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Especial: Euphoria – Season 1 (Com Spoilers)

Eu estou muito euphorico!

No dia 16 de junho de 2019 tivemos a estreia da estimada série da HBO, Euphoria, que desde o ano passado estava na ponta da língua do povo por conta do seu elenco incrível, que contém ninguém mais ninguém menos que Zendaya, e pela produção da série que conta com Drake como produtor executivo da série.

Estava sendo muito questionado como essa série abordaria as diversas problemáticas que se propôs, já que hoje em dia as produções estão se esforçando ao máximo para criar algo que seja consciente e que não cause o efeito contrário do esperado, vide o que aconteceu com 13 Reasons Why. Antes mesmo de estrear já estava sendo falado de cenas que poderiam causar certos tipos de desconforto, e até mesmo uma suposta cena de estupro coletivo que poderia acontecer, sendo assim, muitas dúvidas surgiram, e pelo menos eu fiquei com o pé atrás. Decidi dar uma chance e fui gratamente surpreendido. A série aborda sim assuntos bem pesados, mas em nenhum momento senti glamourização/romantização dos mesmos, o que já é um grande passo. A condução da sua narrativa foi bem crua, jogando em nossas caras esses assuntos ainda hoje tratados como tabu, ou das quais muitas vezes nós fechamos os olhos ao ver, e mostra as consequências dos mesmos, fugindo assim da romantização.

Problemas com drogas, sexualidade, gênero, transição, gordofobia, aborto, relacionamentos abusivos… Esses são alguns dos temas que Euphoria trata. Então para começarmos nossa análise, irei apresentar alguns dos personagens principais da série, e depois listarei alguns tópicos que foram abordados durante a série, dando a minha opinião, mas tentando levar em consideração tudo o que eu li nos grupos e fóruns da série.

Rue Bennett: A protagonista da série se chama Rue, ela tem 17 anos e é viciada em drogas. Seu pai faleceu devido a um câncer, e foi durante esse momento que ela começou a se drogar com os remédios dele. Logo de cara já nos é mostrado os seus problemas de forma bem crua, como quando ela teve uma overdose e quase morreu, sendo salva a tempo por sua irmã Gia. Após voltar de uma reabilitação, acompanhamos ela em sua jornada e seu ponto de vista sendo uma narradora que não é nenhum pouco confiável (palavras da própria).

Jules Vaughn: Jules é uma menina trans recém chegada na cidade, que por onde passa chama a atenção de todos por conter uma aura que a ilumina muito. Ela teve muitos problemas em sua vida pelo fato de ser transexual. Sua mãe a internou em uma clínica por conta disso, e descobrimos então que ela também enfrenta um sério problema de automutilação. Ao chegar na cidade instantaneamente Jules e Rue criam uma conexão, e uma forte amizade se inicia.

Nate Jacobs: Filho de Cal Jacobs, um grande e influente empresário, ele é um jovem extremamente popular, mas que logo de início se mostra uma pessoa violenta. Seu relacionamento com Maddy Perez é extremamente tóxico, e descobrimos que parte da sua raiva foi desenvolvida ainda na infância, quando Nate descobre coisas ‘obscuras’ de seu pai.

Maddy Perez: Maddy é uma garota de 17 anos também popular e que namora com o influente Nate Jacobs. Ela em diversos assuntos é muito bem resolvida, principalmente sobre o seu corpo, mas no que se trata do seu relacionamento, ela acaba por sofrer constantes abusos e não sabe lidar, da forma que esperaríamos, sobre eles.

Kat Hernandez: Kat tem 18 anos e é uma grande amiga de Maddy. Na sua história vimos que após começar a engordar na infância, ela criou certa insegurança com seu corpo e também com relacionamentos, já que ela teve um ‘namoradinho’ na infância, mas ele acabou a dispensando quando ela engordou. Ela começa a criar segurança quando percebe que na internet há pessoas que sentem atração por ela, e a partir disso ela começa a fazer dinheiro virando uma cam girl.

Cassie Howard: Fechando o trio de amizade temos Cassie. Ela tem 18 anos e possui uma irmã mais nova chamada Lexi. Sua personagem é bem popular, e em sua história vimos que ela seguia um sonho que foi alavancado por seu pai de ser patinadora. Seu pai abandonou sua família após sofrer um acidente, e isso deixou marcas em sua vida até o atual momento. Ela namora Chris McKay, um jogador de futebol americano, mas o relacionamento deles não é tão saudável como aparenta.

Chris McKay: O mais velho do elenco principal é McKay, ele tem 19 anos e é um jogador de futebol americano muito habilidoso que acaba de entrar para a faculdade. Em sua história descobrimos que desde a infância ele foi pressionado pelo seu pai para se tornar um jogador, mas isso acabou o afetando em problemas com sua própria pessoa. Ele se mostra carinhoso com sua namorada Cassie, mas ao longo dos episódios, principalmente em uma cena específica em que ele é abusado por veteranos da faculdade, percebemos que McKay não é alguém tão bom assim.

Conhecendo o elenco principal, irei abordar alguns temas que achei de mais relevância trazer para essa análise, e ao final darei um parecer geral sobre as partes técnicas da série, que são incríveis como um todo, bem como o meu veredito final sobre o que achei. Vamos lá?

Rules: Um relacionamento tóxico (?)

Vou começar direto com o maior tópico e com o que vem rendendo mais debates na internet, que é a relação entre Rue e Jules. Ambas se conheceram e instantaneamente criaram uma conexão bem intensa, o que já é um indício de que ou algo vai dar muito certo ou muito errado. Após a festa na casa do McKay em que houve o incidente entre Jules e Nate, Rue acompanhou ela para sua casa e lá elas tiveram o primeiro momento de extrema conexão. A partir disso elas ficaram muito amigas, mas um sentimento de paixão estava começando a tomar conta de Rue.

Acompanhamos o desenrolar dessa paixão crescente, e não demorou muito para o sentimento se tornar mútuo, mas de uma forma bem diferente do usual. Jules é uma personagem que busca ser livre, mas também não se atém em se apaixonar e querer um relacionamento que minimamente a deixe “eufórica”. Então ao passo que ela estava se apaixonando por Rue, ela também estava apaixonada por Tyler, um rapaz misterioso que entrou em contato com ela em um aplicativo de relacionamentos. Por outro lado, Rue sempre foi muito entregue, e creio eu que Jules é a sua primeira grande paixão, mas mesmo assim há certo conflito, pois anteriormente ela não havia ficado com mulheres, então além de tudo isso, acompanhamos também um processo de descoberta, tanto dela quanto de Jules. Entretanto as coisas começam a ficar complicadas quando Jules descobre que Rue é usuária de drogas, e ela faz um pedido para que se elas quisessem ser amigas, Rue deveria parar de usar. Em contraponto disso, quando Rue se livra da droga e entra em uma abstinência terrível, ela vai até o centro de reabilitação e lá conhece Ali. Ela acaba dizendo para ele que está tratando Jules como sua droga, já que agora ela se proibiu de utilizar outras substâncias por conta dessa imposição de Jules.

A partir disso uma relação tóxica de dependência começa a surgir, em que mesmo ambas se amando, elas não percebem que as imposições uma para com a outra acaba se prejudicando. Jules no penúltimo episódio sai da cidade e vai visitar uma velha amiga. Ela estava muito mal por toda situação que estava ocorrendo com ela sobre Nate, que estava a chantageando, fora que ele se passou por Tyler, o cara misterioso do aplicativo. Nesse meio tempo, Rue vive uma depressão terrível, e descobre ser bipolar (ou pelo menos é o que parece), já em contraponto, Jules mostra um certo “alívio” por estar longe de tudo e todos, mas não da forma como se ela não se importasse com Rue por exemplo. Ela conhece Ana, ambas acabam ficando e Jules se apaixona, o que é mostrado no último episódio da série. Porém o amor que uma sente pela outra ainda existe, mas a relação das duas não é algo estabelecido, era algo que estava se desenvolvendo de forma aberta, o que para Jules estava sendo muito bom, pois esse era o desejo dela, mas para Rue não. Uma proposta surge quando Rue chama Jules para elas saírem da cidade, se mudarem a abandonar tudo para trás, para alguém com o espírito livre como Jules, aquele pedido era um grande presente, mas quando as coisas começaram a fazer sentido para Rue, ela percebeu que estava sendo muito imprudente em fazer isso, principalmente por conta de sua família e também de sua condição. Ambas vão até a estação, mas lá Rue acaba ficando para trás, e Jules vai sozinha para o seu novo destino. Não sabemos como foi a reação de Jules, pois apesar do seu maior desejo ser a liberdade, ela ama Rue, então eu esperaria que sua reação fosse a mesma (em proporções menores) que a de sua parceira.

Como eu já disse, a dependência uma com a outra não é nada saudável, e nem essa imposição que fica subentendida no relacionamento das duas. Entretanto, como disse a Carol Moreira em sua análise que vocês podem conferir clicando aqui esse relacionamento é uma descoberta para as duas, elas não sabem o que elas realmente querem ou do que elas realmente gostam, elas só sabem que elas se gostam MUITO. Então temos aqui a bisexualidade sendo retratada talvez de uma das melhores formas que eu particularmente já vi em uma série, todo esse processo de descoberta é muito verdadeiro, e isso que é o mais emocionante de tudo na relação das duas. Eu entendo muito bem que as pessoas acharam a atitude de Jules ao final da série muito errada, eu também fiquei chateado com isso, mas eu observando ela como uma mulher trans que está se descobrindo e tem uma vivência totalmente diferente da vivência de Rue, que é uma mulher cis, não posso demonizá-la pelo que ela fez, já que nessa história, apesar de toda essa dependência que não é boa, não há culpados. Essa é minha visão sobre esse relacionamento, e eu torço para que as coisas se acertem em sua próxima temporada.

Nate: Sua agressividade e os problemas familiares

Sendo o antagonista, Jacob Elordi fez um digníssimo trabalho em unir todas as pessoas que assistiram a série com o propósito de odiá-lo hahaha. Seu personagem é extremamente complexo, vive uma confusão que o afetou logo em sua infância, quando descobriu que seu pai mantinha relações homoafetivas em escondido, e além de tudo as filmava. O primeiro ponto que me chamou a atenção com relação ao Nate e o seu pai foi a questão da dominância, como o Nate passou a se portar de forma a dominar as pessoas em seu relacionamento, da mesma forma como o seu pai fazia nos vídeos. Um exemplo disso é quando o Nate se revela para Jules no parque, e ele faz a mesma coisa que Cal havia feito com Jules quando os dois transaram.

Ele mantém uma relação extremamente abusiva com Maddy, até a agrediu fisicamente, mas por ter colocado tudo a perder, conseguiu arranjar um jeito de se livrar, colocando Tyler (o rapaz pelo qual ele estava se passando, que é a mesma pessoa que ficou com Maddy no primeiro episódio na festa do McKay) como culpado disso tudo. Ele agrediu fisicamente o mesmo para chantageá lo e quase o matou de tanto espancá-lo.

Toda essa agressividade culminou em uma cena assustadora no último episódio, quando Nate e Cal acabam se confrontando. Cal consegue dominar Nate, e o mesmo começa a se debater de forma muito violenta, deixando o seu pai muito assustado.

A suposição é a de que Nate aparentemente é gay ou bissexual, e ele não aceita isso, principalmente após descobrir sobre o seu pai e por isso guarda toda essa raiva. Há ainda aquela situação que envolveu a Jules e que posteriormente Maddy descobriu, que são as fotos de diversos pênis em seu celular, e sua esquiva toda vez que Maddy tocou nesse assunto. Se analisarmos pelo contexto de produção, não temos um personagem principal gay, e nem um núcleo que seja explorado sobre isso, então eu vejo esse personagem do Nate, analisando de forma narrativa, como a única chance de termos um personagem gay na série, isso se eles não inserirem outra pessoa na segunda temporada. Mas ainda eu tenho muitas dúvidas sobre esse personagem, ele para mim está sendo o melhor no quesito desenvolvimento, deixando algumas questões instigantes em aberto e que possivelmente teremos respostas na próxima temporada.

Kat e seu empoderamento

Uma das minhas personagens favoritas da série é Kat, isso porque eu particularmente me identifiquei muito com ela, e creio que muitos outros fãs também. Kat de início era aquele estereótipo de garota que é tímida e deixada para escanteio quando está próxima de suas amigas magras e populares, mas não demoramos muito para descobrir que Kat é uma garota ambiciosa e que logo logo se empoderaria nos deixando uma mensagem.

Descobrimos que ela é bem popular na internet por conta de fanfics que ela escreve, e por conta disso, ela percebe que possui uma legião de seguidores que gostam dela pelo o que ela é (aparentemente). Por conta disso ela começa a aceitar o seu corpo ao perceber que há homens que se interessam por ela, e que pagariam para ela se mostrar, e a partir disso ela começa a se inserir no mundo das cam girls. Não estou dizendo que para se empoderar sobre o seu corpo você necessariamente precisa fazer isso, mas que essa foi a alternativa que Kat encontrou, e que por um tempo estava satisfazendo ela, o que também é algo importante. Ser gordo é sofrer durante boa parte de sua vida por conta de sua aparência, então não irei julgar os motivos de Kat pelo o que estava deixando ela satisfeita. Mas temos que levar em consideração o que acabou acontecendo com ela, que após perder sua virgindade de forma pressionada, ela decidiu não se importar mais com o que o sexo representaria para ela, afinal, é só sexo (aqui temos um ponto negativo e um positivo sobre a situação). Depois de um tempo, ela começa a perceber que ela não necessariamente precisa agir daquela forma para ser empoderada, já que ela estava “irreconhecível” até para suas amigas, bem como agindo de forma bem estranha com pessoas que gostam dela de todo jeito, como Ethan. A jornada de Kat foi de aceitação, empoderamento e compreensão sobre ela e o próprio corpo, eu amei muito ver o crescimento dela e por isso ela é uma das minhas personagens favoritas.

Cassie e a escolha do aborto

A situação de Cassie foi uma das mais emocionantes e bem feitas a meu ver em toda a série. Como eu já disse aqui, o relacionamento dela com McKay não era tão saudável como transparecia, ele na verdade abusou dela após o mesmo ter sido abusado pelos veteranos de sua faculdade. Acontece que Cassie acabou engravidando e McKay a largou, o que deixou ela totalmente abalada. Mas felizmente Cassie recebeu o apoio da sua família, principalmente o da sua mãe, que desde que se deixou levar pelo vício do álcool sempre foi distante com suas filhas. A cena em que Cassie vai para a clínica fazer o aborto é muito íntima e emocionante, vemos ela em seu momento de maior alegria que é patinando, em contraponto a um momento muito difícil de sua vida. Foi lindo ver todo o apoio que ela recebeu de sua mãe e de sua irmã, e a jornada de Cassie, por mais tortuosa que possa ter sido, acabou fazendo dela uma personagem que deu a volta por cima, apesar de tudo pelo o que ela passou.

Tivemos muitos outros assuntos importantes sendo abordados na série, como a própria relação com as drogas de Rue e os traumas da infância de Jules, mas como esse texto já está enorme, vou deixá-los apenas como citação aqui, pois ainda preciso falar de um assunto que é muito incrível na série, e que eu amo muito… Sua produção!

A produção de Euphoria foi muito bem feita, certeira em diversos pontos, bem sutil em outros, misturando o moderno com o tradicional, o convencional com o não convencional, e criando uma forma de narrar que tornou esse storytelling muito viciante de acompanhar. Tudo se encaixou perfeitamente, desde a trilha sonora, para a iluminação, o jogo de câmera, as transições e até mesmo as viagens da Rue e sua forma de narrar. O final da série é algo a ser levando em consideração, pois como muitos ainda estão com dúvida precisamos esclarecer de uma vez que Rue não morreu (pelo menos temos quase 100% de certeza disso), mas a forma que eles construíram aquela cena foi para demonstrar sua jornada enquanto usuária que é nada mais nada menos que uma euforia. Euforia significa um grande estado de alegria físico objetivo ou um sintoma para uma patologia ligada a drogas e álcool que gera a dependência, e como Rue entra naquele estado de ‘euforia’ antes de começar a dançar e cantar nos mostrando sua jornada? Usando drogas! Então temos ao final mais uma de suas viagens narrativas, porém dessa vez muito mais intensa por retratar uma situação avassaladora para Rue. Vejam como a narrativa e a produção foram importantes aqui… É sinceramente uma das obras mais inteligentes que eu vi nos últimos tempos.

Bom pessoal, eu espero muito que vocês tenham gostado, essa série foi uma das minhas grandes surpresas desse ano, e risco a dizer que foi a minha favorita. Eu ficava super ansioso para chegar domingo e assistir Euphoria ao vivo, coisa que raramente faço em outras séries. Enfim, compartilhe com seus amigos, deixe aí abaixo sua opinião sobre a série como um todo e sobre os assuntos que deixei aqui (se quiser citar outro, fique à vontade), sempre mantendo o respeito com a opinião dos colegas. 😀 Até mais euphoricos!

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Ricardo Souza

Tem gente que diz que sou um amorzinho, eu digo que sou um trouxa. Viciado em maratonar séries e ficar na bad depois de assistir tudo em um dia. Amo muito música indie, quando quiser me chamar pra ouvir Florence já sabe onde procurar. Mineiro do interior que não puxa o 'r' quando fala, mas adora um pão de queijo.

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