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Dear White People – S02E02 – Chapter II

“Estou cansado de me ver através do olhar dos outros.”

Até que ponto um episódio extremamente traumático pode afetar a sua vida?

Reggie passou pela pior situação que um jovem negro pode enfrentar e que, infelizmente, não é algo difícil de acontecer. Foi tido como uma ameaça apenas pela cor da sua pele, como se a sua negritude fosse uma arma, fosse um motivo para as pessoas o meterem e levantarem uma arma. Por mais que ele tente fingir que esse episódio não mexeu com a sua cabeça, a gente pode ter a mínima ideia que é apenas uma forma torta de tentar lidar com a situação. Porque é impossível não ter mexido.

Numa tentativa de ajudá-lo, o reitor faz com que ele tenha sessões com um terapeuta, o que é uma excelente ideia, mas Reggie não faz o tipo que se abriria com um terapeuta, com alguém que não conhece, um homem branco e que não entende a sua vivência como um homem negro. Um homem que nunca passaria por isso numa festa de faculdade quanto tinha a sua idade. Mas, ainda assim, ele cumpre todas as sessões e diz ao reitor que está tudo bem.

Na verdade ele tenta lidar com o trauma de diversas formas: primeiro ele tenta fingir que nada de muito importante aconteceu, que não há motivo para a preocupação das pessoas, que cada um que lhe pergunta se está tudo bem, faz tudo ficar um pouco pior. Ok, eu entendo. Quando qualquer coisa ruim acontece com a gente, ter alguém por perto perguntando “o que foi?”, “você tá bem?” acaba piorando um pouco a situação, porque te faz continuar pensando naquilo que estava te fazendo mal. Mas no caso do Reggie não foi algo simples e as pessoas estavam realmente preocupadas com ele.

Depois ele tenta, de forma rápida, lidar com a ajuda de Jesus, num grupo da bíblia que tem no prédio, mas ele logo percebe que aquilo não é pra ele. Então ele tenta lidar com uma mistura que tenda a funcionar, mas que tem um forte efeito paliativo: bebida, drogas e sexo. Reggie, Troy e um amigo em comum passam uma noite bebendo e usando algumas drogas e Reggie, finalmente, parece um pouco mais relaxado. Com isso percebemos um dos problemas que o acontecido trouxe: vergonha. Não apenas da humilhação, mas de ter que contar isso ao seu pai, um antigo Pantera Negra, que deve ter lutado bravamente pelos direitos dos negros. Ele não tem coragem de falar que foi humilhado por um guarda estudantil e que não fez nada a respeito. Reggie deve ter herdado seu conhecimento, seu desejo de mudança e o afinco que luta de seu pai e acredita que isso pode trazer desgosto, pode mostrar que ele é fraco e, depois de tudo o que aconteceu, essa é última coisa que ele quer.

A bebida e as drogas o deixaram um pouco mais sincero sobre o que sentia, mas o sexo não funcionou de uma forma muito eficiente. A principio, nas primeiras mulheres, Reggie parecia curtir o momento, curtir o “sexo por piedade”, mas em algum ponto tudo deixou de fazer sentido, mas ainda quando se tem uma mulher como Joelle ao seu lado. Sério, rapazes, não troquem uma Joelle por diversos sexos casuais, não vale a pena. E foi isso que Reggie fez. Talvez não de forma consciente, mas mesmo durante um trauma você deve ser responsável pelos seus atos, ainda mais quando envolver os sentimentos de outra pessoa.

Após uma conversa muito franca com o reitor, Reggie percebe e entende que o “incidente” não pode determinar sua vida. Ele não pode deixar que nenhuma atitude sua diante disso venha a repercutir por toda a sua vida. Então ele resolve quebrar o silêncio. Gabe já tinha tentado conversar com ele antes e Reggie enfim aceita dar um depoimento para o seu documentário. Mas Gabe quer ouvir mais do que o ataque do guarda, ele quer ouvir sobre o que Reggie sofre todos os dias, as pequenas agressões diárias, aquelas atitudes que estão enraizadas em nossas culturas, que as pessoas fazem e nem percebem, e caso percebam, não sabem que é errado. Negros passam por isso todos os dias, a todo momento e nós mulheres também, então fica bem fácil compreender.

E então Reggie fala de uma situação em que passou, quando atravessou a rua para andar na outra calçada quando viu uma senhora branca caminhando em sua direção. Sempre que ele vê uma mulher branca, ele se pergunta se ela está com medo dele, se ele parece ser uma ameaça a ela. Uma ameaça apenas por ser negro. Tudo o que o Reggie quer é não ser o motivo de medo de alguém. Só que cada vez que ele é visto como uma ameaça, isso se torna uma ameaça para ele e acaba o reduzindo, de alguma forma, ao modo que é visto pela outra pessoa. E ninguém deve ser diminuído à forma rasa que os outros te enxergam. Reggie é mais de isso. Todos somos mais do que o outro vê.

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Thais Pereira

Feminista, leonina com ascendente em gêmeos e lua em virgem, viciada em memes, em Friends e problematizar na internet. Formada em História da Arte, mas consciente que nunca vai trabalhar com isso na vida. Normalmente eu escrevo e falo mais do que deveria. Eu mesma, Thais Mello.

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