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Little Fires Everywhere – Season 1 – Os dramas familiares em meio as diferenças sociais

Pequenos incêndios por toda parte

Lançada em 18 de março de 2020 pela Hulu, Little Fires Everywhere é uma minissérie de drama, baseada no romance de 2017 com o mesmo nome de Celeste Ng. A série segue os destinos entrelaçados da família perfeita dos Richardson e as enigmáticas mãe e filha Mia e Pearl Warren que têm reviravoltas em suas vidas após se mudarem para o bairro de classe média alta de Ohio, Shaker Heights. A história explora o peso dos segredos, a natureza da arte e da identidade, a atração feroz da maternidade – e o perigo de acreditar que seguir as regras pode evitar um desastre.

A série se inicia com a apresentação da família Richardson, composta por seis membros, a matriarca Elena Richardson, seu marido Bill, e seus quatro filhos, Lexie, Trip, Moody e Izzy. A exuberante casa dos Richardson misteriosamente é incendiada, marcando assim o início de uma trama que se desdobraria em muitos dramas interpessoais, relações de poder e sociais. Temos também um primeiro suspeito, Izzy, que não se encontra junto de sua família na manhã após o incêndio, tendo fugido sem aparentes motivos. Aparentemente todos sabem que Izzy é uma filha problemática, mas porque? A série irá explorar isso e muito mais!

Mia e Pearl ao se mudarem para Shaker Heights, são recepcionadas por Elena, ao encontrarem uma casa que pertence a ela para alugar. A estadia de Mia será temporária, isso porque ela é uma artista que está em constante movimento, e necessita de se mudar para conseguir realizar novos trabalhos. É aí que Mia e Elena começam uma relação intensa e que iremos explorar aqui destacando os temas mais importantes que a série abordou ao decorrer de seus oito episódios, e concluir dando um fim ao mistério que a série logo nos apresentou, quem foi que incendiou a casa dos Richardson?

A intensa relação de Mia e Elena e as diferenças sociais que a série aborda

A relação dessas duas personagens é extremamente abordada na série, bem como no livro. A maior proposta dentro dessa narrativa é, sem sombra de dúvidas, as diferenças sociais entre os “dois mundos”, que são apresentados como tão distantes, o que acaba por ocorrer um grande choque quando eles se encontram. No primeiro episódio temos cenas bem emblemáticas que exemplificam isso, como o choque de Elena ao descobrir que Mia e Pearl estavam morando em um carro, bem como Moody ao se surpreender com Pearl quando ela disse que nunca havia tido um quarto de quatro paredes. O inverso também acontece, quando Pearl visita a grandiosa casa dos Richardsons pela primeira vez. No livro, essa cena é descrita como um grande vislumbre de Pearl quando ela coloca os pés pela primeira vez na grande casa deles, isso levando em consideração que a casa da família R. nem era a maior casa do bairro. As diferenças sociais são rapidamente colocadas para o debate, e claro, somos quase que obrigados a olhar e torcer por um dos lados.

Desde o início percebemos uma tensão entre as duas matriarcas. Elas tentam ser gentis uma com a outra, mas a medida que elas se aproximam, uma desconfiança de Elena surge, que pode ser enxergada como um racismo velado em saber os precedentes de Mia, até tudo culminar no grande momento de disparidade social da trama, a disputa judicial pela guarda de May Ling (ou Mirabelle). Elena também não consegue entender como que Mia sobrevive com seu trabalho de artista, mas Mia não trabalha somente sendo artista, ela também procura trabalhos de meio período como forma de complementar a sua renda. Ela conseguiu arranjar um emprego em um restaurante chinês, e é lá que Mia conhece Bebe Chow. Bebe é uma jovem chinesa imigrante, que tinha uma filha chamada May Ling. Descobrimos que Bebe precisou abandonar mão da maternidade porque ela precisava decidir entre sua vida ou a vida de May Ling. Sua situação financeira era extremamente delicada, ela estava sem energia elétrica em um inverno rigoroso, estava sem dinheiro para comprar comida para sua filha, e ela se viu no extremo de precisar abandonar sua filha em um corpo de bombeiros para que tanto ela quanto sua filha sobrevivesse.

Voltaremos na narrativa de Bebe e May Ling mais tarde, mas voltando para Mia e Elena, como já ressaltado, as duas desde o início se estranharam de uma forma muito velada. Elena fazia comentários extremamente desnecessários, e por vezes racista e classista, quando se reunia para jantar com sua família e a pauta da noite era Mia. Como ela não entendia muito bem como ela sobrevivia, Elena decidiu fazer um ato “altruísta” em chamar Mia para trabalhar em sua casa como empregada. Claro que Elena não disse com essas palavras, e decidiu chamar esse trabalho de “governanta”. Com a aproximação de Pearl com os Richardson, principalmente com Moody, ela estava diariamente na casa deles. Pearl também se aproximou bastante de Lexi, e começou a ter um interesse em Trip, e toda essa relação, que inclusive se mostrava extremamente amorosa com Elena, estava começando a incomodar Mia, que percebeu uma mudança no comportamento de sua filha. Ela temia que Pearl, por estar tão envolvida nessa nova sociedade, começasse a ter interesses e desejos pertinentes a essa classe, e Mia jamais poderia dar tudo aquilo para sua filha, pois infelizmente seu trabalho não era tão recompensador quanto se imagina.

Após perceber que trabalhando na casa dos Richardson ela poderia estar mais perto de sua filha, que ultimamente estava tão distante, Mia aceita o trabalho que Elena ofereceu, mas claro, ela colocou suas exigências por conta da sua profissão principal, e Elena cedeu, aceitando os termos de Mia. A partir disso, a relação se estreita e as faíscas começam a surgir com mais intensidade.

Como já dito, Elena começa a investigar a vida de Mia, isso porque segundo ela, investigar o precedente de seus inquilinos é importante para manter a vizinhança em harmonia. Ela começa a desconfiar de algumas coisas quando percebe que Mia mentiu em dizer sobre seu marido, ou sobre seu antigo inquilino, e até mesmo sobre já ter sido presa. Vale ressaltar que toda essa “curiosidade” de Elena vem de uma veia jornalística. Claro que o que ela fez é antiético, mas a série explica como sendo um ofício da profissão ela agir assim. Mia por sua vez descobre algo que cria uma grande reviravolta na trama, Linda McCullough é amiga de Elena, e possui grandes problemas para engravidar, sendo seu sonho ter filhos. Por uma grande coincidência do destino, Linda acabou adotando May Ling, a chamando de Mirabelle, Mia acaba descobrindo que Mirabelle é May Ling, e acaba contando para Bebe sobre isso. Bebe após ter abandonado sua filha, se arrependeu profundamente, e sofre até hoje por essa decisão, apesar de por um ponto ter sido a decisão correta a se fazer. Em um dos episódios, Linda e Elena dão uma festinha para Mirabelle, e Mia acaba revelando para Bebe, que tramou para que ela invadisse a festa. É após Bebe invadir a festa e causar um grande tumulto que a principal questão social começa, a luta na justiça pela guarda de May Ling/Mirabelle.

Criou-se dois lados da história, o lado da Bebe, apoiado por Mia, e o lado de Linda, apoiado por Elena. A causa já parecia ganha, porque Bebe não tinha nem o dinheiro para contratar um advogado. Entretanto, a reviravolta na história mostra o tão misterioso passado de Mia. Ela era uma jovem estudante de uma escola de artes em Nova York. Lá, ela acabou se apaixonando por sua professora, Paula, e as duas rapidamente desenvolvem sua relação. Nesse meio tempo, Mia corre risco de perder sua bolsa da escola, e para se manter, ela aceita uma proposta que surgiu para ela de uma família muito rica da cidade, a proposta de ser barriga de aluguel. Ela foi “selecionada” porque tinha os traços bem parecidos com o do casal, sendo assim, eles fizeram uma grande oferta para Mia, que nesse momento, acabou aceitando. Descobrimos que Mia e Paula adoravam se fotografar, e que Paula era uma artista extremamente prestigiada em Nova York. Uma foto bem descontraída que Paula tirou de Mia, acabou virando um quadro muito forte e representativo, e Paula deixou esse quadro de presente para Mia após falecer de um câncer. Voltando para o momento atual, Mia percebeu que a única forma de ajudar Bebe, seria leiloando a sua arte de maior valor, que era o quadro que Paula deixou para ela. O quadro valia cerca de 100 mil dólares, e foi anunciado no New York Times, tamanho prestígio da obra. Isso causou um choque em diversos personagens, como Elena, que obviamente se sentiu “traída”, enganada e revoltada por cair em uma suposta mentira de Mia, e principalmente Pearl, que se viu traída e enganada a vida inteira por sua própria mãe, que sempre havia dito que elas eram pobres e deveriam viver com o mínimo possível, mas escondia uma fortuna de cem mil dólares. Mia fez tudo isso, porque aquele bebê que ela carregava, é, na verdade, Pearl, o que significa que ela fugiu com a barriga de aluguel, e teve o filho escondido. Por isso que Pearl não sabia nada sobre seu pai, e Mia sempre enrolava sua filha sobre essa questão.

Os desdobramentos aqui foram ficando cada vez mais intensos, com Pearl não confiando mais em sua mãe, e confiando mais em Elena. Vale ressaltar que em meio disso tudo, Mia e Izzy, filha da Richardson, acabou criando uma forte relação com Mia, o que mostra toda essa dualidade presente na série, que se Mia tem uma coisa, Elena tem outra, ao inverso, e isso se sucede em todos os sentidos.

Mia consegue pagar um advogado para Bebe com o dinheiro do quadro, e assim o caso da guarda vai para julgamento. A disparidade é muito presente nesse caso, mas não se engane se acha que somente aqui que ela está presente, como eu já disse, essa temática é o centro da série, e apesar de ser apresentada da forma mais explícita possível aqui, ela sempre foi mostrada de forma sutil nas relações de poder dos personagens, principalmente Mia e Elena. Agora temos Bebe, uma mulher asiática e imigrante ilegal, contra uma mulher branca e rica disputando pela guarda de uma criança. As condições não são nada favoráveis para Bebe, e ela sabe disso, bem como Linda e seus advogados e parceiros que estão ao lado dela sabem que Linda dificilmente perderá o caso, e é isso que acontece. Linda ganha a guarda de Mirabelle, deixando Bebe completamente arrasada. Era claro que a classe dominante prevalece sobre a classe desafortunada, essa é uma narrativa real, presente em todo tipo de caso, e não poderia ser diferente aqui, a menos que Little Fires Everywhere fosse um conto de fadas.

É claro que há muito outros desdobramentos na série que eu poderia dizer aqui que são pequenos gatilhos para o acontecimento final, como Lexi e o plágio da redação de Pearl, bem como sua aproximação interesseira com ela e um racismo velado que é constantemente cegado pelos seus privilégios, Moody e sua obsessão por Pearl, e uma briga estúpida com Trip por isso. Lexi engravidando e novamente usando Pearl e seus privilégios brancos para se safar, mas o foco dessa análise é a relação entre as matriarcas, que é o ponto alto da série, e é o que movimenta ela. Mas não posso deixar de ressaltar também a importância de Izzy nisso tudo… Vocês se lembram que no início eu disse das suspeitas sobre Izzy ter incendiado a casa dos Richardsons? Izzy era sempre vista como uma criança revoltada, mas eu chamaria ela de progressista. Claro que ela ainda está em processo de desconstrução, e pela idade dela é compreensível sua impulsividade em lidar com esses assuntos. Mas Izzy é o elo que tenta abrir os olhos de seus familiares para todos os privilégios que eles (incluindo ela) possuem, e para as falas extremamente racistas e classistas dos mesmos. Ela é uma artista, e por isso se identificou facilmente com Mia, e iniciou uma verdadeira relação de admiração por ela, pois tudo que ela queria era que Elena visse Mia como ela visse e a tratasse dessa forma. Mas Elena acaba virando inimiga de Mia, e Izzy se viu de frente em ter que escolher sua família ou seus ideais, e ela optou por seguir Mia (ou seja, seus ideais).

Temos então o ápice, aquilo que moldou a temática da série, que é o incêndio da casa dos Richardson. Inicialmente Izzy iria mesmo colocar fogo em seu quarto, isso porque se viu sendo expulsa de sua própria família por apoiar Mia, mas também por descobrir que Mia está saindo da cidade após ter passado por todas essas injustiças que quase destruíram sua relação com Pearl. Ela é impedida por seus irmãos e por sua mãe, e após palavras horríveis vindas de Elena, Izzy acaba fugindo de casa. Seus irmão percebem então quem sua mãe realmente é, percebem o grande absurdo que está sendo toda aquela situação que acometeu a vida de todos eles, e que quase arruinou a vida de Mia. Lexi mostra então que ela não é a garota perfeita, Trip mostra que ele não é o futuro atleta promissor, e Moody mostra que ele não é somente o filho sensível, eles se unem em prol de defender a própria irmã, que nunca foi desejada POR SUA MÃE! Sendo assim, os três colocam fogo na casa, e Elena, após perceber que sua família estava desmoronando, fugindo totalmente da apresentação de família perfeita que conhecíamos, pensa até mesmo em virar ruína dentro da própria casa, que agora se encontrava em chamas.

Espero que tenha ficado claro aqui a proposta da série, e o porquê da necessidade da mesma. Little Fires Everywhere subverte várias temáticas, entre elas o racismo, a disputa de gênero e (des)igualdade social. Claro que há suas problemáticas, que podem ser observadas em diversos momentos da série, mas em sua proposta inicial, a obra funciona muito bem, destacada pelas atuações impecáveis de Kerry Washington e Reese Witherspoon, que reconfiguram a personagem negra e branca em seus privilégios e suas disputas pessoais como matriarcas de famílias conhecidas nas telinhas. Fica a indicação dessa grande obra para vocês, que está disponível na Amazon Prime Video. Corram para assistir, vocês irão se surpreender com tamanha grandiosidade dessa trama, que vai além do que eu pude descrever e observar por aqui. Obrigado a todos que leram, e nos vemos na próxima!

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Ricardo Souza

Tem gente que diz que sou um amorzinho, eu digo que sou um trouxa. Viciado em maratonar séries e ficar na bad depois de assistir tudo em um dia. Amo muito música indie, quando quiser me chamar pra ouvir Florence já sabe onde procurar. Mineiro do interior que não puxa o 'r' quando fala, mas adora um pão de queijo.

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