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Maniac – S01E02 – Windmills

“I’m not crazy. My reality is just different than yours”.

Sempre que assisto a uma série, eu procuro entender os paralelos entre os títulos dos episódios e toda a sua narrativa em si. É interessante tentar entrar na mente do autor por 40-45min, calçar seus sapatos, recriar seus caminhos para a decisão do título. Significa também que é preciso prestar total atenção aos detalhes seculares, imagens de fundo, voice offs, subtítulos, frases sorteadas, trilhas de background, conversas casuais.

E acho que em “Maniac” essa “caça ao tesouro” é especialmente prazerosa. Ainda que o episódio piloto tenha sido vago e nada seja dado mastigado, já dá pra perceber o grande fascínio da obra com a mente humana. O jogo de palavras e as alternâncias entre real e fantasia estão sempre presentes também.

A própria ambientação da série mistura realidade com fantasia, mesmo no mundo “real”. Por diversos detalhes – e toda a quantidade de fumaça de cigarro – podemos dizer que Annie e Owen vivem em Nova York, nos anos 80. Mas não é o típico anos 80 que nossos pais vivenciaram. Temos máquina de escrever, computadores gigantes, color block, folhas destacáveis, televisão de tubo, telefones de teclas grandes; mas também temos robôs que limpam as ruas, hackers legalizados, aplicativos de amigos fictícios, e o que mais me chamou atenção: “Anúncios Já”.

Os anos 80 ficaram marcados pela crescente exponencial da publicidade e propaganda. Mais do que nunca as empresas passaram a explorar o marketing, e o anúncio era de fato a alma no negócio, explosão de outdoors, comerciais de TV e rádio, anúncios em jornais e revistas. Hoje em dia vivemos algo parecido, mas em outras mídias. Comerciais no YouTube, anúncios no Spotify, propagandas em aplicativos… E foi aí que encontrei a sacada genial.

O “Anúncios Já” funciona como uma forma de obtenção de moedas/pagamento. É basicamente quando você está jogando “Perguntados” (e afins) e ele te pergunta se você gostaria de assistir à um anúncio para ganhar aditivos. E foi ao perceber isso que a série começou a ficar um pouco mais clara para mim (e me situei melhor na minha jornada para ligar o título ao episódio).

Fantasia, o real dentro do imaginado. “Maniac” vai estar sempre misturando as coisas, assim como as letras embaralhadas que a Annie viu na rodoviária, ao ficar sem seu medicamento. E essa mistura é tão homogênea, que muitas vezes a gente não vai nem questionar o que está acontecendo. Como quando ela pede mais droga ao amigo, e nós (assim como a personagem) apenas aceitamos a presença de uma preguiça mecânica roxa jogando xadrez no parque.

Outas vezes, vamos nos perguntar “por que?” e aceitar ter nossas perguntas respondidas com o tempo, como quando Annie visita seu pai e ele parece estar vivendo numa espécia de “tanque robótico”. Ou então, vamos apesar seguir o bonde, como lidamos com o excêntrico doutor da companhia de testes farmacêuticos e a maioria dos testes que são executados ali.

E no meio de todos esses mecanismos, nós vamos entendendo melhor a densidade dos personagens. Annie é alguém com profundos traumas familiares, e pouco a pouco fomos desvendando partes de sua vida. Já sabemos que ela tem um pai complexo, uma mãe distante e uma irmã, cuja relação parece ser irreparável.

Não temos muito sobre a relação e/ou conexão de Annie com Owen ainda, mas sabemos, pelo episódio inicial, que eles tem algo que os une, mesmo que indiretamente. Algo para além do encontro nos os testes da nova droga. Ambos tem vidas conturbadas e relações familiares estremecidas, assuntos mal resolvidos consigo mesmos e – mesmo que por caminhos bem distintos – buscam a mesma coisa: se reencontrar.

Eles amarrotam suas coisas numa mala e partem para o estudo, o início da jornada. E foi nessa preparação que eu entendi o episódio. “Pessoas saudáveis leem” – Annie diz. E daí, ironicamente, ela pega “Dom Quixote”. O livro conta a história de um fidalgo quebrado com uma mente insana, ele fantasia o mundo que vive, ele imagina, ele cria aventuras e as vive intensamente.

Uma dessas aventuras, talvez a mais marcante, envolve sabe o que? Moinhos de vento. Dom Quixote fantasia uma luta contra dragões, pelo amor de sua amada. Mas na verdade, ele enfrenta moinhos de vento. É o retrato da loucura.

Eu fiquei muito feliz em encontrar a conexão do título com tudo que foi mostrado pra gente nesse episódio. Fiquei feliz, porque acabou sendo até bem mais esclarecedor do que eu imaginaria. Às vezes a realidade é pesada demais e as pessoas buscam o ópio, só que ninguém pode viver sempre assim, em paliativos.

No fim do episódio, Annie revive seu maior trauma. No primeiro dos três estágios do teste, ela revivencia a agonia que a deixou tão quebrada. E mesmo sem saber muito bem o que esperar daqui em diante, acho que posso dizer que a nossa jornada vai continuar sendo bem “Alice No País Das Maravilhas”, e os detalhes vão fazer toda a diferença.

P.S.: Essa preguiça roxa me lembrou demais o Cheshire Cat de “Alice no País das Maravilhas”, tanto mesmo que tive que usar uma frase dele no textinho de entrada.

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Luana Medeiros

Sinceramente, não sei mais há quanto tempo estou nesse site? Mas olha, faz um bom tempo! HAHA. Atualmente cuido mais de reviews de realities musicais, mas também faço meus corres nos seriados, porque a vida é isso aí! Tenho 24 anos, sou formada em rádio/tv/internet, e nas horas vagas vocês me encontram por aqui! ;)

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