O que importa são as perguntas e não as respostas nessa loucura potencializada que é Mr Robot.

                Fim de temporada, com ele a necessidade de fazer um balanço geral do ano, se a série correspondeu às expectativas, se realmente cumpriu o que se propôs e simplesmente nos fez se divertir e passar o tempo sem muitas pretensões, o que influencia na decisão de acompanharmos a série por mais um ano ou não.

                Segundas temporadas têm responsabilidade dobrada, muitas séries não passam de one hit shot (aqueles cantores que só conseguem lançar só um sucesso, Rebeca Black, Luka, The Voice Br), e o que parecia promissor e diferencial no frenesi da novidade se torna comum e decepcionante. Muitas não conseguem segurar a onda, mas seria esse o caso de Mr Robot?

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                Não dá para negar que parte da magia anarquista revolucionaria cultura hack crítica ao vazio social capitalista que tão me encantou no show ficou pela primeira temporada. Gaps e esquizofrenia exacerbada ao limite deram o tom dessa segunda. Entendo as críticas, assim como quem prefere essa que a outra, mas depois de ver o todo não consigo deixar de achar que essa magia não conseguirá mais ser recuperada, principalmente quando eu olho o final da temporada passada, com fsociety ascendendo e tomando as ruas, além daquele discurso sobre realidade de Mr Robot na Time Square, e comparo com esse.

                Esse episódio inteiro, poderia se dizer a temporada o que justificaria todo o arco de Joana, foram baseadas na suposta existência de Tyrell. O fato de ninguém exceto Elliot falar com ele, a descoberta de que os presentes de Joana foram atos de vingança, tudo para segurar e nos enganar até o último minuto, sem dar certeza de nada, apesar de maior parte do tempo ter convicção de que ele era apenas mais um alter ego criado por Mr Robot (ou seria Elliot?) afim de suavizar e apresentar o andamento do plano a Elliot sem causar choque e fúria pela ocultação dos fatos. No momento que Tyrell está iniciando o hack aquele poderia ser Elliot em modus operante enquanto Mr Robot o distrai no fundo da mente, talvez pelo fato de saber que Ellliot não concordaria com o ato de matar centenas.

                A cena foi bastante perturbante nebulosa, como os créditos iniciais, tudo programada para nesse ponto nos sentirmos como Elliot, um louco de verdade, sem saber o que acredita, no que vê, seus sentidos te confundem e você não sabe mais distinguir realidade de um devaneio conflitante em sua mente. Um discurso bem interessante puxado por Elliot e trabalhado nessa temporada, o fato de que nem tudo que vemos é real, foi assim com a prisão, foi aqui. Esse conceito tem base filosófica budista por trás, bastante difundida e acreditada no Oriente, e simplificando sem querer limitar a isso, o mundo material como vemos é irreal por ser passageiro, ser feito da causa, que é o real, sem princípio ou fim, absoluto, universal, o Ser, a essência, Deus. É uma vertente bastante interessante e recomendo a pesquisa mais acurada sobre o tema a quem interessar.

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                Chegamos ao fatídico tiro com Elliot sangrando no chão e Mr Robot desaparecendo em imagens cortadas e eu ainda não acreditava naquele jogo, morrer, todo mundo sabe que ele não vai, já que a série é ele, e essa não é a primeira vez que Elliot é baleado por Mr Robot, só que, como seria muito frustrante vermos uma repetição da loucura trabalhado no início da temporada depois me convenci que aquilo tudo era real. Mas durante todo o confronto fiquei colado na ponta da  minha cadeira sem saber o que pensar. Angela apareceu no final para confirmar, agora sim alguém externo conversando com Tyrell, e pelo que deu a entender, ela sabe mais que a gente e do que demonstra, efeito do seu encontro com Whiterose. Já devem ser até best.

                Que ele sobreviveu já sabemos. Assim ficou para a próxima temporada o ataque, suas consequências, Pryce e Whiterose que não deram as caras nesse. O que também vai ficar para a próxima temporada é Dom. Não pera, ela veio nesse final.

                Pegou Darlene e tivemos uma sequência de ótimos diálogos, com Darlene fazendo o que ela sabe bem, ser uma vadia fria distante soltando tiradas para todo lado. Foi sua a melhor frase do episódio, uma real merecida a Dom. Como alguém ainda não tinha dito isso a ela antes? Tudo que ela quer e precisa, só que não, pode ser mulher também, não precisa ser só homem para satisfazer ela tá? O melhor foi sua reação momentos depois da frase, ri que nem ela, só que bem antes. Ponto para o timing de Grace Gummer.

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                Ela soube se defender bem dos ataques de Dom, para tudo tinha resposta, só não contava ela com o predador silencioso do FBI que trabalha meses e meses colhendo provas, fazendo ligações, sem dar sinal, de repente, bum, a casa cai. Ninguém imagina estar sendo investigado, mas Darlene também não precisa ficar de boca aberta, isso não era novidade para ela e para ninguém aqui, todo mundo sabia que o FBI estava juntando as peças, o que torna o clímax menos impactante, mas com a música escolhida certeira  aqui contrastando a revelação.

                Poderia ter sido melhor mais ação mais revelações sim. Teve sua carga dramática e sufoco, o que foi suficiente para alguns, mas não para todos. Se sustentar só a base de Tyrell não dá. Mas não dá para medir em níveis de respostas acontecimentos e ações, a série se sobressai é no formato, modelo, nas dúvidas que lança, nas pistas e subentendidos que deixa, ficando a nós livre acreditar e imaginar o que quiser.

                Saio desse ciclo satisfeito, consegui embarcar no contorno da temporada e gostei bastante de alguns episódios. Meus favoritos ainda estão na primeira, que considero impecável do começo ao fim, e talvez esse brilho seja irrecuperável, mas por enquanto para mim Mr Robot ainda está oferecendo serviço de valor e diferenciado, sendo minha presença garantida na terceira temporada ocupando mais um lugar na cabeça de Elliot. Quem vamos?

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Encerrando o Windows: É estranho pensar que depois de Elliot, Darlene e Dom, quem mais apareceu foi Joanna. Ela adora jogos psicológicos e não pode dizer que não viu aquela agressão vindo, o que não a deixa menos crua. E não, nem ela merece ser agredida.

Encerrando o Windows 2: “We are not special.” Darlene sendo o que espero dela, fatalista desesperançosa.

Encerrando o Windows 3:  Post-credits cenas, Treton e Mobley querendo desfazer as consequências de algo, com Leon chegando no final para usar suas habilidades na faca ou guia-los para outra fase? Teremos de esperar mais um ano para saber.

Encerrando o Windows 4: Desculpas pela demora da review, mas quando final de período aperta não tem cronometro da Whiterose que de conta do tempo. No mais muito obrigado pela presença semanal, e por me suportar nesse tempo como observador silencioso. Você viu isso também ou só eu?

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Robson Abrantes
Robson Abrantes

Estudante de engenharia na semana, escritor wannabe nas horas vagas e sonhador integralmente. Nem de exatas nem de humanas, renascentista. Morando em Campina Grande. Reinventando-se desde 92. Inconformista. Cinéfilo. Cosmopolitan. Shitalker. Teve seu 1º contato com o mundo das séries nas madrugadas do SBT, e ainda segue agarrado a esse vício.
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