Aquele em que conseguimos conquistar a confiança de Elliot novamente.

                Essa semana foi a hora de mostrar as cartas em Mr Robot. Jogos que vinham sendo armados desde a finale passada, quando ficou um vazio na memória de Elliot sobre os acontecidos na noite do atentado, vieram a mesa. Esta escolha de deixar buracos no tempo narrativo toda vez que Mr Robot assumia o comando permeou boa parte dos questionamentos dessa primeira metade da temporada. A noite do atentando não foi mostrada, diferente do que muitos esperavam, inclusive eu, apenas contada por relatos e subentendida no restante, e talvez nem precise. Depois desse episódio a principal dúvida foi esclarecida, e já me dou por satisfeito com a resolução se a série decidir não fazer um flashback. A esta altura devemos estar vacinados de resoluções, muito aqui é implícito, cabe a nós interpretar boa parte do que vemos em tela, se é real ou apenas delírio de Elliot.

                Sim, estou falando de sumiço de Tyrell, que perturbou a cabeça de todo mundo há um ano atrás. Naquele tempo não imaginaria que ele estivesse morto. Parecia muito promissor para acabar assim, pensei que ele tinha fugido e já imaginava ele e Elliot conduzindo toda a revolução nessa temporada. Mas como Mr Robot bem apontou, Tyrell iria trazer problemas. A partir do momento da pipoca o alter ego assumiu, livrando Elliot de todo o peso moral, consciência, já que Elliot é tão correto, e o criminal, provavelmente levando o corpo na mala para algum despacho, como mostrado na sitcom do subconsciente de Elliot. Demorou, mas chegou a confirmação do que se especulava desde o episódio que Elliot enfia a mão na pipoca para pegar a arma, com algumas pistas falsas no caminho, como a ligação de Paris, fruto de sua própria cabeça, além e todas as cenas com Joanna, que só estava ali para nos iludir achando que ele ia logo voltar, no começo até enganavam, depois viraram só aleatórias mesmo, não consigo ver uso nenhum do seu plot masoquista com boy magia servindo para a trama principal.  Outras pistas nada sutis, como a do cara no carro do episódio passado. Quando vi o episódio começando com ela torci o nariz, não aguentava mais enrolação, que bom que o produtor também sentiu isso, dando meio que um fim a seu plot com aquele papel de divórcio, e esclarecendo logo no começo. Isso já se preparando para dar outra revelação bombástica no final.

                Outra trama que aparentemente se concluiu foi a de Ray. Não tão satisfatoriamente como a de Tyrell, mas acho que ainda vão tirar pano de fundo daí, já que boa parte do que foi visto era uma ilusão. Camada de ilusão que Ray, assim como nosso protagonista, se utiliza bem, depois que o dinheiro começou a entrar, ele se perdeu, não conseguia viver com seus atos, Elliot que chega para quebrar esse ciclo de negação. Olha ao redor Ray, diz ele (para no final também podermos olhar ao redor junto com a câmera e ver as camadas de realidade se desfazendo). Mas o que não me desceu bem foi, se ele sabia que colocar Elliot no pc ia ser sua destruição, então porque diachos ele deixou Elliot voltar a programar. Sei que é porque nosso protagonista não pode morrer, assim acaba a série, mas no mundo real mesmo o certo seria Ray ter matado Elliot já naquela cela. Interessante o background do dialogo final entre eles, Ray, contrabandista de crianças imigrantes tinha uma bandeira dos EUA em suas costas toda vez que a câmera virava para ele, já Elliot tinha uma janela de onde saia uma espécie de luz, talvez Deus, como a moça da igreja bem percebeu.

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                Não pude deixar de sentir uma quebra de ritmo no episódio em si, quer dizer, começamos acelerados, com a revelação de Tyrell, depois uma baixada para concluir a trama de Ray, que não me empolgou muito, assim como a na igreja, que serviu para Elliot pedir ajuda a sua outra personalidade com o projeto que ele começara, o que já foi bastante trabalhado nos episódios anteriores, achei que já fosse página virada depois do abraço entre os dois semana passada, que aqui volta para oficializar o retorno dos dois e depois poder terminar com um bomba no colo. Ruim não foi, claro, longe disso. Apenas a sensação de um episódio preenchido com várias partes, retalhos, todas as tramas aceleraram mas faltou uma coesão e ligação maior entre todas. Foi como estar numa montanha russa, acelerar, dar uma freada, para depois deixar boquiaberto de novo.  Repito, não achei ruim ou estou reclamando, na verdade adoro montanhas russas, melhor que carrosséis.

                O mesmo pode ser dito com Angela. Começou me deixando tenso, apreensivo, a cada palavra e investida de Dom, eu sei sua história, mas com muito sangue frio e calma eu poderia dizer, apesar de sabermos como ela está se tremendo por dentro, encarou a agente concluindo assim sua missão iniciada semana passada. Depois foi só tristeza para ela. Primeiro esfregou na cara de Darlene que ela sabia estar sendo usada, e que era subestimada pelos dois irmãos, para depois ser subjugada pelo pai, perder a moral, ser rebaixada. Em sua cena com Pryce, que queria alguém para comemorar seu verdadeiro aniversário, mas foi rejeitado, a decepção dois e o quadro azul ao fundo me fizeram sentir como se eles, desnorteados procurassem um chão. Monstros sádicos também sentem. E enfim terminou num departamento inferior ao que estava só descendo mais de nível, acho que para dar uma descansada na sua imagem circulando pelo prédio, já que o FBI vai cair em cima dela. Aguardo mais detalhes dessa trama em breve, espero que não seja o fim de Pryce, e ele continue dando as caras até amarrar essas pontas entre ele, WhiteRose, Angela e Elliot.

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                E faltando uns minutinhos para o final, quando você acha que aconteceu tudo que tinha de acontecer, aparente calmaria, vem o ataque de Leon, que me deixou perplexo com suas habilidades com faca, além de se mostrar um aparente protetor de Elliot e talvez vigia do WhiteRose. Senti uma lealdade no ato, você ouve minha conversa chata sobre Seinfield, eu te salvo de uma surra e estupro. Corte para a cena de Angela, em que temos a citação de Pryce: faça o quiser com ela. Depois uma conversa com Krista, e pensei, a explicação vai ficar para a próxima, mas não, é nessa mesmo. Elliot não está na casa da mãe. Essa possibilidade foi comentada aqui, agora se confirma não sobre a forma de manicômio, e sim cadeia. Fiquei em choque quando soube. Mas tudo estava lá, na nossa cara, assim como na primeira temporada e suas pistas de que Mr robot era seu alter ego. Toda sua rotina fake. Os cafés todos os dias na mesma hora com Leon, (não coincidência ser negro, já que eles dominam as cadeias). Sempre que ele conversava com alguém, Angela, Darlene, Gideon, estas se passavam na sala da mãe, nenhum local aberto, ele sequer saia da vizinhança. Mãe esta que nunca falava nada, só fazia um barulho de silêncio e voltava a TV, o que devia ser uma guarda, assim como Ray devia ser também, algo como assistente social conselheiro, notem que ele sempre orienta Elliot, além de soltar nesse episódio: Eu achei que seria seu salvador. E a dúbia cena que ele engole cimento forçosamente, o que devia ser uma mediação que o deram na prisão. Enfim, tudo muito bem trabalhado, e lá, nos pequenos detalhes, para quem gosta de reparar em tudo, bem Clube da Luta mais uma vez, agora com seu jeito próprio. O que era referência na primeira, virou receita na segunda.

                Essa temporada tem batido na tecla de como a ilusão faz parte de realidade, e mais que isso, é necessária. Não somos muito diferentes dos loucos. Usamos dela todo dia, criamos situação que não existem, que não são exatamente daquele jeito, mas que em nossa cabeça soam melhor. Se adaptamos e apegamos aquilo para poder continuar. Em seus devidos graus, claro, podem ser uma boa ferramenta para podermos ver a vida e o mundo, quem não queria estar preso acreditando estar de férias na casa da mãe (bem a premissa de A Vida é Bela, recomendadíssimo aliás). Elliot talvez não tivesse conseguido lidar com a prisão nua e crua, assim como o fato ter matado alguém, sendo que ele tanto para ser uma pessoa boa. O mesmo vale para quando ele acreditou estar sendo seguido no metro por Mr Robot, tudo criado pelo seu cérebro para facilitar sua digestão do que ele estava criando. Questões bem abordadas sobre sanidade mental que o show trás.

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                Minhas descrenças se foram, e agora afirmo tranquilamente que está temporada está conseguindo manter o nível da primeira, a dupla premiere e o quarto episódio, no qual eu me senti voltando num ponto resolvido, foram os elos fracos que me fizeram questionar.  Com essa primeira metade encerrada, assim como o ciclo de aceitação do Mr Robot e situação do mesmo na realidade, não é a casa da mamãe, caminhamos para a metade final, próximo episódio serão esclarecidos mais alguns pontos dessa realidade alternativa criada, o que ele fez para estar ali, Tyrell? Além de sua soltura. Quero ver ele em ação e acho que daqui tudo pode acontecer. Não sei qual o próximo passo, mas além do FBI, Sam Esmail, produtor, deve ter outro palco a ser armado para a conclusão desse ciclo. E agora com a confiança de Elliot recuperada, mal posso esperar para ver onde isso vai dar.

P.S.1: O que será que tem amanhã pelo que Darlene e sua equipe viram no PC. Mais uma bomba? Provavelmente algum evento, ataque, não sei.

P.s.2: Reparem que Elliot diz que confia em nós, espectadores, e nunca vai esconder mais nada da gente, mas Mr Robot não fala nada, fica apenas calado, ou seja, lapsos na história ainda poderão acontecer.

 

Robson Abrantes
Robson Abrantes

Estudante de engenharia na semana, escritor wannabe nas horas vagas e sonhador integralmente. Nem de exatas nem de humanas, renascentista. Morando em Campina Grande. Reinventando-se desde 92. Inconformista. Cinéfilo. Cosmopolitan. Shitalker. Teve seu 1º contato com o mundo das séries nas madrugadas do SBT, e ainda segue agarrado a esse vício.
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