Posts Populares

Love, Victor – Season 2 – Apresenta tramas muito mais ousadas e sua história apenas melhora.

Ano passado nós fomos presenteados com a primeira temporada mais fofa no mundo das séries, nela acompanhamos a jornada de descobrimento de Victor e ponderávamos junto ao personagem as mudanças que ocorreriam em sua vida junto com sua aceitação. Antes de comentar a temporada, gostaria de comentar o quão bem foi para série ser transmitida pelo serviço de streaming Hulu, para quem não sabe, a primeira temporada foi programada para ser transmitida pelo Disney+, mas mudou por não se encaixar nos padrões da plataforma original, mesmo assim, a primeira temporada foi pensada como uma série da Disney. Por isso, apesar de possuir tramas mais sérias, no final das contas era apenas uma série de comédia romântica que não se arriscava muito, isso muda completamente nessa temporada que nem parece mais a mesma série, tanto a série quanto os personagens amadureceram, o humor passou a ser sarcástico e temas mais sérios foram apresentados.

Um dos maiores trunfos de Love, Victor é possuir um roteiro tão bom que mesmo com poucos episódios por temporada, todos os seus personagens em algum momento tem destaque. É comum ver em outras séries personagens secundários mal aparecendo, quase sendo figurantes, mas aqui não, até mesmo a personagem que supostamente seria apenas a ex namorada que ajudou o protagonista a se descobrir ganhou ainda mais destaque e uma história para chamar de sua. Mia sempre foi a personagem mais complexa da série, era a menina popular não fútil que viu pessoas importantíssimas a abandonando e mesmo as que ficam nunca a priorizam, ela tinha todo o direito de se rebelar contra tudo e todos agora que mais uma pessoa que ela confiou a traiu, mas Mia sempre seguiu o caminho contrário, com o sumiço da sua mãe e ausência do seu pai, ela teve que amadurecer mais cedo, mesmo tendo 16 anos, ela é capaz de tomar atitudes racionais e altruístas em grande parte do tempo.

Talvez seja por ter passado por uma situação muito parecida ou por apenas admirar tamanha força, maturidade e amor, fez com a Mia se tornasse minha personagem favorita. Ser traído nunca é fácil, causa inseguranças para o resto da vida, mas ser traído por alguém que se descobre queer enquanto está com você é pior ainda, não por se tratar de ter ocorrido com alguém do mesmo sexo, mas porque fica impossível para qualquer um que possui pensamentos liberais ficar com raiva de alguém que está finalmente aceitando quem é.

A verdade é que eu esperava que a Mia teria uma história muito mais pesada nessa história, os roteiristas comentaram antes da série começar que tocarem em assuntos importantíssimos e um deles era aborto. Vendo o caminho que a personagem traçou nos primeiros episódios eu já imaginava que ela seria a personagem que teria que tomar essa decisão tão difícil. Acompanhando os três primeiros episódios era possível sentir que a personagem alcançaria o fim do poço nessa temporada, talvez o cara da faculdade fosse abusivo e induzisse ela no mundo das drogas, mas não quiseram dar tanto destaque para a personagem, a atriz já consegue roubar a cena em “This Is Us”, mesmo sendo coadjuvante. A partir do episódio 4 sua história muda e passa a ter como pilares o seu relacionamento com o Andrew e sua relação com seu pai e é até engraçado perceber como acabou se tornando relações completamente opostas, seu namoro se fortaleceu episódio pós episódio, enquanto seu pai descobriu tarde demais que sua decisão possivelmente destruiu seu relacionamento com sua filha. Mia teve uma histórias muito interessante nessa temporada e sua relação salvou o Andrew, poderia ter sido muito mais explorada, mas foi satisfatório.

Outra história bastante pesada nessa temporada, mas que foi trabalhada de maneira correta foi a da mãe do Felix, já havíamos sido avisado de que sua mãe possuía um transtorno e agora pudemos conhecer de fato a personagem e entender sua dinâmica com seu filho. Falar sobre saúde mental é como andar em uma corda bamba, pois muitas pessoas possuem e caso faça ou apresente alguma informação errada, irão cair matando, mas os escritores conseguiram apresentar algo verídico e sensível. Grande fato dessa história ter tido o impacto que teve foi a atuação brilhante da Betsy Brandt, mesmo com poucas cenas a atriz deu um show e conseguiu passar toda a “loucura” de sua personagem.

Já que falamos da mãe, nos resta agora falar do filho e o fan favorite dos telespectadores. Não é segredo para ninguém que o Felix, assim como para maioria, é um dos meus personagens favoritos e sou muito fã do seu casal junto a Lake, os dois me lembram demais a dinâmica que o Stiles e Lydia tinham em Teen Wolf, receita que sempre ganha meu coração. A temporada passada terminou com eles finalmente se assumindo como um casal, o que dava como certo nessa temporada eles serem trabalhados como casal e de fato foi, vimos eles entendendo uma dinâmica que funcionasse para os dois, cedendo quando necessário e entregando muita fofura nas sequência em que ambos perdiam a virgindade juntos, mas chegou um momento em que tudo começou a dar errado…

Antes de começar a reclamar, eu gostaria de lembrar a todos que apesar de não parecer, uma parte do elenco interpretam adolescentes e se tem algo que adolescente é, é ser incoerente e egoísta. A série conseguiu criar um embate de ideias muito boa entre Felix e a Lake, pois não havia ninguém errado naquela situação, Felix estava certo em se sentir traído pela namorada ter contado seu segredo, mas a Lake também estava certa em pedir ajuda vendo a situação que seu namorado passava, não tem como um jovem lidar com tamanha responsabilidade igual ao Felix estava tendo que lidar, foi um ótimo empecilho no relacionamento, o que estragou foi a consequência que teve.

É normal séries teens brincarem com casais, pois os fandoms deles são os mais ativos, logo achei plausível o término do casal Felix e Lake, já que ambos tinham bons argumentos, mas para mim tava certo que era algo apenas temporário e que voltariam no final da temporada, mas a série resolveu mudar completamente e apresentou sua maior incoerência até então. Pilar foi a personagem que menos gostei na primeira temporada, mas essa segunda através das suas interações com o Rahim e Felix deram uma nova vida a personagem, até o fato de ela ter um crush no Felix foi legal, o que não fez sentido ALGUM foi no final ela ser a escolhida por ele. Mesmo sendo um grande fã da Lake, caso esse casal tivesse sido trabalhado de maneira coerente, eu teria aceitado, mas do nada o Felix descobrir um amor inexplicável pela Pilar e joga todo o desenvolvimento com a Lake no lixo, não fez sentindo algum. A Lake exibindo todas as suas inseguranças para ele 6 episódios atrás para depois ser abandonada por ele em uma pista de dança daquele jeito, transformou o Felix em um babaca, ele e a Pilar tiveram no máximo duas cenas românticas a temporada inteira e ela foi rejeitada em todas.

O que mais me deixa triste foi a falta de sutileza de um roteiro que eu sempre elogiei, foram 9 episódios trabalhando um casal, para no final destruí-lo da maneira mais absurda e sem coerência possível, apenas para ter uma dinâmica de um novo casal na próxima temporada e finalmente apresentar um casal entre mulheres na série. Não me entendam errado, quanto mais diversidade melhor e já shippo Lake e Lucy, mas ficou muito na cara que só fizeram o Felix escolher a Pilar, para poderem desenvolver a bissexualidade de alguma personagem, Mia já tinha sua própria história, Pilar não podia, pois soaria estranho repetir a fórmula em uma mesma família, só sobrou a Lake…

Uma das únicas coisas que reclamei da primeira temporada foi a falta de história própria do Benji, ele era o crush do Victor e pronto e infelizmente nessa temporada continuo vendo o mesmo problema. Os dois já começam a temporada já namorando e durante os seis primeiros episódios vemos , assim com Felix e Lake, eles se adaptando como um casal e é um show de química e fofura, todas as cenas entre os dois me deixavam de coração quente, a primeira vez, o sinal que o Benji faz quando quer dar a mão ao Victor, o modo extremamente compreensivo do Benji, mas faltou uma história para ele, o mundo dele é o seu relacionamento com o Victor e até mesmo quando é revelado um segredo seu, tem impacto sobre o que o Victor acha daquilo do que propriamente como o Benji se sente. Poderia ter sido explorado mais a relação dele com a família, qual a perspectiva de vista dele nesse relacionamento, afinal de contas ele está namorando alguém que está vivenciando tudo pela primeira vez, faltou cuidado com o personagem.

Mas um personagem novo chegou e já chegou causando! Assim que o Rahim ganhou falas e fez seu monólogo, eu já estava apaixonado, é de extrema importância mostrar as diferenças que há dentro do próprio mundo gay e o Rahim representa os gays afeminados. Algo muito ruim em séries e filmes é sempre retratar gays mais afeminados como caricatura, é aquele sempre animado, que estala dedo, ama broadway e por ai, o Rahim pode até gostar dessas mesmas coisas, mas isso não define ele, ele possui nuances, uma história, é um personagem muito rico e que agregou bastante para série.

O modo como a história do Victor e do Rahim se entrelaçaram foi muito natural e ambos esbanjam química, aquela cena no karaokê… mas, para mim eles funcionam apenas como amigos, é preciso naturalizar amizades entre gays e a série faz isso muito bem até o episódio final. Eu entendo que é necessário fazer com que o público anseie pela terceira temporada, logo concordo de deixarem um mistério sobre quem é a escolha do Victor, mas novamente acho a escolha em si sem noção, ele e o Benji passaram por tanta coisa para em dois episódios ele se apaixonar por outro? Não faz sentido, mas pela escolha do Felix já mostra que os roteiristas não ligam muito para sentido, mas fica aqui que sou completamente #TimeBenji.

Ma sem dúvidas alguma, o maior trunfo da série desde o início é a relação do Victor com seus pais, eu já havia dito na primeira temporada que foi muito benéfico para série trazer os pais juntos ao protagonismo com suas próprias questões e agora mais uma vez eles roubam a temporada. Ser pais nunca é fácil, tem ali aquele ser que você mais ama no mundo sendo exposto a tudo quanto é tipo de coisa e chega um momento que você não consegue mais proteger, ser pais de alguém LGBTQI+ é mil vezes pior. Eu tenho 23 anos e até mesmo eu, apesar de hoje ter uma cabeça liberal, cresci ouvindo crenças conservadores, então para geração antes da nossa é ainda mais difícil de aceitar que tudo que você é ouviu até então é errado e somando a isso há o fato do constante medo do seu filho apanhar na rua ou ser morto por simplesmente não ser um hétero cisgênero.

Os escritores dessa série sempre gostam de inverter reações que a gente já esperava e aqui ocorreu novamente, o pai machão consegue deixar de lado suas crenças em amor do seu filho, enquanto a mãe que sempre se mostrou amorosa e amiga se apresenta como alguém homofóbica. A quebra de expectativa em cima do Armando foi uma ótima história para o personagem, eu não desgostava dele, mas ver ele lutando contra o que acreditava, buscando informações e entendendo que aquilo nunca foi sobre ele me fez amar o personagem.

Já Isabel Salazar é o nome da temporada, a atriz Ana Ortiz mostrou o quão fantástica atriz é e conseguiu criar uma evolução dolorosa, mas necessária de se acompanhar. Isabel ama seus filhos mais do que tudo, isso sempre ficou claro, mas ela foi o maior impasse na vida do Victor pós saída do armário, personagens assim são muito fáceis de serem odiados, mas eu achei toda a evolução dela tão sensível e verídica que eu achei tudo fantástico. Mesmo não aceitando, Isabel continuou com seu filho do lado, se preocupando e lutando para superar aquilo, é preciso entender que ela foi criada com aqueles ensinamentos e dentro de uma religião que se diz que gay é doença, se livrar de tudo isso não é fácil e a série ainda dá outra camada quando a personagem relembra que ela nunca desconfiou, ela achava que conhecia o filho, será então que ela é a boa mãe que achou que era?

Foi muito bonito ver a evolução da Isabel nos episódios finais e ainda mais vindo através da igreja, pois ao ver alguém importante para ela tratando o filho dela do jeito que ela tratava sem perceber, seu lado mãe protetora falou mais alto e ela finalmente viu o mal que estava fazendo ao seu filho. Eu genuinamente acho que qualquer pessoa conservadora que assistir a trajetória da Isabel nessa temporada irá conseguir evoluir, mesmo que um pouquinho, junto com a personagem, porque foi tudo muito real, ela ainda tem as questões que precisa lutar dia a após dia, mas ela sabe que seu filho não vai para o inferno por ser gay, ela sabe que aquilo não é errado, agora só precisa por em prática.

Love, Victor encerrou seu segundo ano de maneira bastante positiva, algumas decisões soaram um tanto forçadas, mas a série amadureceu tanto que nem parece mais a mesma. A possibilidade de história a serem contadas é enorme, só espero que todas tenham sentido, nós vemos novamente na terceira temporada.

Com amor,

Ives.

gostou da matéria? deixe um comentário!

Autor

Ives

Um carioca estudante de engenharia querendo se formar, viciado em realitys shows ao redor do mundo e que ama uma praia

Tema por Gabriela Gomes Todos os direitos reservados ao Panela de Séries