Criaturas mágicas soltas em Nova York seriam capazes de trazer de volta a magia tão características do mundo bruxo? Spoilers moderados abaixo!

Há 15 anos, um garoto de onze anos de idade chegou às telonas, descobriu que era bruxo e, entre outras coisas, conquistou o coração de milhares de pessoas ao redor do mundo. Harry Potter foi um fenômeno tão grandioso e tão influente culturalmente que só pode ser comparado ao que Star Wars conseguiu fazer nos anos 70/80. Foram dez anos acompanhando o desenvolvimento e amadurecimento da trama e dos personagens, sete livros que marcaram toda uma geração, oito filmes que mantiveram uma qualidade técnica e artística invejável e uma história que mudou a vida de várias pessoas, comigo incluso.

Após esse estrondoso sucesso, seria difícil deixar um universo tão vasto e tão lucrativo morrer tão facilmente. Eis que, depois de cinco anos do término da saga que nos introduziu ao mundo mágico, chega aos cinemas Animais Fantásticos e Onde Habitam, uma obra roteirizada pela própria autora dos livros, que prometia inicialmente explorar o personagem Newt Scamander em um incidente em Nova York, onde animais escapariam de sua maleta e causariam problemas pela cidade.

Não foram poucos aqueles que torceram o nariz para esse novo filme. Alguns acusaram de ser meramente um caça-níquel vazio de conteúdo enquanto outros afirmavam não ver sentido em criar uma nova saga a partir de uma premissa tão limitada. Haviam reclamações sobre escolha de elenco, aumento do número de filmes, ao título em si e tinha até mesmo aqueles que reclamavam de não aparecer ninguém de Harry Potter, mesmo com a história se passando 70 anos antes do menino que sobreviveu nascer! O que não faltou foram detratores da obra antes mesmo de ela estrear. Entretanto, todas essas preocupações e críticas foram por água abaixo com o que vimos em Animais Fantásticos e Onde Habitam.

FANTASTIC BEASTS AND WHERE TO FIND THEM

Para começar, preciso falar do quão eficaz o filme é em criar uma identidade própria ao mesmo tempo em que reverencia a saga que o derivou. Se nos próprios créditos iniciais o filme começa com os já conhecidos acordes de Hedwig’s Theme e com o logo da WB vindo em nossa direção da mesma maneira que fazia em HP, não demora muito para a trilha mudar para algo completamente diferente e original assim como imediatamente somos jogados no meio da ação após uma série de manchetes que remetem ao que vimos em Ordem da Fênix. E é dessa maneira que o filme segue, elaborando sua atmosfera distinta ao mesmo tempo em que homenageia o que vimos em Harry Potter. É um fan service sutil e executado com uma elegância que não estamos acostumados a ver em blockbusters atualmente. Boa parte disso é devido ao fato de J.K. Rowling estar roteirizando o filme, pois como criou este mundo, ela sabe como ninguém explorá-lo e ampliá-lo sem esquecer do cerne que trouxe tanto sucesso.

Entretanto, isso não quer dizer que o roteiro seja perfeito, pois ele passa longe disso. Ao tentar condensar tantas tramas em tão pouco tempo, o filme não só fica sobrecarregado, como algumas delas não são aproveitadas como deviam. Por exemplo, a premissa dos animais escapando da maleta de Newt, mesmo gerando ótimos momentos, é solucionado de maneira tão secundária que corre o risco de soar mal resolvida para alguns. A trama dos segundos salemianos tinha um potencial para ser um miniconto de terror e repressão e acaba por ser subutilizada a ponto de sequer compreendermos muito bem como toda aquela organização funciona. Isso sem falar na trama política No-Maj que simplesmente poderia ser descartada sem o menor problema pois sua função é inexistente. Ainda pode ser notada a inexperiência de Rowling com roteiros, já que a mesma adota maneirismo literários que não funcionam na telona, tais como narrativa dividida em capítulos (“visita ao bar”, “captura do animal x”, “procura do No-Maj com a maleta”) e com seus respectivos “ganchos” ao final, assim como o excesso de personagens, onde vários ficam sem função, como a presidente do MACUSA, que só serve pra dizer “isso significa guerra”.

Felizmente, a capacidade da autora em explorar seu mundo é tão encantadora que é difícil não deixar de lado esses problemas. A linha tênue da relação entre bruxos e No-Maj em Nova York é ainda mais urgente do que aquela que estamos acostumados, a existência de uma pena de morte para bruxos é interessante para ressaltar que, bruxos ou não, a intolerância da sociedade estadunidense é gritante, a introdução do conceito do Obscurus serve como um pontapé extremamente intrigante, o vislumbre da ameaça de Grindelwald é o suficiente para levantar o ânimo para os mais descrentes. Isso sem falar da forma como ela trabalha com cada animal, que é mágica, pra dizer o mínimo.

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É incrível perceber como cada um que aparece na tela deixa sua marca, estejam eles servindo como puro atrativo visual ou como personagens independentes. Alguns como o Erumpente e o Nundu servem simplesmente para oferecer à maleta do Newt uma diversidade maior de animais (e para que os fãs finalmente consigam vê-los ganhando vida). Outros como o rapinomônio e o pássaro-trovão estão ali como artifícios para resolver certos impasses criados, o que não significa que eles se limitem a isso. Mas o destaque mesmo fica com três deles: o seminviso, o tronquilho e o pelúcio. O primeiro, ainda que não faça nada de importante para o filme, é de uma concepção tão criativa que fica difícil não se afeiçoar. O tronquilho, Pickett, ao mesmo tempo em que serve para avançar a trama, possui carisma e identidade o suficiente para destacá-lo. Mas quem rouba a cena mesmo é o pelúcio, que não só protagoniza duas das sequências mais hilariamente criativas do longa como também recebe o título de coisa mais fofa que vi no cinema esse ano, o que é um feito e tanto.

Mas é claro que isso tudo não seria possível se os efeitos visuais não fossem convincentes. A textura (penas, escamas, pelos, etc,) dos animais e os seus movimentos são tão impressivos que fica difícil acreditar que eles não existam realmente, o que torna ainda mais desapontador o fato de que algumas interações com os humanos denunciem sua artificialidade (uma sequência envolvendo um Oocami e o quarteto de protagonistas é particularmente trágica nesse quesito). Além dos animais, tanto os feitiços quanto a construção de cenários (a divisão de ecossistemas na maleta é de cair o queixo) são críveis em sua massiva maioria.

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Como não poderia deixar de ser, o restante da parte técnica também faz jus à excelência que acompanhamos na série. Os figurinos majoritariamente sóbrios são eficazes em recriar os anos 20, ressaltar a preocupação dos bruxos em se disfarçar da sociedade no-maj e ao se permitir voltar à inventividade de roupas mais características, como aquelas que vemos em uma convenção no MACUSA. O design de produção é impecável em sua grandiosidade e em seu detalhismo, chamando a atenção tanto na ambientação histórica quanto na elaboração do congresso mágico e da maleta. A trilha sonora também fascina ao distinguir-se do que vimos em Harry Potter, homenagear a saga e ao tomar decisões curiosas como aquela quando, num momento aparentemente cômico de dança, a trilha ressalta o amor de Newt por seus animais ao invés da comicidade da cena.

Meu único porém com esses aspectos é a fotografia, pois apesar de ser visualmente bonita, sua paleta dessaturada deixa a cidade um tanto quanto sem vida. Isso afeta até mesmo os cenários mágicos, já que estes, mesmo mais policromáticos que a cidade em si, pouco se diferenciam da mesma, o que pode ser percebido na primeira sequência que vemos o MACUSA, pois a troca de ambientes não causa o impacto esperado justamente pela ausência de cores. Tudo bem que este era o padrão visual dos últimos quatro filmes da série original, mas não parece funcionar aqui. Só me resta esperar algo mais eficaz nos filmes seguintes.

Quanto ao elenco, creio que todos foram tão bem em seus papeis que só me resta elogiar. Dos coadjuvante, Samantha Morton surge forte como a líder dos segundos salemianos, Colin Farrell nunca esteve tão bem como aqui com seu Percival Graves e Ezra Miller transmite competentemente toda a instabilidade de seu Creedence. Já o quarteto protagonista está ótimo e com uma química deliciosa de se acompanhar. Redmayne mantém os maneirismos de sempre, mas ao menos aqui eles cabem como uma luva no personagem. Wasterson consegue defender com eficácia a turbulência interna de sua Tina. Sudol exibe graça e esbanja carisma com Queenie, intercalando isso com a firmeza em momentos mais intensos. Mas o destaque mesmo é Fogler como o No-Maj Jacob que confere certa multidimensionalidade ao personagem que poderia resumir-se em ser os olhos do público e um mero alívio cômico. O único problema encontra-se na participação de Depp, que parece ainda não ter encontrado o tom correto de Grindelwald. Espero que ele perceba que menos é mais aqui e mostre-se mais contido no futuro.

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Antes de terminar de falar sobre o filme, preciso falar um pouco sobre as pontas que esse abriu para os próximos e sobre as informações que temos sobre ele, então sugiro que quem não queira saber de nada do que poderá/irá acontecer no próximo, pule os próximos três parágrafos. Primeiro, temos Leta Lestrange que parece ter sido bastante importante no passado de Newt. A atriz que a interpreta (Zoe Kravitz) já está confirmada no próximo filme e, ao que tudo indica, sua aparição não será nada boa para Newt. Muitos acham que Leta foi a responsável pela expulsão de Newt em Hogwarts, que ele assumiu a culpa de alguma coisa que ela fez e que essa coisa provavelmente tem algo a ver com Grindelwald, eu acho que as duas primeiras partes dessa teoria estão corretas, mas duvido bastante de que seja algo relacionado à Grindelwald.

Outra coisa denunciada pela escalação de elenco é que Creedence (Miller) não apenas está vivo, como será um personagem importante para as sequências. Desde então me pergunto até que ponto ele foi afetado pelos ataques dos aurores e se o Obscurus dentro dele ainda está vivo, pois creio que ainda veremos Newt separando ele de Creedence. Além disso, as similaridades da história do Obscurus e do comportamento de Creedence com o dela, acusam o fato de a irmã de Alvo, Ariana, também ter sido uma Obscurial, o que não só torna a história dela mais trágica, como sugere que Grindelwald possa ter abordado Dumbledore com o mesmo papo que abordou Creedence, prometendo um grande poder quando, na verdade, queria mesmo era usar o Obscurus para seu propósito. E isso também deixa ainda mais dolorida a paixão de Dumbledore por ele.

Também sabemos que Dumbledore aparecerá no próximo filme e que ele será ambientado em Paris. Para quem não sabe, Nicolau Flamel, o alquimista de Pedra Filosofal, é francês e provavelmente já trabalha com Dumbledore na época, o que deixa bastante provável o cenário de que Grindelwald vá atrás da pedra para garantir poder. O que não está tão claro assim é como o quarteto acabará lá, sendo que não há razão nenhuma para Tina, Queenie e Jacob estarem em Paris. Estaria Newt lançando seu livro? Estaria ele sendo convocado por Dumbledore em alguma missão? Por ora, só nos resta teorizar.

Mesmo não podendo chamar o filme de “fantástico”, por achar que isso seria um exagero, o que o longa apresenta é uma gama enorme e inquestionável de qualidades, capazes de expandir a mitologia do universo, introduzir uma nova e promissora trama e entregar um trabalho que não apenas diverte como aproveita o cenário para estabelecer diversas alusões ao que vivemos no mundo real. Uma obra que fará qualquer fã ficar grato em poder ficar um pouco mais nesse mundo tão apaixonante e que também possui a habilidade de conquistar aqueles que ainda não haviam sido fisgados por essa magia. Mal posso esperar pelo próximo!

PS: Se possível, veja em 3D.

Ícaro
Ícaro

Cinéfilo de carteirinha e atual professor de Herbologia em Hogwarts, tem a escrita como uma de suas paixões e acha que o mundo seria um lugar melhor se as pessoas não ligassem tanto para a opinião dos outros.
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