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Especial: Luke Cage – Season 2

A segunda temporada de Luke Cage é a melhor coisa que surgiu dessa parceria Netflix/Marvel. E isso não é uma frase pra chamar clique ou pra conseguir projeção, é a mais pura e simples verdade, tão tranquila e suave quanto tomar um gole de Bushmaster.

Assim como o próprio personagem, é possível ver que a série evoluiu, que aprendeu com todos os erros do passado – inclusive esse lance de passado é uma temática muito relevante ao longo de toda a série, mas a gente já chega lá – e que não tem pressa pra nada, dando o devido tempo pras coisas acontecerem.

A primeira temporada teve diversos problemas, apontados por muita gente inclusive, mas dois me chamaram muito a atenção: a questão do vilão (o desperdício do Mahershala Ali é algo que eu não aceito até hoje, principalmente porque depois veio aquele Diamondback) e a forma como a série fluía. O início da temporada é interessante, trazendo boas ideias e um cara que tinha uns poderes e que tentava fazer o melhor possível com eles, o que por si só é algo ótimo, mas aí tudo começou a dar errado e, quando a gente olha pro lado, surgiu uma barriga na série, uma sucessão de enrolações que mostravam que nem quem escreveu a série sabia o que tava fazendo. E depois disso ainda teve aquele desperdício de tempo chamado Iron Fist que culminou naquela abominação que foi The Defenders. Então, quando as pessoas falavam que não quiseram nem terminar a primeira temporada ou que nem cogitariam ver uma segunda, eu entendi e não critiquei ninguém.

Mas, apesar disso tudo, eu me esforçava pra entender o que a série tava querendo fazer. Afinal de contas, era uma série protagonizada por um negro, com um grande elenco negro e se passando em um lugar onde a maioria das pessoas são negras. Na questão da representatividade, a série ia muito bem, obrigado. E por mais importante que isso seja, não é o suficiente pra que a série seja boa ou que todos devam assisti-la. A qualidade é o importante aqui, assim como aconteceu com Black Panther. A qualidade é uma coisa que tem de sobra nessa segunda temporada.

Antes de começar a falar da segunda temporada em si, acho importante falar sobre outros assuntos, bastante paralelos, que fizeram a minha percepção sobre a série melhorar. De uns anos pra cá, um assunto vem sendo discutido em diversos grupos, não só dentro das faculdades e universidades, mas também no cinema, pegando Moonlight como exemplo. O filme traz pra discussão a temática das Masculinidades Negras, uma linha de pensamento que busca repensar como o homem negro é visto pela sociedade – ele deixa de ser aquele homem bruto, agressivo, hipersexualizado e incapaz de lidar com sentimentos e busca se tornar algo mais, ir além disso tudo. E se tu não viu a segunda temporada ainda, vai um spoiler: é exatamente isso que acontece lá.

Enquanto na primeira temporada o Luke era hipersexualizado, transando com três personagens diferentes, e com diversas brincadeiras de ir tomar café com outras, na segunda isso já não acontece. Há uma cena de sexo com a Claire, mas como eles tão em um relacionamento por quase toda a S02, não há essa “preocupação” em relacionar o personagem com a ideia de estar sempre pronto para o sexo. E outros temas muito recorrentes na série também são vistos nas discussões sobre aquela temática: agressividade, paternidade, machismo, religião e ancestralidade. E há uma possibilidade deste último tema ser o principal dessa temporada, e como é tudo uma grande história sendo contada, da própria série.

Mas falando sobre os personagens em si, o Luke Cage finalmente tem um rival à altura. Só que, na real, são dois vilões, cada um atacando ele por um lado diferente. O Bushmaster é a ameaça física, utilizando de outros artifícios pra derrotar o Luke no corpo-a-corpo todas as vezes, e a Mariah assumiu o posto de vilã que sai das sombras e começa a mostrar as próprias garras, afetando a parte psicológica do herói. Até mesmo o Shades tem o seu papel nessa história toda. A Misty também é uma das personagens que tem sua importância reconhecida, e a cena dela e da Colleen é uma das melhores coisas dessa temporada (certamente é melhor do que toda a temporada de Iron Fist).

Mas a relação dele com a Claire também é algo que deve ser lembrado. O lance deles deixou de ser aquela coisa de só tomar um café e pronto, passou a ser algo mais, algo mais sério, com o peso de um “eu te amo” e tudo o mais. E, com isso, várias coisas mudaram na relação deles. Esse é o primeiro relacionamento que o Luke teve em muito tempo, o primeiro que foi além de uma transa casual. E é perceptível que ele não tava pronto pra isso, mas que, ao mesmo tempo, ele tentava o possível pra fazer tudo dar certo. Mas o negócio de ser um super herói, e futuramente o próprio mal que ele buscava combater, mexeu demais com a cabeça dele e colaborou pro afastamento dela. O momento em que ele dá o soco na parede foi a gota d’água e até ele percebeu isso. E isso vai ao encontro do que eu falava antes, sobre a questão das masculinidades negras, em que o homem negro tem pouco espaço e/ou liberdade pra expressar seus sentimentos durante toda a vida e, nos momentos em que isso acontece, geralmente é na forma de uma explosão.

Outro tópico bastante importante nessa temporada é a ancestralidade. Não foi a Mariah quem matou a mãe do McIver, nem foram eles quem selaram o acordo pelo Harlem’s Paradise. Mas reflete nele as escolhas que os antecessores deles fizeram. O John tá buscando por vingança e pelos direitos dele, enquanto a Stokes, Mariah Stokes, tá se esforçando pra ser diferente da Mama Mabel, porém seguindo o mesmo caminho que ela – o que fica evidente na cena do restaurante, quando ela e os capangas matam tudo mundo e ainda tocam fogo no irmão do Bushmaster, com ele vivo, o que foi basicamente o que a Mabel fez lá na Jamaica.

Além disso, tem a questão da paternidade. A relação do Luke com o pai dele se tornou péssima depois que ele foi preso injustamente e o reverendo não acreditou no filho. Com a morte da esposa dele, as coisas só ficaram cada vez mais distantes entre ele e o filho, com nenhum dos dois fazendo muito esforço pra resolver a situação. Parando pra pensar, cada um tem o seu motivo e são motivos válidos. Mas, à medida que a temporada vai evoluindo, o relacionamento deles vai melhorando também. E é importante lembrar que foi o último papel do Reg E. Cathey, que faleceu no começo do ano, antes da temporada estrear. A relação da Mariah com a filha dela também pode caber nesse parágrafo, já que, por outros motivos, também é bastante complicada – e, de certa forma, é até mais.

Falando especificamente sobre o final da série, no qual o Luke se torna aquilo que ele mais combatia. Depois da prisão/morte da Mariah, o posto de chefe do Harlem ficou vago e várias outras gangues tentaram tomar o lugar, fazendo com que o bairro se tornasse uma zona de guerra. Muita gente tava morrendo e nem o Luke podia salvar todo mundo. Então, ele toma a decisão de negociar com cada um dos chefes, mostrando que o Harlem tava sobre o comando dele .E como a Mariah deixou o Harlem’s Paradise pro Luke no testamento dela, ele começou a controlar tudo por lá, do alto.

Enfim, a segunda temporada de Luke Cage foi um sopro de vida nessas séries que a Marvel e a Netflix tao fazendo, contrariando aquela coisa de ter as segundas temporadas piores do que as primeiras. A segunda temporada de Iron Fist vem aí e se o Danny for o mesmo que foi nessas aparições, a série tem o potencial de melhorar muito. Finalmente, duas coisas devem ser mencionadas: a interação Luke + Danny melhorou bastante, chegando perto de ser aquela que a gente viu nos quadrinhos e o Bushmaster já entra pro hall de melhores vilões da Marvel na tv/cinema.

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Rafael Augusto

Um hiperativo que não sabe viver sem ler, escrever, ouvir música, ver séries e filmes, geralmente tudo ao mesmo tempo. Fã de ficção científica, suspense, Stephen King e histórias em quadrinhos.

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