon. Entretanto, subvertendo totalmente esse modelo idealista, ela decide seguir sua jornada rumo ao desconhecido, vivendo pela estrada e se reunindo com as comunidades nômades formadas pelo caminho.

E é assim que o filme abre uma janela para conhecermos as verdadeiras histórias daqueles que abriram mão de viver em um sistema predatório e opressivo, para seguirem uma vida comunitária.

Linda May, Bob Wells e Charlene Swankie são verdadeiros nômades, e foram escalados para o filme para mostrar a realidade de suas vidas, ou pelo menos uma parte dela. Basta esse movimento para entendermos a preocupação do filme em apresentar essas histórias tão diferentes para um público tão grande e imerso em um certo padrão de vida. Isso passa credibilidade e sensibilidade.

Fern ao longo de sua jornada encontra com essas três personalidades, e divide conosco, parte de seu mundo, e como eles criaram um senso de coletividade ao adotarem esse estilo de vida. Fugindo da romantização da situação, já que todos eles se encontram nessa situação por conta de algo maior ou até opressor, como já foi explicado aqui, esse senso de coletividade mostra um lado importante na construção de sociedades e no dever moral e ético que temos uns com os outros enquanto cidadãos.

Em um diálogo entre Fern e Bob, eles falam sobre como poderiam ter continuado onde estavam, na mesma casa, na mesma cidade, vivendo suas vidas, mas que algo os fizeram mudar, algo os desprenderam desse grande nó. Bob perdeu seu filho a cinco anos, e ele estaria completando 33 anos de vida naquele dia. Percebemos como isso ainda mexe com ele, e como esse foi um dos motivos que levou Bob a viver da forma que vive hoje. Ele se perguntava “como posso viver nesse mundo se ele não está aqui?” e através dessa grande tristeza, Bob aprendeu a ajudar as pessoas.

A construção dessa cena novamente reforça vários dos valores dessa obra, e como sempre volto a dizer, as histórias reais, como essa que Bob conta para Fern/Frances McDormand nos comove de uma maneira que nenhuma ficção seria capaz de adaptar.

Parabenizamos Chloé Zhao pelo seu olhar sensível em adaptar essas histórias reais (que vieram de um livro de mesmo nome) e em dividir com o grande público essas vivências. Com um roteiro muito bem elaborado para abordar tudo sem se tornar invasivo, e com o enredo bem sucedido em nos mostrar os detalhes de situações simples, mas que para eles pode significar algo, Nomadland se torna para mim um dos grandes expoentes em contar histórias e em tornar elas o grande propósito do filme, sem precisar de recursos extras e chamativos para se tornar imponente.

Por fim, vale ressaltar todo o trabalho de produção da série, com uma fotografia deslumbrante, a direção de arte “nem precisou se esforçar muito” já que os cenários e a natureza do filme por si só já são espetaculares. A atuação de Frances é outra parte incrível, pois não foi somente a visão de Chloé que deu vida para a obra, mas também a atuação e a forma com que Frances contracenou com não atores e como ela absorvia as histórias contadas, como por exemplo na cena citada de sua conversa com Bob, ela se portava de forma a parecer realmente estar se importando com aquilo contado, seus trejeitos, sua preocupação… Tudo para mim pareceu correto e muito bem executado.

Nomadland se consolida como um forte candidato ao Oscar desse ano, e mesmo que não ganhe, isso não tirará os méritos da construção dessa obra, sensível e necessária em alguns pontos, linda e reflexiva em outros, ao adentrarmos nessa jornada rumo ao autoconhecimento aprendemos e valorizamos os caminhos que a vida traça.

 

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Autor

Ricardo

Tem gente que diz que sou um amorzinho, eu digo que sou um trouxa. Viciado em maratonar séries e ficar na bad depois de assistir tudo em um dia. Amo muito música indie, quando quiser me chamar pra ouvir Florence já sabe onde procurar. Mineiro do interior que não puxa o 'r' quando fala, mas adora um pão de queijo.

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