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Love, Victor – Season 1 – Mostra de uma maneira sensível a experiência da descoberta.

Em 2018 o mundo conheceu através do cinema a história do Simon, o filme “Com amor, Simon”, inspirado no livro de mesmo nome, foi o primeiro filme LGBTQIA+ a ser produzido por uma grande produtora e ter tido uma divulgação mundial como qualquer outro filme, não se especificando apenas no nicho que ele representa. A história é contada pelo próprio Simon e nela vemos um menino se apaixonando pela primeira vez e tendo que se preparar para lidar e enfrentar o mundo após se assumir gay. Toda a busca de Simon por Blue é contada em um filme de uma hora e quarenta minutos, deixando um pouco de lado sobre como é quando você começa a se entender como alguém da comunidade LGBTQIA+ e foi para isso que a série “Com amor, Victor” foi criada.

A história começa exatamente um ano após o beijo entre Simon e Bram na roda gigante e acompanha a chegada de Victor na cidade de Creekwood, ao longo da premiere vemos um adolescente bastante confuso sobre sua sexualidade e isso faz com que ele entre em contato com Simon. Toda a relação construída pelos dois, mesmo que seja apenas através de dm’s no instagram, foi muito coesa e conseguiu de uma maneira sutil juntar as história sem parecer forçado.

A série contém dez episódios, cada um em base de 25 minutos e pode até parecer pouco, mas os escritores nesse curto tempo conseguiram dar destaque para todos os personagens e apesar de haver um protagonista, todos que envolvem a sua vida tem suas questões e tiveram um desenvolvimento.

Algo que foi prometido e foi cumprido, foi a relação do Victor com sua família. Eles são descendentes de colombianos e são religiosos. Diferente do filme, Victor possui pais não tão liberais quanto do Simon e vemos o protagonista ter esse medo de mostrar quem realmente é, realidade que de uma grande parte da comunidade LGBTQIA+.

Para minha surpresa, Armando e Isabel Salamaz tem bastante destaque na série (algo incomum em séries teens), mas não por serem pais de alguém gay e terem que lidar com isso, mas sim por ter havido uma traição no passado gerando a mudança de cidade da família. Todas as cenas, desde românticas à embates foram muito bem dirigidas e atuadas, ambos os lados tinham suas razões e seus erros e a decisão final de uma separação temporária foi acertada, pois era nítido o quanto aquilo estava fazendo mal aos seus filhos e a eles próprios. E palmas para série que conseguiu não utilizar os personagens apenas como o motivo do Victor não se assumir, sem um arco próprio.

Mas se teve alguém dessa família que não foi tão bem aproveitado foi Isabela, não tem outra maneira de falar, a personagem é chata. Todo mundo que já foi adolescente sabe que nessa época tudo é mais dramático e nós nos achamos o centro do mundo e é exatamente isso que a personagem é, seus pais estão passando por problemas, seu irmão está se descobrindo, mas tudo que ela pensa é o quanto ela é injustiçada por ter que se afastar dos seus “verdadeiros” amigos. Após sua conversa com Mia, eu achei que ela iria enfim criar sua própria história, mas foi saber que seu irmão havia traído a namorada, que ela voltou a chatice de sempre e ainda conseguiu fazer isso ser sobre ela, a personagem é tão egoísta que não conseguiu ligar que o B era o Benji.

Só a temática da série já é representativa, um protagonista gay e latino como protagonista é algo histórico, mas a série não para só por ai, a menina mais popular do colégio e também par romântico inicial do Victor é uma mulher preta. Mia foi uma personagem que me deixou bastante dividido, ao mesmo tempo que ela se mostrava uma menina doce e muito compreensiva na escola e no seu relacionamento, ela tinha traumas envolvendo o abandono de sua mãe. A relação com sua madrasta, interpretada pela maravilhosa Sophia Bush, evidência que apesar de tentar, Mia não é perfeita.

Do mesmo modo que o fato da família do Victor serem latinos é só uma característica, é o mesmo para a Mia ser preta. A série não aborda o racismo nessa temporada e não é que não deva ser abordado, mas eu acho louvável não prenderem a personagem apenas nisso, algo que ativistas pretos já apontaram, eles tem problemas comuns como qualquer outra pessoa e querem se sentir representados nisso também.

Eu li algumas críticas e vi muita gente reclamando o fato do casal Victor e Mia terem tanto destaque em uma série com o foco de representatividade queer, mas eu não poderia discordar mais. Ser gay não vem com instruções, há diversas vertentes e nem sempre todo mundo sabe o que realmente quer, tem gente que já nasce sabendo do que gosta e tem gente que descobre com o tempo, desde o início a série sempre deixou claro, Victor está tentando descobrir sua sexualidade e para isso é necessário experimentar. A primeira temporada inteira foi sobre essa dúvida e medo do Victor e foi graças a Mia que ele pode confirmar que sim, ele era gay.

Os episódios 5 e 8 soaram para mim como um complementar do outro e esses são de longe os melhores episódios da série. No 5 nós vemos pela primeira vez a homofobia sendo de fato abordada na série e quando alguém sofre homofobia, mesmo em série, eu sinto que toda a comunidade sofre junto. Se assumir nunca é fácil e ter que voltar para armário após isso é pior ainda, é impossível contar quantas vezes alguém queer teve que fingir ser hétero para não incomodar ou ser incomodado por um homofóbico. O embate de gerações trouxe diversos debates e pode também dar voz a ambos os lados, os avós do Victor, assim como nossos avós e até nós mesmo somos ensinados desde sempre que ser LGBTQIA+ é errado e se desvencilhar de pensamentos tão enraizados é muito difícil, mas não impossível. Victor enfrentar seus parentes mostra o lado da nossa geração e é isso que é preciso se fazer, não se esconder, mas sim mostrar com orgulho quem nós somos e se alguém se incomoda com isso, o problema não é nosso.

O episódio 8 foi uma resposta aos dilemas do Victor no 5, eventualmente irá ficar tudo bem e há um mundo inteiro a ser visto e uma comunidade inteira que irá te abraçar a partir do momento que você se entender como um LGBTQIA+, você ganha uma família que está doida para te acolher e amar. Todas as cenas em Nova York foram lindas e mostraram a diversidade que há no mundo LGBTQIA+, há diversas orientações e gêneros que você não precisa tentar descobrir em qual se encaixa agora. Além de ser o episódio em que Victor finalmente se entende como gay, nós também pudemos ver e saber que Bram e Simon ainda estão juntos e as interações de ambos com Victor foram importantes e informativas, podendo cada um ensinar um pouquinho da sua experiência e ajudando o Victor a saber que está tudo bem em ser quem ele é.

Muito provavelmente o fan favorite da série será o Felix, o melhor amigo excêntrico do Victor esteve sempre ali por ele e o personagem lembra demais o Stiles de Teen Wolf. Ele é o alívio cômico e é quem apresenta tanto para o Victor quanto para a gente quem são os outros personagens. A amizade entre ambos apesar de ter sido um pouco rápida, conseguiu convencer e sem dúvidas alguma a cena mais linda da série é quando o Vitor se assume para o seu amigo, só quem já teve que se assumir para os amigos antes sabe o quanto é angustiante saber que pode perdê-los para o preconceito, mas a reação do Felix não poderia se melhor e o abraço que ele dá no seu amigo conseguiu mostrar tudo que ele não conseguia falar.

A série foi tão bem escrita que até o “melhor amigo engraçado” e seu par romântico tiveram destaque e também seus próprios problemas. Apesar de ser bastante clichê o relacionamento entre Felix e Summer deu muito certo e acredito que com eles finalmente se assumindo ao mundo, suas relações com seus pais poderão ser mais trabalhadas na próxima temporada, especialmente a depressão da mãe do Felix.

O primeiro teaser que saiu da série foi a cena da entrevista do Victor com o Benji, o que me fez acreditar que contaria uma história de amor entre dois caras, mas quando saiu o trailer, deu a entender que na verdade o Victor possivelmente era bi ou pan e viveria um triângulo amoroso entre Mia e Benji. Na verdade não foi nenhuma das duas alternativas e isso me incomodou um pouco, eu continuo discordando dos críticos sobre o foco no relacionamento com Mia, mas senti o Benji um pouco deixado de lado, eu entendo que o Victor se entendendo tenha sido o foco principal, mas não precisava reduzir o Benji em apenas o cara que faz o Victor duvidar da sua sexualidade.

O relacionamento de Victor e Benji apesar de não ter grande foco, teve suas cenas e todas esbanjaram uma química incrível. Inicialmente eu torci pela Mia, mas quando Benji cantou “Call Me Maybe’, meu coração ganhou um dono. A viagem de carro e decisão de mentir para ficar mais tempo com o Benji mostrou para o Victor e para público que ele já havia se decidido e apesar dos dois beijos entre ambos ter sido um erro, pois o Victor ainda namorava, foi impossível não vibrar quando ambos se declararam um para o outro e deram o primeiro beijo oficial ao som de “Lost Without You.”

 

A série termina de uma maneira inesperada, eu fiquei um pouco decepcionado ao achar que o Victor iria dar para trás, mas não, ele conta quem ele realmente é para família e não vemos a reação deles, deixando esse enorme gancho para próxima temporada que já estava confirmada 4 MESES ANTES da série lançar e a nota no Rotten Tomates está acima de 90%, ou seja, já chegou aclamada.

Eu conheci a história desse universo através do livro, vibrei quando virou filme e vibrei ainda mais quando soube da série, eu acompanhei desde o início, vendo cada escolha para o elenco e fazendo um inferno na vida dos meus amigos de tanto que divulguei essa série e é com enorme prazer que posso dizer que ela atendeu a todas as minhas expectativas ( eram enormes ) e foi um prazer ainda maior para mim poder escrever minha opinião sobre essa série tão importante e nós nos vemos na segunda temporada.

Com amor, Ives.

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Ives Gonçalves

Um carioca estudante de direito querendo se formar, viciado em x factor´s do mundo e que ama uma praia

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