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Kidding – S01E10 – Some Day [SEASON FINALE]

“I don’t know who I am. Somehow, I know who everyone is, except me”

Kidding conseguiu se inserir num nicho que estava vago na minha grade de séries. Seria ela uma série de comédia, baseada nas cores claras e vivas, nos episódios de 30 minutos, na presença de Jim Carrey? Seria ela uma série de drama, aprofundando assuntos importantes como morte, identidade de gênero, drogas, etc? Fica difícil classificar Kidding em uma categoria, uma vez que a série consegue se desdobrar em diversas camadas pra entregar um trabalho que agrade diversos públicos. De fato, agradou. Mesmo aqueles que não conseguiram ler as mensagens que a série trazia nas entrelinhas, ficaram encantados com as propostas do roteiro, com as atuações marcantes de Jim e com a calma que a série emana. Neste último episódio ficou mesmo o gostinho de quero mais, a vontade de seguir fazendo parte do mundo de Mr. Pickles.

E vamos começar falando do discurso de Jeff, na cerimônia para acender a árvore de natal, transmitida pela TV pra todo o país. Não sei vocês, mas eu estava curioso pra saber o que vinha daí. E, aparentemente, todos estavam também. Resumidamente, Jeff apontou os desvios de responsabilidade que vemos na nossa sociedade atualmente. A gente polui o meio ambiente sem pensar nas gerações futuras; a gente joga responsabilidade em médicos e psicólogos por qualquer problema de saúde, nos escorando em remédios; a gente está inserido numa sociedade capitalista, e quando surge a oportunidade de sair, nos vemos a culpando por nos manter. Realmente, as nossas escolhas têm refletido cada dia que passa. Precisamos ter certeza de assumir as responsabilidades pelos nossos atos, assumir a responsabilidade de fazer a coisa certa, para não nos arrependermos amargamente no futuro. Como Jeff agora se arrepende. E ele não quer cometer o mesmo erro com o resto da sua família, e por isso deu uma chance à todas as crianças, tornando o boneco do Mr. Pickles um confidente, um escape, para conversar, para reclamar, para chorar, para sorrir. Quem não queria um? O discurso completo está abaixo:

“Seus pais não te merecem. Se merecessem, você não seria capaz de andar de Los Angeles à Pequim em uma ponte de plástico. O que há para beber quando a água tem muito chumbo, o suco de laranja tem muito açúcar? Colocam tanto hormônio no leite que as meninas estão menstruando aos 8 anos. Querem que eu coloque Espuminha em uma caixa de absorvente. Eles querem Ennui vendendo antidepressivos. Vocês são o produto do narcisismo. Seus pais olham para você e veem a própria morte. Eles esperam mais de vocês do que podem dar, ou pior, nada. Estatisticamente, eles se odeiam. Usam vocês para consertar os erros. Querem que vocês leiam os livros deles. Você é o caviar de uma truta. Seus pais sempre vão amá-los o suficiente para fingir esse amor. É por isso que compram brinquedos para que vocês aprendam a fingir também. Seus pais estão falhando com vocês. Os meus falharam, os seus falham… todos os dias. Eu sei disso, porque deixam vocês comigo. Não acreditam em mim? A próxima vez que me assistirem, chamem pela mamãe ou pelo papai. Eles vão responder? Não. Claro que não. Estão evitando vocês. Sua mãe está atrás de Clonazepam com um Dr. Pepper diet. E o papai está bebendo das garrafas que o tornam vazio. Eu gosto de vocês… amigos que me visitam pela televisão. Mas não sou o pai de vocês. Nem deveria ser. Eu matei meu filho. Não o ouvi, então ele não me ouviu também. Acontece que eu falava bem, mas era um péssimo ouvinte. Por que não ouvi? Porque também posso ser egoísta. Se o tivesse ouvido teria percebido minhas falhas, minha raiva… Para lidar com as falhas dele, eu teria que reconhecer as minhas. Se o tivesse ouvido talvez ele me ouviria. Talvez ele teria feito o dever de casa. Talvez ele teria colocado o cinto de segurança. Agora, o Natal está chegando novamente. E é nesse espírito que eu quero que você vá aonde seus pais escondem coisas. Às vezes é uma gaveta especial ou em guarda-roupas. Todas as crianças sabem onde é. Onde seus pais escondem seus presentes. Quero que vocês abram antes. Está tudo bem. Eu digo que está tudo bem. Ganhou um Sr. Pickles que fala? Vá em frente. Puxe a corda. “Estou escutando. Estou escutando…”

Claro, o discurso tem suas consequências. Podemos ver todos reagindo ao discurso: Sebastian, o pai de Jeff, usando um dublador com a mesma voz do filho pra poder se sentir próximo da pessoa que ele queria que o filho fosse; como Maddie se vê abandonada no meio de uma disputa de egos entre seus pais; Jill reagindo ao sentimento de culpa de Jeff quanto à morte de seu filho; dentre outros. Mas acredito que a principal reação e retaliação tenha vindo da emissora, que deixou de ver Jeff como um produto importante e passou a trata-lo como uma ameaça, colocando a vida de todos do estúdio na corda bamba, já que o programa estaria deixando de existir. Mostra um pouco também da relação descartável da mídia atual né. Basta um passo em falso, um posicionamento errado, para que um programa ou um membro importante da equipe seja descartado. Na maior parte das vezes por conta do posicionamento da população nas redes sociais atualmente, como o caso de William Waack, há poucos meses.

O episódio segue com uma parte que gostei muito, uma confissão de Deirdre. Ela mostra pra Jeff como todos os fantoches do programa, todos os personagens que ela criou, são inspirados em pessoas reais, em pessoas que ela conhece e se relaciona. Mostra como ela consegue inserir a personalidade dessas pessoas nos personagens, uma leitura precisa e profunda de Dee-Dee. Mas ao mesmo tempo, ela não consegue criar uma personagem que seja inspirada em si mesma. Ela não é capaz de olhar pra dentro de si, descobrir quem é, o que faz, qual sua missão. Essa angústia deve ser maior ainda pelo fato de ela ter do lado Jeff, que seria o grande astro, a pessoa que todos conhecem, que todos admiram, enquanto ela fica à sombra de tudo isso. Não é fácil mesmo. Mas… qual personagem seria inspirado em Jeff nessa história toda? Veríamos em breve.

 

Caminhando pro fim do episódio, vemos que o discurso de Jeff atingiu em cheio seu próprio público, levando milhares de crianças a fazerem uma fila no estúdio pra poder conversar com ele, ganhar conselhos. E nessa fila acabam entrando seu filho Will, seu pai Sebastian, todos querendo conversar, entender e conhecer mais o Jeff Pickles que precisava aparecer. Uma sequência belíssima que nos fez compreender o quanto o diálogo é importante. Tanto que após a conversa com seu pai, o episódio em que Jeff fala sobre a morte de seu filho vai ao ar, ele consegue se reaproximar de Jill, e as coisas parecem que finalmente terminarão bem…

Só que não. Peter, atual namorado de Jill, acaba descobrindo que Jeff é o dono da casa ao lado, e ao confrontá-lo, acaba o obrigando a admitir certas coisas que são difíceis pra qualquer pessoa. Jeff faz isso de maneira pura, como estamos acostumados, mas quando ele vê que Peter pode ser a causa dos problemas de Will com as drogas, ele acaba se desestabilizando e comete o improvável: atropela Peter. Nessa hora descobrimos qual personagem foi inspirado em Jeff, e acabamos por perceber que muito ainda está por vir.

Enfim, na minha opinião Kidding foi uma das melhores séries do ano, muito profunda, mas leve ao mesmo tempo, gostosa de assistir, com uma boa direção, atuações consistentes e um roteiro que nos surpreendia a cada episódio. Espero que a segunda temporada mantenha o nível, que consiga mostrar como as atitudes de Jeff refletem nas pessoas ao seu redor, especialmente o atropelamento de Peter, se é que é real.

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Gerson Elesbão

Um @gerson incomoda muita gente, um @gersonrealoficial incomoda incomoda incomoda muito mais! É DC, é Marvel, é Netflix, é reality. Se a série for boa, chama no probleminha, bebê!

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