“A contínua busca por controle, a palavra F censurada e várias referências a Kubrick em mais ótimo episódio em Mr Robot. ”

Depois de um começo que pareceu cansativo, esse episódio de Mr Robot veio para renovar as esperanças nessa temporada. Todos os ingredientes que fizeram da primeira um sucesso estavam lá: críticas ao sistema, referências ao cinema, e muita esquizofrenia claro. A programação hacker tem estado em falta, mas até agora nada que incomode muito. Uma coisa que se pode dizer dessa temporada é que nada é tão certo como o que parece. Estamos sob o ponto de vista de Elliot, e a linha que separava realidade e loucura na primeira temporada agora virou uma fenda. Como bem disse Elliot, vai dizer que você está acreditando em toda conversa?

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A exemplo da cena em que ele é achado por caras do FBI e forçado a comer cimento por um funil. O que aquilo quer dizer? Bom, que aquilo era para ele tomar uma droga todo mundo entendeu, quero chamar atenção para o que tem por trás daquilo. Algumas teorias estão rolando desde a première, e se você é daqueles que não gosta de saber a “surpresa”, como R+L=J, então o restante desse paragrafo não é recomendado, mas como disse, são teorias, nada confirmado ou certo, apenas especulações pelo que foi visto. Há quem diga que Elliot está internado num manicômio, e todo aquela história de rotina é apenas o jeito que sua esquizofrenia está lidando com a situação. Os almoços diários com seu amigo (Jules?) como o visto acima seriam no instituto, sua mãe no caso seria a recepcionista de lá, notem que ela fica apenas vendo tv e não se dirige a muito ele e Ray seria um assistente social de lá que está precisando de ajuda e descobriu as habilidades de Elliot em sua ficha. Ray que sempre aparecia com Elliot para funcionar como um alter ego seu sempre o aconselhando e entendendo, nesse episódio foi a primeira vez que ele apareceu longe do Elliot, provando assim não ser outra personalidade sua (que já seriam 3(!) contando com o Mr Robot e os espectadores). Essa teoria também explicaria a cena do cimento e das pílulas como sendo sua medicação forçada.

A medicação rendeu bons momentos, como a incrível sequência dele em êxtase pelo poder dessas drogas, para depois só mostrar que não é esta a solução, que até piora, uma hora o efeito não surge mais e fica só o vazio. Nesse caso o Mr Robot que volta. A parte que ele entra pane foi um delite, com várias colagens, imagens aleatórias, cortes, efeito de vhs, pane no sistema e tudo que marcou o 1×04.

Talvez seja melhor ele fazer como Ray diz em seu discurso final, basicamente abraces seus demônios, saiba conviver com a presença deles. Controle é uma ilusão, como vive sendo repetido na série, mesmo assim os personagens insistem em buscar por ele. Três deles evidentes nesse episodio: Elliot, seja com drogas, seja com religião, Angela, que para ter controle em sua vida corporativa e de sucesso precisa abrir de mão de suas emoções, e Darlene, que de certo modo tenta controlar o medo de seus ajudantes para que assim não pareça fraca pelos seus inimigos. Por partes.

Angela até agora parece bem deslocada. Entendo seu papel em dar o insight do corporativismo e não abandonar a ótica capitalista, fora a possibilidade dela arruinar a empresa por dentro no futuro, mas até agora só consigo achar suas cenas aleatórias. A de hoje girou em torno de destruir a vida de dois homens que já destruíram a sua. O que seria uma decisão fácil vira um questionamento para ela, embalada pelo sábio conselho de Pryce: “Quando você tirar as emoções do julgamento, se dará simplesmente bem.” Quanto mais frio, mais inatingível. Se abster de emoções como forma de controle.

Assim como Darlene que tem o medo como o oposto de controle. Mas isso pode ser perigoso, aparentar ser forte e estar no controle não vencem uma guerra, e não são armas tão uteis para um inimigo tão forte. No poker ela valeria mais desse controle. Não posso deixar de concordar com Mobley, já é segunda morte envolvendo pessoas desse atentado, um desaparecido, outro louco e três restando. Junte isso a teoria da desgraça contada por Romeo no início do episódio e eu estaria me cagando de medo uma hora dessas. Como ele bem frisou o Dark Army não é bobo, pode estar querendo se livrar das pistas, assim como a Evil Corp pode estar por tras de tudo. Quem está por trás dessa caça saberemos depois. Mas de uma ficamos certos.

A oficial de DiPierro, que até agora parece ser bastante comprometida com o trabalho, sem paciência com incompetentes que não checam armadilhas no hard ou que vão com virose para o trabalho, além de estranha, ter insônia, ver vídeos aleatórias da net na madrugada, viciada em tecnologia, meio sozinha, um pouco depressiva das que param no meio do masturbação para para soltar um dos melhores quotes:

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E pior que ainda falta muito DiPierro. O fato é, não sabemos o quanto Gideon falou para ela no último episódio, e apesar de toda sua desolação ela é muito competente no que faz, e não demora a seu destino cruzar com o de Elliot, vide o final.

Sobre o final uma observação interessante é sobre todas as palavras f… que aparecem em tela, não tão escancarados. O fuck é usado desde a primeira temporada dando um ar transgressivo e rebelde, mas nesse episodio ele foi mais. Vários fuck foram cortados durante a tela, e só o que aparecia era o “f…”. A primeira palavra do episódio foi essa, com Romeo contando a sinistra história, e daí não pararam, várias deles subentendidos em tela de um modo não muito perceptivo ou cansativo, desde a conversa no celular da agente a uma das bandas que tocou no episodio, Holly F. Para quando chegar no final sermos fechados com uma cena em que aparecem dois f… em tela. “You gotta be f… kidding me.” Diz a oficial.

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Outro fator em destaque foram as referências aos filmes de Stanley Kubrick. O nome do restaurante, Fidelios, remete a uma senha em Eyes Wild Shut. Além de algumas do Iluminado, (a foto das meninhas lá em cima remete as gêmeas do filme, com uma extra no centro usando vermelho), Dr Strangelove e a cor favorita de Kubrick (e Almodovar também, claro):

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Para quem pensou que as referências a filmes clássicos tinham acabado (as de Clube da Luta talvez tenham se esgotado) taí uma boa amostra do que Mr Robot ainda pode fazer.  E não há como não amar toda essa cineografia por assim dizer.

Encerro essa review com uma frase de Elliot no grupo de oração, que diante de tanto que presenciamos na religião de hoje, com seus Malafaias e Felicianos, não poderia dizer melhor o que sinto e penso sobre o assunto. Afinal, religião também é uma forma de controle como outras, so basta decidir qual lhe apraz. Totalmente certeiro na crítica ao sistema, como já fazia ao capitalismo, aqui Elliot traz uma resolução interessante, se ele não pode falar com seu amigo imaginário porque esse serviria? Afinal, religião não deixa de ser uma forma de controle como as outras, basta só decidir qual lhe apraz. Penas que esse plano de escape não seja suficiente para ele, nem para mim.

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Robson Abrantes
Robson Abrantes

Estudante de engenharia na semana, escritor wannabe nas horas vagas e sonhador integralmente. Nem de exatas nem de humanas, renascentista. Morando em Campina Grande. Reinventando-se desde 92. Inconformista. Cinéfilo. Cosmopolitan. Shitalker. Teve seu 1º contato com o mundo das séries nas madrugadas do SBT, e ainda segue agarrado a esse vício.
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