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Dark – S01E05 – Wahrheiten

“Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e seqüência “

Em toda série, ao longo de sua temporada inicial, chega a hora de provar ao expectador: que valeu a pena ter acompanhado-a até o momento e porque ele deve continuar. Ou não. Conhecido como payoff, é preferível que esse pagamento se dê no terceiro, quarto episódio, assim as desistências são menores.

Não mais do que na hora, no meio de sua temporada inicial, Dark resolve recompensar a longa espera por respostas ou qualquer informação minimamente importante e entrega seu payoff. Bem atrasada, diga-se. Estava desanimando, difícil de acompanhar. Contudo, trouxe o melhor ep até então. Tivemos conexões, respostas desenvolvidas rápidas, aprofundamento nas bases da série, e obvio, uma multiplicação no número de perguntas.

O começo já ditou seu ritmo, cortando a tela ao meio e mostrando presente e passado lado a lado. Um bom arranjo, que não somente serve para nos lembrar e associar cada personagem em suas linhas temporais (requer grande esforço lembrar de todos esses caracteres, e só piora com o numero dobrado), como condiz com a proposta de interconexão do tempo e serve de lembrete. Ei, os dois estão junto. Não há diferença. E assim vamos ser introduzidos ao passado sem aviso prévio. Nada de outra cor, nevoa, esfumaçamento, ou qualquer outro artificio usado na tela para mostrar que estamos indo a uma época diferente da apresentada na cena anterior.

A filosofia da série está clara desde o princípio, e foi bem mastigada desde. Nesse ep, como visto na cena de Urilch ao constatar seu destino, Charlote resolveu dar nome aos gênios idealizadores. A lei do eterno retorno, de Nietzche. Vale a pena dar uma olhada, mas sendo restritivo, a teoria defende que os polos, bem e mal, criação e destruição, alegria e tristeza, se alternam nas vivencias, numa eterna repetição. O tempo é excluído do contexto, não importa.

Outra definição-explicação que Charlote soltou foi a da orbita verdadeira da Terra ser de 33 anos, “explicando” o porquê desse intervalo nos desaparecimentos. Não dá para desassociar esse numero da idade Jesus. Vem logo a cabeça – obrigado Constantino. Não se iluda, nenhuma coincidência aí. Qualquer religião trabalha com símbolos recorrentes, definidos pelas leis que regem a natureza, com forte tendência a impregnar no subconsciente. Nem mesmo os cinco pães e dois peixinhos estão ali por estar.

Fisicamente falando, a serie tem alguns furos e segue clichês que incomodam para quem se interessa pelo assunto. Ciência não é exata, apenas explicação circunstancial da época, mas é consenso entre pesquisadores que não se dá para viajar no passado. Este é imutável. No máximo alguns segundos para trás, e só. Desculpe Super Homem. Viajar para o futuro é mais fácil. Realidade. Só falta descobrir como o homem não deterioraria na viagem.

Ep passado tivemos uma introdução a buracos negros, o que pode ser uma tendência problemática. Caminho fácil. Todos amam buracos negros e criou-se uma fascinação pelo que há neles, com propensão a temas de viagem no tempo e mundo alternativos. Por favor, não venham com essa Dark. Foca na ilusão do tempo, Einstein, que fica melhor. Basta de Interestelar.

Outro caminho limitado que a série segue é no próprio tempo. Como homens, tendemos a esticar os anos próximos da gente, e encurtar os distantes. Século passado sabemos detalhes de cada década, mas da Idade Média (formado por séculos) e da Pedra (milênios) compactamos, misturando séculos e milênios em um. Evolucionalmente falando, não conseguimos pensar em tempo. Mikkel falou com Noah sobre bilhões, mas a série só conseguiu pular décadas, por questões práticas e convenções de enredo. Não porque o mundo se renova e volta exatamente ao que era a cada 33 anos, e sim porque seria difícil trabalhar com um gap de tempo maior.

A série tem claras inspirações a Twin Peaks (pisa menos nessas fudidas Lynch), para não dizer wannabe. A cidade, segredos de seus habitantes, desaparecimentos, mistérios que não se explicam. Até o quarto vermelho temos. Azul nesse caso. Cor esta, que deveria ser o nome da série, de tanto que aparece. Todas as cenas temos uma tonalidade de azul, chamando. Nesse, houve uma intercalação entre ele e o preto (como pode ser visto na foto de capa e acima). A palheta de cores é majoritariamente cinza, o que, no lugar de dar um clima diferenciado a série, soa como forçoso e cansativo. Too much.

Um dos acertos desse ep foi apresentar logo o Noah, introduzido no final do último. Tudo que menos precisávamos agora era outra entidade misteriosa sem rosto. Já temos o encapuzado torturador do ruivo, que acredito ser outra pessoa alheia (?) onisciente da situação. Pelo visto Noah tomou formol ou sabe bem como manipular o tempo, para não ter envelhecido nada em 30 anos. Foi jogado de para quedas e vai ter grande destaque no contexto. Agora é esperar para ver o que ele sabe e o que anda fazendo.

Outra rapidinha foi o esclarecimento do que houve com Mikkel (quando Hannah se aproximou dele no banco tudo ficou obvio). A ligação com a cena debut foi instantânea e pode-se dizer que tivemos um mini fechamento, com a carta e suicídio sendo explicados. Ele se matou no dia que nasceu. Que loucura hen. E boa sacada. Os dois não poderiam coexistir? Presente e passado? Gostaria de ver essa ideia sendo desenvolvida. Alguém do futuro, pode vir fazer e filho no passado? Olha, é muito giro. Minha cabeça explodiu.

As consequências disso também serão interessantes, pois colocam Jonas no destaque. Uma aberração no tempo, algo inviável, impossível. Que tipo de hibrido ele é. Podemos esperar poderes mágicos, X-men, ou apenas um Doctor Who mesmo? Será que o mesmo aconteceu com o irmão de Urilch?

Sendo a língua e país da filosofia, berço do expressionismo, além de ser conhecido por ter os melhores filmes de horror, Dark está em boas mãos sendo alemã. Vimos parte de seu potencial nesse ep, mas a série tem muito o que provar ainda se quiser ser considerada um clássico must-see. Tem material, boa proposta, só falta melhorar na execução e fugir de clichês comuns do gênero.

P.S.1: Sim, estou fugindo de teorias e spoilers. Essa é uma opinião quase sem influencia destes. Posso estar totalmente equivocado em especulações, mas ao menos estas são minhas haha.

P.S.2: Alguém se importa com a prisão de teen Urilch e sua relação conturbada com Katharina? Mais interessado naquele homem misterioso do final que deu já deu a cara algumas vezes (foto acima), ou no que Noah tratou com o Bartoz.

P.S.3: Para quem também está meio pedido nos personagens, esse guia da super tem o parentesco de cada.

P.S.4: Para quem se interessa pelo tema buracos negros, as palestras e livro de Stephen Hawking são bem legais.

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Autor

Roz

Engenheiro por formação, escritor wannabe por obrigação. Nem exatas, nem humanas, renascentista. Reinventando-se. Inconformista. Cinéfilo. Cosmopolitan. Shitalker. De Pepita a Bowie. De 80s cheese a Sopranos.

Tema por Gabriela Gomes Todos os direitos reservados ao Panela de Séries