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Cine Panela: A Forma da Água

Uma conexão que transcende palavras…

Pegue um conto de fadas, misture com elementos sensoriais, insira pequenos toques de comédia e você poderá criar algo semelhante ao que A Forma da Água é. O filme tem uma proposta bem simples, mostrar o amor sem (pré)conceitos, elevando a busca por descobrir até que ponto você chega por um amor.

Mergulhado em um mundo dominado pelo tradicionalismo, o filme acompanha a protagonista Elisa (Sally Hawkins), uma zeladora muda de um grande laboratório científico. Cercada por homens machistas, xenofóbicos e preconceituosos, Elisa se apaixona por uma curiosa criatura que é apanhada por militares do laboratório, e com isso ela planeja a liberdade da mesma bolando um articuloso plano de fuga.

Com uma trama bem direta e que remete muito a alguns clássicos, como a inspiração para o filme O Monstro da Lagoa Negra (1954), o filme buscou trazer uma linguagem bem “sessão da tarde”, mas não entendam como algo ruim, pois digo isso visando o ar artístico e a montagem do filme. Eu senti a trama como algo bem leve, e o curioso disso é que o filme contem cenas que não deveriam ser vistas como tal. Como eu disse no inicio, os pequenos toques de comédia conseguiram transformar esse conto de fadas, e acabaram me remetendo até mesmo a alguns musicais (principalmente depois de uma cena especifica que é simplesmente um musical dentro do filme). Por se passar na década de 60, A forma da Água conseguiu fazer um belo trabalho de ambientação, com cenários bem construídos, roupas bem desenhadas, até mesmo com uma trilha sonora bem específica chegando a tocar Carmem Miranda em uma das cenas, e retratou pontos que merecem destaque aqui, como por exemplo, o assustador mundo da guerra fria e o ar de superioridade dos Americanos (brancos) com o resto do mundo. Dito isso, momentos regados de preconceito são mostrados, mas nada é algo que nos atinge tão profundamente.

Sabendo que a proposta é mostrar o amor em suas diferentes formas e interpretações, Del Toro foi bem eficaz em colocar dois personagens distintos em um ambiente tradicionalista. Entretanto, eu achei que os momentos relacionados com os temas ‘conservadorismo’ e ‘preconceito’, que deveriam funcionar para causar impacto, não foram tão eficazes assim e acabou deixando o filme ser ‘apenas’ uma história de amor. Algumas mudanças poderiam ter sido feitas para isso acontecer, como por exemplo, colocar a motivação do antagonista Fleming (David Hewlett) em enxergar o amor dos personagens principais como algo inaceitável para sociedade, mas o que moveu o vilão foi apenas a captura da criatura após a sua fuga, sem se importar com suas motivações. A criatura é capturada por militares e estudada com a finalidade de se tornar uma possível arma contra os Russos, já que os Estados Unidos se encontram em um momento de tensão com eles, e é nesse desenrolar que Fleming acaba se tornando o vilão.

Os personagens são bons, destaque obviamente fica para Elisa e a criatura, mas temos também Richard Strickland (Michael Shannon) e Zelda Fuller (Octavia Spencer) que conseguem se encaixar muito bem em todo contexto. Podemos perceber aqui nesse elenco principal, como o filme aborda claramente as questões sociais, como Elisa sendo muda, Richard sendo gay, Zelda sendo uma mulher negra e claro, a criatura, que foge de todos os padrões. A mensagem é clara, mas ao mesmo tempo fica subentendida, pois toda a trama desses quatro personagens não envolve o confronto contra a sociedade conservadora. Creio que para mim, o erro do filme foi deixar tudo isso muito raso, e é nesse ponto que ele se transforma em um filme “sessão da tarde” como eu havia dito.

Partindo então para o destaque do filme, o lado sensorial brilha com muita esperteza. Cenas submersas lindas, com uma iluminação bem discreta dá o toque perspicaz do diretor. O filme retrata de diversas formas a sensibilidade, como a criatura em seu mundo submergido, Elisa que se comunica por língua de sinais, Richard que usa a pintura… Tudo funciona muito bem, e todas as cenas em que algo do tipo aparece, ficamos vidrados olhando para a tela admirando a delicadeza e verdade que Del Toro propõe. Isso é linguagem, que serve para nos comunicar algo. E já que falei de comunicação, o filme ainda coloca, mesmo que sutilmente, o processo de iniciação de comunicação entre dois seres que usam uma linguagem (língua de sinais não é linguagem, mas refiro ao ‘gestual’) diferente para se comunicar. Acaba que a criatura consegue parcialmente compreender alguns sinais de Elisa, como ovo, que ela levava escondido para alimentá-lo, e eu e você juntos. Não entrarei em detalhes da significância de ovo e eu e você juntos, pois essa questão é bem mais complexa, mas ao que tudo indica, parcialmente a criatura consegue aprender esses sinais, o que sugere o inicio de um processo de comunicação e aprendizado.

O filme brinca com uma fotografia sépia, que certamente remete a uma década antiga, mas também mistura bem elementos cinza, que sugerem um significado de frieza, fábrica e militarismo, contrastando também com o passado. E por fim, uma paleta belíssima de azul, que é o que da vida a obra, e coloca literalmente o título do filme em seu corpo, “a forma da água”.

O envolvimento de Elisa com a criatura a principio para mim foi bem precipitado, sem nenhuma hesitação. A resposta para isso foi Elisa se considerar diferente assim como ele. Logo depois entramos em uma visão “friendly”, mesmo que suspeitando do amor que ela sente por ele. Mas tudo acaba se tornando intrínseco depois da fuga e a breve estadia da criatura na casa de Elisa. As cenas submersas conseguem transmitir uma paixão palpável aos olhos de quem vê, e realmente dispõem a verdadeira essência estra do longa, indicando uma conexão transcendental entre os personagens beirando ao piegas.

Sobre a construção da criatura, o filme às vezes o retrata como um deus, e fazem até mesmo contrapontos com questões religiosas conservadoras. Ele foi encontrado na América do Sul, mais especificamente na Amazônia, e era cultuado como uma divindade. É claro que podemos entendê-lo assim, tendo em vista seus misteriosos poderes de cura, que são capazes de até mesmo ‘reviver’ alguém. Caracterizadamente, seu visual é deslumbrante e chamativo, bem digno de tudo que o Del Toro já havia feito, e ele atua com tanta emoção, carregando consigo uma ingenuidade selvagem, mas que aos poucos se transforma em uma paixão genuína crescente.  

Toda intensidade amorosa é bem sucedida, e acho que essa é a questão mais importante do filme. Mesmo achando que alguns personagens não foram bem trabalhados, e que algumas situações foram demasiadamente inusitadas, A Forma da Água é uma boa obra, tratada visualmente com carinho e servindo de afago para nossos pobres coraçõezinhos apaixonados.

NOTA:

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Ricardo Souza

Tem gente que diz que sou um amorzinho, eu digo que sou um trouxa. Viciado em maratonar séries e ficar na bad depois de assistir tudo em um dia. Amo muito música indie, quando quiser me chamar pra ouvir Florence já sabe onde procurar. Mineiro do interior que não puxa o 'r' quando fala, mas adora um pão de queijo.

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