Posts Populares

Cine Panela: Lady Bird

Não se apavore, porque tá na hora de voar.

Sinopse: Christine McPherson (Saoirse Ronan) está no último ano do ensino médio e o que mais deseja é ir fazer faculdade longe de Sacramento, Califórnia, ideia firmemente rejeitada por sua mãe (Laurie Metcalf). Lady Bird, como a garota de forte personalidade exige ser chamada, não se dá por vencida e leva o plano de ir embora adiante mesmo assim. Enquanto sua hora não chega, no entanto, ela se divide entre as obrigações estudantis no colégio católico, o primeiro namoro, típicos rituais de passagem para a vida adulta e inúmeros desentendimentos com a progenitora.

 

Lady Bird é como um sopro de ar fresco entre os filmes que costumamos ver concorrendo no Oscar. Não há nenhuma temática pesada sendo apresentada, não há tiros, bombas, mortes. Há apenas a retratação do que é a vida. A estranha, difícil, complicada e mais pura relação entre uma jovem, Christine, ou melhor, Lady Bird, com todos a sua volta. Ela sou eu, você, sua irmã, sua vizinha, talvez até mesmo a sua mãe, ou sua avó. Ela será sua prima mais nova quando tiver dezessete anos. Lady Bird é uma personagem muito relacionável, que faz com que possamos enxergar muito de nós mesmos nela. Há mais do que uma busca por um caminho a seguir, esse filme retrata o árduo caminho e a transformação de uma menina, numa mulher. Nem sempre é fácil, quer dizer, nunca é fácil. E Lady Bird nos mostra o porquê.

Greta Gerwig é uma jovem mulher, tem apenas 34 anos. Ela escreveu e dirigiu esse filme, e nós conseguimos sentir toda a sutileza, a delicadeza e o conhecimento de causa que ela tem ao escrever o roteiro. E quando você descobre algumas informações básicas ao seu respeito, percebe que tudo começa a fazer sentido. Lady Bird é uma personagem tão real, tão crível, porque ela deve ter sido altamente inspirada na própria Greta. Ambas nasceram e foram criadas em Sacramento, no meio oeste da Califórnia, estudaram em um colégio católico, tinham interesses pelas artes e queriam algo mais do que aquela cidade em seu futuro. Quando você escolhe falar sobre algo que já viveu, toda a experiência se torna mais legítima, mais verdadeira. Provavelmente a própria Saoirse Ronan, que interpreta a Lady Bird, deve ter passado por algumas situações como as que temos no filme. Que menina nunca teve o coração partido ou uma experiência terrível com um garoto que julgava ser incrível? Quem de nós nunca imaginou que viveria aquele amor para sempre? Afinal, todos os amores (e as dores) são eternos quando temos 17 anos. Somos tão intensas, tão vivas, podemos ter tudo, mas nunca é o bastante. A capacidade de compreender as coisas vem com o tempo, eu acho, porque conforme eu via o filme, conseguia enxergar uma jovem eu naquelas situações, agindo da mesma forma, tendo as mesmas reações, exageradas ou não, mas ciente que hoje não agiria dessa forma. Eu percorri o caminho que Lady Bird estava começando a encontrar, o mesmo caminho que Greta encontrou e percorreu anos atrás, talvez.

E falar de personagens relacionáveis, temos obrigatoriamente que citar Marion McPherson, a mãe de Lady Bird, interpretada de forma incrível por Laurie Metcalf, que encara todos os dilemas que uma mãe que tem que trabalhar, cuidar da casa e da família, tudo ao mesmo tempo. Ela não é diferente da minha mãe ou da sua, por exemplo. Enfermeira, tendo que dobrar os turnos no hospital pela falta de dinheiro em casa e ainda reclamando da quantidade de roupa suja, porque ela tem que lavar tudo antes de ir trabalhar. E a dinâmica que Laurie e Saoirse tem juntas, nos faz acreditar que elas realmente são mãe e filha, porque eu não consigo me lembrar de um filme em que um relacionamento familiar tenha sido retratado de forma tão crível, tão real. Há uma cena específica, que eu achei incrível, mesmo sendo tão simples, ela está no trailer, inclusive. Mãe e filha estão procurando um vestido e discutindo sobre algo que não concordam, como sempre, mas no meio da discussão a Marion encontra um modelo que a filha provavelmente iria gostar e, por cinco segundos, a briga não importa mais, como se nem tivesse existido. Pra elas, aqueles desentendimentos já são tão comuns, que nem importam tanto, é como se já fizessem parte da dinâmica entre mãe e filha. Já o pai de Lady, Larry Metcalf, que Tracy Letts interpreta de forma muito honesta, mostra como os pais tendem a ser comparsas de seus filhos, embarcando em suas loucuras. Quando Lady Bird precisa de ajuda, não é a mãe que ela recorre, é ao pai, porque ela sabe que ele vai ajudá-la. Porque, como a própria mãe diz: “ele é o bonzinho e ela é a malvada”.

"Nunca é o bastante. Nunca é o bastante."

                           “Nunca é o bastante. Nunca é o bastante.”

Além do pai e da mãe, Lady Bird tem um relacionamento importante com outras três pessoas na história: sua melhor amiga e seus dois namorados. Julie (Beanie Feldstein), sua melhor amiga, é outra personagem real na trama. Ela se parece com muitas meninas que podem ter passado por nossas vidas, estudado em nossas escolas e que foram condicionadas a viver quase a sombra de alguém. Enquanto a amiga quer ganhar mundo, pensa que há algo maior pra ela longe de Sacramento, Julie aceita sua condição quase que de forma passível. Aceita que vai fazer a faculdade municipal, aceita as dificuldades que tem nos relacionamentos, aceita as dificuldades que a vida coloca a sua frente. Enquanto Lady Bird quer levantar voo, Julie pensa no que ela pode fazer agora. Não é uma visão errada ou deturpada, é apenas uma prova de como cada pessoa vê a vida de uma forma e cabe apenas a ela decidir como será. Viver tem que ser confortável e não difícil. Já no campo afetivo, nossa protagonista descobre o amor de duas formas: com Danny (Lucas Hedges) e com Kyle (Timothée Chalamet). Esses relacionamentos mostram como as meninas acabam tendendo a mudar pelos rapazes, quando eles deveriam gostar de quem elas realmente são. Com isso fazem coisas que não costumavam fazer, agem de um jeito que não é normal, se afastam de pessoas que realmente importam. Tudo isso porque, em suas cabeças, vale a pena. As descobertas e experiências no campo amoroso nem sempre são agradáveis ou vão deixar boas recordações, mas elas são importantes, até mesmo as ruins. Cada vez que teve seu coração partido, Lady Bird aprendeu algo diferente e que provavelmente não fará outra vez. E é assim que vivemos, não é mesmo? Tentando, errando, aprendendo… tentando novamente.

A importância desse filme no Oscar desse ano, além de colocar Greta como a única mulher entre os que disputam o prêmio de Melhor Direção, é mostrar como um filme que aborda a jornada, crescimento e o amadurecimento de uma menina também é importante. Representatividade é importante. Nós vemos diversos filmes que mostram isso, mas do ponto de vista masculino, poucas são as produções que se preocupam em fazer algo realmente voltado para o público feminino. O filme é uma grande homenagem ao que é ser mulher, ao que é crescer sendo mulher… ao que é se tornar uma mulher. O caminho que nos leva a vida adulta é muito difícil, não só para nós mesmos, mas para todos os que nos cercam, principalmente para os nossos pais. A dificuldade no relacionamento entre mãe e filha talvez seja apenas uma pequena amostra não do quanto são diferentes, mas sim do quanto elas se parecem. Talvez sirva para mostrar que os pais nunca estão prontos para verem os filhos crescerem, para verem que eles podem e devem ganhar o mundo. Enquanto eles tentam, de todas as formas, os protegerem, veem que todas as suas tentativas são em vão, porque eles vão sempre conseguir escapar, mesmo se seja por uma pequena brecha entre os seus dedos. E então o pequeno pássaro, num misto de feliz e assustado, se vê livre. Mas não se apavore, porque chegou a hora de voar.

                                        (cinco panelinhas com louvor!)

 

Talvez Você também goste de...

24.02.2019 Cine Panela: Vice

gostou da matéria? deixe um comentário!

Thais Pereira

Feminista, leonina com ascendente em gêmeos e lua em virgem, viciada em memes, em Friends e problematizar na internet. Formada em História da Arte, mas consciente que nunca vai trabalhar com isso na vida. Normalmente eu escrevo e falo mais do que deveria. Eu mesma, Thais Mello.

Tema por Gabriela Gomes Todos os direitos reservados ao Panela de Séries