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Cine Panela: Roma

O afeto é revolucionário

Sou um grande fã do cinema hiper-realista, e tiro o chapéu para obras que fazem muito com pouco em termos de produção. Roma é um desses filmes que consegue ser profundo e suficientemente complexo em sua produção, sem precisar gastar milhões e milhões para alcançar resultados incríveis.

O filme dirigido, produzido e escrito por Alfonso Cuarón, conta a história de Cleo, uma empregada doméstica que trabalha para uma família de classe média na alvoroçada Cidade do México dos anos de 1970. Junto de Cleo, temos outra empregada, Adela, e elas trabalham 24 horas por dias a serviço de Sofia, Antonio e seus quatro filhos, juntamente com a mãe de Sofia, Teresa. Por ser inspirado na infância de Cuarón, o filme traz alegorias sólidas, e ilustram de forma realista acontecimentos que marcaram a vida desse brilhante diretor.

O afeto é sem sombra de dúvidas uma das principais alegorias dessa obra, e acompanhamos isso de forma intensa através de acontecimentos marcantes e sensíveis, que demonstram em essência a formação de laços, a humanização dos personagens e a nossa aproximação com os indivíduos. É impossível não ser cativado pela protagonista Cleo, que com poucas palavras, mas com muita ternura nos convida a acompanhá-la lado a lado nos seus afazeres e na sua melancólica vida privada. Há acontecimentos simples e que podem ser ditos como “crus” por tamanha simplicidade ao lado da veracidade. Há retratações hiper-realistas de momentos intensos que foram reconstituídos de forma impecável. Um desses acontecimentos foi o do massacre de Corpus Christi, que foi um incidente ocorrido em um protesto de estudantes em 10 de junho de 1971. Essa cena em especial vem sendo aclamada e com muito mérito, pois sua reconstituição é feita com tamanha veracidade, ao ponto em que a carga emocional e todo contexto gera um forte impacto no telespectador. O contraponto dramático dessa cena é o fato de Cleo entrar em trabalho de parto bem no momento em que tudo isso ocorria, e toda a sequência de ela entrando em trabalho de parto é sufocante, dramática e de uma triste beleza.

A sensibilidade é outro ponto a se destacar em todo filme de Roma, a começar pelos detalhes do filme que marcam/ilustram momentos da vida do diretor. Esses detalhes são construídos de forma singela e sensível, e o ponto alto são os famosos aviões que transitam durante vários momentos do filme. A sonoplastia desses momentos é impecável, somos capazes de ter uma real noção da cena, pois é como se estivéssemos perto naquele momento. Esses aviões de fato representam o fascínio de Cuarón por essas máquinas, já que o local que ele cresceu, que é também o mesmo local onde a casa do filme foi reconstruída, era um corredor aéreo. Porém esse detalhe desperta em qualquer um a curiosidade de saber o que aquilo representa, e por ser um longa tão íntimo, a nossa curiosidade aumenta. Em resumo, ele coloca essa situação como algo de transição para seus personagens, e também para a sua vida, o que é de um grande valor simbólico, principalmente colocando o início e o fim do filme lado a lado.

Mas a sensibilidade não se encontra somente nos detalhes, já que uma das cenas mais sensíveis do filme (e que é, falo isso tranquilamente, uma das melhores que já vi) ocorre de maneira escancarada e pragmática, semioticamente falando, no clímax do enredo, conseguindo superar toda a tensão e sufoco construído na cena do parto. É ali nessa cena que percebemos o valor das pequenas coisas, que acabam por se tornar grandes. É a verdadeira face da empatia palpável que nos acolhe.

A produção de Roma, por mais intimista que o filme seja, é grandiosa, a começar pela ousada edição em preto e branco, que diferente do que se imagina, deu vida aos momentos mais preciosos, e colocou as distrações em segundo plano. Com essa edição, focamos naquilo que realmente interessa em cena, além de aumentar ainda mais a carga dramática dos quadros. O filme possui tomadas longas e sem cortes, que mostra a movimentação pelo ambiente de uma perspectiva bem atraente. O trabalho do diretor, como já dito, é ousado e diferente de tudo o que ele já fez. É um filme confessional, e não cabe colocá-lo ao lado de outros grandes filmes que o mesmo já produziu, como o aclamado Gravidade. Suas pinceladas aqui possuem significado, e ele tenta mostrar de forma revigorante e atrativa parte da sua história.

Não podemos deixar de falar das atuações, em especial, da surpresa que foi Yalitza Aparicio em seu papel de Cleo. Ela que não era atriz, e sim uma professora, foi escolhida para dar vida a uma das pessoas mais marcantes da vida do diretor. Ela conseguiu ser intrínseca, partilhando suas emoções em close-ups cheios de vida, e se colocando em destaque junto da história. Vamos aplaudir essa, que é a primeira atriz de origem indígena e segunda atriz mexicana na história a ser nomeada para a grande premiação do Oscar.

É impressiva as nuances que essa obra possui, nuances essas que são tangíveis e que merecem a recepção de cada um que tira duas horas do seu tempo para apreciá-la. O afeto aqui é revolucionário, pois vejam como uma “simples” história pode alcançar diferentes objetivos e trazer diferentes sentimentos para que todos possam voar em diferentes direções.  

NOTA:

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Ricardo Souza

Tem gente que diz que sou um amorzinho, eu digo que sou um trouxa. Viciado em maratonar séries e ficar na bad depois de assistir tudo em um dia. Amo muito música indie, quando quiser me chamar pra ouvir Florence já sabe onde procurar. Mineiro do interior que não puxa o 'r' quando fala, mas adora um pão de queijo.

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