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Mr. Robot – S04E12/13 – Who Am I/Hello, Elliot [Series Finale]

Goodbye, Elliot

Uma saga se concluiu, e é com muita euforia que venho até aqui me despedir dessa grande obra e compartilhar com todos vocês aquilo que eu absorvi dessa catarse, que foi o final de Mr.Robot. Eu diria que essa série funciona como um ensaio da mente humana, retratando toda complexidade que a mesma pode alcançar em uma escala imensurável de experiências.

Sam Esmail é uma pessoa que definitivamente levou toda sua experiência como diretor para essa obra, trazendo referências e esmero aos detalhes para a criação de uma abordagem única sobre a mente de uma pessoa afetada pelo mundo e por si mesmo. Nós, desde o início, acompanhamos Elliot Alderson em uma destemida jornada contra o mal, o 1% do 1%, contra aqueles que brincam de Deus as nossas custas. Através de todo o contexto e abordagem da série, podemos tratar essa como a principal metáfora da obra, mas a mensagem que o diretor guardou até o fim não é bem essa.

Precisamos então adentrar a mente de Elliot, para assim compreender o que de fato Mr.Robot significa. Mas como nós podemos fazer isso se somos meros espectadores? A resposta entregue pela própria série fará você repensar nisso.

A pessoa que acompanhamos durante toda a série é uma pessoa afetada que sofre de fobia social e paranoia, mas não somente isso, sofre também de transtorno dissociativo de identidade (também conhecido como transtorno de personalidade múltipla). Em primeiro momento imaginamos “Mr.Robot é uma das identidades que Elliot criou” e sim, isso já havia sido esclarecido para nós. Mas fugindo do sci-fi, que por muitas vezes achamos que Esmail nos jogaria, fomos apresentado a um mundo criado por Elliot e esse mundo nos revela toda a verdade sobre o protagonista, que é nada mais nada menos do que uma de suas próprias personalidades. Isso mesmo que você leu, você não entendeu errado, Elliot Alderson, o hacker da qual nós acompanhamos desde o início, é uma personalidade do verdadeiro Elliot Alderson.

Vamos explicar isso melhor, Elliot Alderson é “composto” por cinco personalidades:

  • Mr.Robot: Criada no dia do incidente da janela, quando criança, Elliot criou essa personalidade para o proteger. Por ser algo tão poderoso, essa personalidade acompanhou Elliot durante toda a jornada que nós conhecemos muito bem.
  • A personalidade de sua mãe: Retratada como a perseguidora, ela trazia todas as inseguranças e fraquezas de Elliot à tona.
  • O eu jovem de Elliot: Ele surge para enfrentar todo o abuso que as suas outras personalidades por ventura poderiam causar a Elliot.
  • Nós: Os espectadores, você, eu, todos que acompanham a jornada do “herói” de forma insaciável. A quarta parede, que desde o início era quebrada, era a forma com que uma das personalidades usava para se comunicar com a outra.
  • Elliot Alderson: A pessoa que acompanhamos durante toda essa jornada é a personalidade que traz toda a raiva, a tristeza, a angústia e o sofrimento do verdadeiro Elliot. Essa personalidade se tornou tão poderosa, que ela foi capaz de assumir o controle do verdadeiro Elliot, e o mandar para um ‘mundo’ que ele achava ser justo e ideal para si.

Sendo assim, durante quatro temporadas nós participamos ativamente da mente de Elliot, já que quase todo o momento nós nos comunicávamos com ele. Mas na verdade, estávamos conversando com uma de suas personalidades, o Elliot hacker e justiceiro que nos foi apresentado desde o início. Essa personalidade foi capaz de assumir o controle e até mesmo nos enganar, ao passo que se apresentou para nós, com tanta convicção, como real.

Uma pessoa seria capaz de fazer o verdadeiro Elliot despertar e voltar para o ‘mundo real’ deixando sua personalidade obscura para traz, e essa pessoa era Darlene. A relação intrínseca entre os dois irmãos era tão forte, que sua própria mente criou essa barreira impedindo que ela estivesse no mundo ideal, justamente porque não seria possível ela estar lá sem fazer Elliot se lembrar do mundo real. É uma decisão triste e difícil, ao passo que pode ser egoísta, mas no final, Alderson acaba escolhendo sua irmã a se entregar para a fantasia que ele mesmo criou para fugir da dor do mundo real.

Um detalhe que eu posso ainda chamar a atenção, é de que após toda a discussão para encontrar o verdadeiro eu, bem como a descoberta de que a personalidade hacker e justiceira de Elliot Alderson é uma criação, quase que em quadrinho, de um herói incomum, percebi que a face do verdadeiro Elliot na verdade pode nem ser a mesma que conhecemos, e duas coisas podem comprovar isso. A primeira é que a personalidade hacker é um desenho desenvolvido pelo original, logo elas se assemelham, e na visão da personalidade criada, eles são semelhantes, mas tanto Robot, quanto o próprio real Elliot não afirmam isso, já que o Elliot real em nenhum momento tem uma reação absurda quando encontra sua personalidade no apartamento. Depois temos a policial (que é a Dominique) encontrando o corpo do real Alderson, e ela estranha dizendo que não são a mesma pessoa. Logo após isso, não é mostrado novamente o real Elliot Alderson, deixando implícito que o real personagem na verdade é diferente da personalidade que acompanhamos desde o início.

Esses episódios finais foram repletos de referências, não só da própria série, fazendo alusões a acontecimentos anteriores, mas também a outros grandes produtos, como a cena de todas as personalidades encarando a cidade por uma grande janela de vidro, fazendo referência a clássica cena final do filme Clube da Luta (1999) ou então a personalidade hacker passando pelo corredor saindo da porta azul, e indo para a porta vermelha, uma referência a Matrix (1999) em que vemos Elliot saindo da ilusão (a porta azul) e indo para a realidade (a vermelha), como bem é descrita as pílulas que Neo deve escolher.

A jornada de Mr.Robot foi muito densa e complexa, e essa obra é fortemente uma das séries com a melhor complexidade narrativa já apresentada. Não só isso, o trabalho audiovisual aqui é estimulante e deslumbrante, seus personagens tridimensionais possuem uma forte complexidade, são multifacetados e carregam consigo uma aproximação com a realidade assustadora, e é por isso que Mr.Robot é uma série sobre as relações humanas, e sobre como funciona a nossa mente. Tudo aqui é repleto de emoção e sentimento, e somos vislumbrados desde o início a acreditar em uma inverdade, por mais que ela pareça fortemente uma verdade. Torcemos por ela, sentimos por ela, e isso é estranhamente excitante.

Acho que essa obra ainda deverá ser muito estudada e analisada, já que em todos esses anos, eu como um estudante e pesquisador da área de jornalismo e audiovisual nunca vi um estudo aprofundado sobre essa obra, e definitivamente ela merece ser melhor abordada. Meus palpites por aqui sempre foram, na medida do possível, engajados a tentar mostrar para vocês uma visão narrativa daquilo que eu absorvi lendo, mas há muito mais escondido nessa série do que “só o que encontramos por ai na internet”. É claro que tudo até aqui é válido, em todos os sentidos, mas Mr.Robot é grande demais para ser resumida em só isso. E é por isso que essa é uma das melhores séries que eu já tive o grande prazer de assistir.

Despeço então de vocês que acompanharam durante todo esse tempo minha jornada, como espectador, e quem diria, como um personagem, e agradeço principalmente a Elliot Alderson por permitir isso. Obrigado, amigo.

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Autor

Ricardo

Tem gente que diz que sou um amorzinho, eu digo que sou um trouxa. Viciado em maratonar séries e ficar na bad depois de assistir tudo em um dia. Amo muito música indie, quando quiser me chamar pra ouvir Florence já sabe onde procurar. Mineiro do interior que não puxa o 'r' quando fala, mas adora um pão de queijo.

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