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Cine Panela: Three Billboards Outside Ebbing, Missouri

A raiva germina

Dando continuidade ao especial de filmes Oscar 2018, essa semana temos Three Billboards Outside Ebbing, Missouri, que vêm recebendo elogios, críticas e prêmios por onde passa. Venceu público em Toronto, 4 importantes no Globo de Ouro (sorry A Forma da Água), Veneza, British e mais. Figurinha certa na lista do Oscar e forte concorrente.

Mas então, é tudo isso que pintam mesmo? O que esperar do filme? Vou tentar poupar detalhes da trama, para que as surpresas sejam maiores ao ver, e focar mais nos méritos, assuntos tratados, clima do filme.

O clima é pesado. Vários acontecimentos chocantes e brutalidades são jogadas na nossa cara sem pena. Nos 10 primeiros minutos dá para sentir que não será um filme fácil de digerir. Isso é bom? Depende da pessoa. Eu mesmo não gosto de cenas que estão ali só para chocar. Se for para o fazer, faça direito, vide Eraserhead. Duas cenas em particulares me deixaram enojado. Coments abaixo.

Temos o clássico personagem principal, que sofreu uma injustiça no passado, e agora busca incansavelmente por reparação. Objetivo de vida. McDormant fez um bom trabalho com o papel, porém não conseguiu se livrar do maniqueísmo. Na verdade essa é impressão que ficou de todos os personagens. Temos o policial burro incompetente, o marido abusador, e vai indo. Pode até ter sido a intenção do roteiro, mas, certo incomodo ficou.

O filme abusa de estereótipos, razão que vem recebendo ferrenhas críticas ultimamente, não a toa. O diretor devia pensar com mais sensibilidade o poder que a generalização tem. As pessoas não podem ser rotuladas apenas como negro gordo bicha, palavras que podem machucar os passam por esse estigma diário. Pode ser a intenção do filme, uma forma de crítica, mas não consigo achar graça ou inteligência no uso aqui. Fora que, como diretor branco, deve ser fácil para ele achar que estava representando a causa feminina. Parem com o efeito Tarantino.

Sem falar nesse problema aqui.

Vários assuntos polarizadores vão surgindo do nada. Parecem tirados de um feed do facebook, tudo está lá e ao mesmo tempo nada, já que não há uma abordagem bem elaborada. Inutilidade da polícia (quando apenas 5% dos crimes são resolvidos, temos que questionar essa eficiência), abuso de autoridade, legalização da maconha, abuso familiar, violência sexual, pena de morte e racismo são uns mais óbvios.

Os policiais devem ter morrido de ódio do filme, boycote Beyonce, mas apesar das ferrenhas críticas e deboches que o filme lança para o corpo, ainda houve espaço para uma mensagem positiva. Lembrando que, como instituição do Estado, criada por e para o povo, esta não é um Deus evangélico que está imune a críticas. Há abusos, incompetência e bastante o que melhorar sim! Assim como há muitos profissionais íntegros, e como também parte da culpa pela falta de segurança cabe ao governo, não só a corporação. Ninguém tá criticando especificamente um policial, aquele herói que morre pelo povo, mas sim a instituição do Estado.

Spoilers mode on

Contudo, ainda há espaço para comédia e mensagens positivas. As melhores cenas saem do Sam Rockwell, que definitivamente roubou a cena no filme. Seu personagem passou de idiota insuportável no começo, para cativante amorzinho depois da redenção. Diferente da atriz, foi claro seu merecimento ao prêmio. Só não devia ser em coadjuvante, essa falsa sensação que a primeira metade do filme passa.

Temos quebras de expectativa muito bem-vindas. Logo no meio (o recurso usado nesse trecho virou tendência) quando você acha que vai ter a trama “agora vamos descobrir quem é o assassino”, há uma mudança na direção, assim como outra ocorre no fim. Um dos acertos do filme. Não temos respostas concretas, apenas a atitude de alguém sair da inercia, foi suficiente para a catarse da personagem principal. A raiva germina (mantra). Mas nada que impeça de se vingar de um filho da puta que cometeu o mesmo crime com a filha de outrem. Na mesma moeda? Olho por olho, dente por dente? Não. deixemos isso para os bárbaros, não evoluídos, que não conhecem o valor e limpeza espiritual do perdão. Sejemos superiores.

Spoilers mode off

Three Billboards Outside Ebbing Missiouri é um drama forte com ritmo acelerado, que tenta chocar demais, abarcando várias direções. Falta sutileza ao filme, assim como um pouco de ambiguidade não faria mal. Seus maiores acertos vêm na comédia e raros momentos de iluminação na vida dos personagens. Cumpre bem a função de entretenimento ao mesmo que deixa vidrado na trama, porém com a barra quase rompida pela forçação.

P.S.1: Tyrion sempre mulherengo.

P.S.2: Totalmente diferente o tom da carta endereçado ao Sam Rock. Coitado. Tratar com ignorantes é o mesmo que tratar com crianças, tem que ter paciência, sabe um dia eles acordam.

Cenas marcantes:

  • Para o mal: Último conversa da mãe e filha (para que aquilo minha gente?); relação familiar louca da Mildread, desnecessário e too much.
  • Para o bem: Dixon entra quebrando tudo para dar uma surra, impagável (é para isso que tamos aqui). Não devia ter gostado pelos motivos em si, mas fazer o que?; Quando Dixon pula em cima do loiro no bar e arranha sua cara, morri nessa hora; Outro take poderoso é o do incêndio.

É isso pessoal, e aí o que acharam? gostaram ou odiaram o filme? Seria Three Billboards o novo Crash do futuro, que envelheceu vergonhosamente? Ou só um esquecível mesmo.

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Autor

Roz

Engenheiro por formação, escritor wannabe por obrigação. Nem exatas, nem humanas, renascentista. Reinventando-se. Inconformista. Cinéfilo. Cosmopolitan. Shitalker. De Pepita a Bowie. De 80s cheese a Sopranos.

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