Posts Populares

Cine Panela: Parasita – Parasite

Seria cômico, se não fosse trágico.

“Parasita” é considerado por muitos o melhor filme de 2019, e não há como negar que a excelência da obra de Bong Joon Ho merece destaque nesta temporada. Não precisa ser nenhum aficionado de cinema para saber que os Oscars – assim como todas as outras premiações com sede americana, e até mesmo o BAFTA – são extremamente locais, e para a acadêmia reconhecer e, sequer, indicar um filme estrangeiro na categoria de Melhor Filme, ele precisa causar um GRANDE ruído no cenário das premiações.

Até aqui, “Parasita” acumula o maior número de vitórias na temporada, 111 para ser mais exata; e para entender melhor o que este número significa, basta compará-lo com o número de vitórias de seu runner-up, que é “História De Um Casamento” com 68 triunfos. Ou seja, o suspense travestido de comédia de Bong Joon Ho abriu uma lacuna de mais de 50 prêmio de diferença. É um feito extremamente raro para um filme não anglo-americano.

Eu tive a sorte de assistir “Parasita” nos cinemas, ainda no ano passado. Eu não vou mentir para vocês e dizer que eu sou grande consumidora de filmes de fora do circuito mais mainstream, mas dar esta chance ao longa coreano me surpreendeu de diversas maneiras e, com certeza, me fez abrir os olhos para tudo o que eu poderia estar perdendo.

O filme se passa em Hong Kong, mas poderia facilmente ser situado em qualquer grande cidade do mundo, ele realmente tem essa atmosfera universal, um diálogo aberto com a realidade atual da maioria dos grandes centros urbanos. Tudo começa de forma muito leve, e Bong Joon Ho consegue brilhantemente controlar toda a atmosfera pretendida, é quase como se chegássemos ali inocentes e ludibriados pela névoa das aparências.

Somos apresentados à uma família de classe média baixa que está passando por dificuldades, devido ao fato de todos seus 4 membros estarem desempregados. Assim que o filho mais velho recebe a oportunidade de trabalhar para uma família de classe elevada, ele não mede esforços para garantir sua chance. Ele falsifica documentos, inclusive menciona “não estou falsificando, estou apenas adiantando o processo, pois realmente pretendo entrar na universidade”. É aquele famoso “jeitinho”, sabe.

Aos poucos, a família não se limita para conseguir “tomar conta” dos cargos na casa da família rica. Em um diálogo bem marcante – provavelmente, o mais marcante do filme – o filho comenta “eles são ricos, mas são legais”, e então a mãe retruca “eles são legais, pois são ricos”. É sutil, mas é bem ali que a escalada do filme realmente tem início.

Após este diálogo, pequenos detalhes vão acontecendo e crescendo dentro do núcleo principal. Ainda que todos os membros da família comecem a se dar conta da verdadeira e cruel face da desigualdade social, é o patriarca, Kim Ki-taek, quem mais absorve e incorpora a grande dualidade da trama.

Pouco a pouco, toda a atmosfera leve e cômica inicial se esvai, e um tom cada vez mais sombrio e frenético toma conta do ambiente. Cada camada ilusória da construção social de que “somos todos iguais, se você se esforçar bastante você chega lá” é brutalmente arrebatada pela visão apurada de Bong Joon Ho.

O parasita, que é biologicamente definido como “organismo que vive de e em outro organismo, dele obtendo alimento e não raro causando-lhe dano”, finalmente pode ser visto. Enquanto a família do Sr. Kim luta para manter o que construiu, ele passa a enxergar o mundo como ele é. O senhor no porão – a assombração da criança rica, o que não é por acaso, vejam bem – está ali por não ter para onde ir, no entanto, ele idolatra aquele que está, literalmente, acima dele.

Os Park acham um verdadeiro ultraje quando presumem que o ex-motorista da casa havia transado com uma moça drogada. Mas no despir (rs) da trama, eles mesmos cogitam usar drogas enquanto fazem sexo praticamente na presença do filho pequeno. É uma crítica tão bem feita, é uma retratação tão perfeita da hipocrisia, que aparentemente, está cada vez mais escancarada na sociedade. O que é condenável para o pobre, quase nunca é para o rico. Dois pesos, duas medidas. Sempre foi assim, não está tão perto de mudar.

A escalada frenética e irreversível do final do filme só é tão bem estruturada graças à incrível atuação do Song Kang-ho. Toda a sequência do ápice de “Parasita” deve-se à Song. Se eu tivesse que pontuar o momento exato em que ele é encarregado desta responsabilidade, eu diria que é quando o Sr. Kim está escondido embaixo da mesa de centro da sala e começa à ouvir a família rica reclamar do seu “fedor característico de quem pega metrô”.

A partir dali, tudo desmorona. Kim não está mais “cego”, ele consegue enxergar claramente suas diferenças, ele consegue enxergar claramente o que está acontecendo. Ele matou uma pessoa. Sua casa inunda, ele perde tudo. É chamado de última hora para “ajudar” no aniversário da criança rica, sua filha é esfaqueada. Sua filha é esfaqueada. Sua filha é ESFAQUEADA, e toda a preocupação da alta sociedade presente na festa é correr com o carro para socorrer a criança que teve uma convulsão por ASSISTIR sua filha ser esfaqueada, pois uma ambulância demoraria demais.

É neste momento que Kim sente a necessidade de golpear de volta, é quando ele finalmente entende que é apenas um hospedeiro. Um objeto de exploração, uma ferramenta substituível para o bem-estar dos que estão acima. Sua vida vale menos, seu bem-estar não conta – afinal, ele “está sendo pago para isso” – é uma via expressa de mão única, e ele é um pedestre descalço.

É uma retratação tão cruel, mas tão atual que todo o incômodo que sentimos desde o início do filme – apesar de suas mudanças de tom, o incômodo sempre está ali – finalmente pode ser alocado. Não importa quantas vezes você assista ao filme, o frenesi e clímax final sempre irão surtir o mesmo efeito. É uma agonia que cresce e toma conta de tudo, é um desespero que expande, é um conflito que nunca acalma.

O filme poderia muito bem acabar ali, após o “surto”. Mas o fato dele seguir e nos mostrar o desenrolar dos fatos, mesmo anos após o acontecido adiciona ainda mais camadas à esta crítica tão fervorosa. A filha de Kim morre – uma jovem cheia de potencial, que morre pelas “circunstâncias”, percebem -; o homem no porão é apenas dado como “um sem teto que invadiu a festa”, sem nome, sem identidade; a família rica apenas muda de casa, um recomeço. Kim segue sendo procurado e passa a viver no porão. Ainda assim, ele faz questão de enterrar a ex-governanta. Seu filho, aparentemente, se forma, sobe na vida. E apenas então, volta à encontro de seu pai.

“Parasita” é um filme atemporal, que irá ressonar com a sociedade ainda por muito tempo. Absolutamente tudo tem um preço e, muitas vezes, não importa muito se você pode pagar ou não, a cobrança virá.

gostou da matéria? deixe um comentário!

Luana Medeiros

Sinceramente, não sei mais há quanto tempo estou nesse site? Mas olha, faz um bom tempo! HAHA. Atualmente cuido mais de reviews de realities musicais, mas também faço meus corres nos seriados, porque a vida é isso aí! Tenho 24 anos, sou formada em rádio/tv/internet, e nas horas vagas vocês me encontram por aqui! ;)

Tema por Gabriela Gomes Todos os direitos reservados ao Panela de Séries