24 de outubro de 2016
#NowPlaying: The O.C.

A percursora do indie como mainstream.

Quando se fala em boa trilha sonora, impossível não vir The O.C. a cabeça. E nossa, como ela é importante. Uma boa música na hora certa vale por mais que mil palavras ou exteriorizações. Quando bem utilizada, pode gerar cenas inesquecíveis de lindas, assim como aumentar o nosso repertorio musical nos levando a conhecer artistas que nunca ouvimos falar para depois de uns plays virarmos fãs. Aqui é o caso.

Até o começo dos anos 2000 era inadmissível numa serie, ter a cena falada com música de lyrics rolando ao fundo. Ou fala ou ou toca, simples assim. Algo banal e basic hoje em dia, veja só. O.C. começou a utilizar o recurso, e muito bem obrigado. Viram o poder dessa arma (quem nunca observou de longe o crush caminhando na saída do colégio enquanto em sua cabeça toca toda uma trilha) e tornaram o indie um personagem principal da série. Tão importante quanto qualquer outro.

A série foi inovadora e serviu de referência as posteriores. Antes dela o cenário televiso não investia em trilha sonora, e quando colocava alguma era aquela já conhecida, top 40, sem grandes riscos ou diferenciações. Nada demais. Com O.C. a coisa mudou, seus episódios lotados de músicas, três ou quatro no mínimo por, não meramente encaixadas, mas muito bem aproveitadas para causar todo tipo de sensação.

Talvez por todo seu frescor e não convencionabilidade no repertorio. A série trouxe seu nerd Seth à principal mais amado e junto com ele sua playlist indie renascentista, com direito a indicações de Death Cab for Cutie a Ryan (se fosse depender do gosto dele estaríamos fudidos, o que me levou a perguntar, o que será que Marisa ouvia, Lana del Rey?).

Outro detalhe do começo dos anos 2000, é que a não tinha Itunes, Spotify e Youtube para indicar e achar artistas novos a partir de seu gosto. A gente tinha rádio, Kboing e Myspace. Para adolescentes sedentos por música nova, faltava algo. Um fator propulsor para avançar nas descobertas musicais. E apesar de contar com toda a internet ao alcance, sem saber por onde começar, não se dá muito para sair do mesmo lugar.

Josh Schawrtz, produtor, junto com Alex Patsavas, trilha sonora, caçavam bandas novas, sem nenhum single descoberto, e lançavam ao grande público, tipo uma rádio mesmo. Um ótimo marketing para os dois lados, a banda divulgando seu trabalho, e os produtores, sem pagar caro por isso, já que estavam oferecendo uma oportunidade. Eles jogavam música em sua cara sem se importar se você ia gostar ou não, se você estava por dentro do Block Party ou não. Você ouvia o nome Dath Cabe for Cutie num episódio, na outra semana eles estavam no hot 200 e um ano depois ganhando álbum de Platina e Emmy. Outra que também soube dar o pulo foi The Killers, descolou sua carreira de lá.

Nesse tempo o indie era underground meio desconhecido e pouco difundido no meio musical. Olha antes de 2003 e olha agora. Passou de underground para mainstream. Estilo predominante e bastante comercial na música atual. Temos indie no top 1 Billboard e festivais como Lolapalooza. Vai esse ano? Agradeça em parte a The O.C.

Sem esquecer o legado do lançamento de singles por meio da TV. Hoje em dia tudo vaza, mas naquele tempo tivemos que esperar o episódio da semana para poder ouvir a nova do U2 e Coldplay. Beck, hoje Emmy-winner, foi particularmente generoso e lançou CINCO músicas de seu álbum inédito em um único episodio. Visual Album vanguardismo.

O último álbum lançado de O.C. foi um mix com músicas covers que foram exibidas no show e outrora eram desconhecidas. É o show se despedindo e mostrando sua importância e poder.

Quer mais exemplos de como O.C. mudou o jeito de fazer cinema com trilha sonora? Olha Shrek, Juno e 500 Dias com Summer. Filmes de sucesso em que a trilha alternativa tem papel de destaque.

Muitas até hoje tentam e não conseguem atingir esse cardápio. Aprende aqui Globo. E para comemorar essa semana que The O.C. chegou na Netflix nada melhor que relembrar alguns dos momentos e músicas marcantes da série. Digo desde já que foi um prazer revisitar essas bandas e readicionar alguns artistas a minha atual playlist. Lá embaixo você confere a do Spotify.

A crítica da série como um todo você pode conferir aqui.

California – Phantom Planet

Para começar nada melhor que essa, a qual tanto ouvimos no início de todo episódio. A música é boa e pega de primeira. Você via a chamada do SBT e já saia cantando pela casa, Californiiiiia. Aposto que só a música (Ben também) foi o bastante para que muitas pessoas ficassem curiosas e interessadas pelo show, assim como fiquei. E não estava errado. Assim como a música de abertura, a série é um todo de bom gosto.

Hallelujah – Jeff Buckley

Aqui uma música que O.C. eternizou e sempre que ouço me faz lembrar a série, por tê-la apresentado. Agora Justiça trouxe a música nas chamadas de seu intervalo convergindo uma multidão de fãs para a série, mas O.C. já fez isso a quase 15 anos atrás. Logo no segundo episódio, sem essa de guardar para momentos mais importantes e me fazendo chorar litros na ocasião. Eu simplesmente não posso com essa música. Demais para mim. Tocando logo no momento que Ryan pede para Marisa ir embora por não poderem os dois ficarem juntos. O começo de muito drama e separações. Aí já tinha dado para perceber as armas que a série tem. Maior parte pode se lembrar da música pelo final da primeira season, onde ela foi imortalizada de vez, gerando um arco de simetria entre o começo e conclusão. Além de ser tocada uma terceira vez na controversa cena da terceira temporada, dessa vez na voz de Imogen Heap.

– Paint the Silence – South

O apelo aqui não é tão grande quanto nas duas de cima. Essa música é menos identificável de cara, mas não menos maravilhosa por isso. Para o momento do primeiro beijo tinha que ser algo novo inesquecível e marcante. Essa música cumpre todos os papeis, além de não ir por caminhos óbvios numa cena que talvez fosse o mais apropriado afazer.

– Dice – Finley Quaye

Gente, que foi isso. Me explica. A esse ponto a serie já tinha criado vários momentos e músicas inesquecíveis, mas esse ela foi mais fundo. Ano novo. Eu te amo não correspondido no momento. Marisa numa festa magoada, o ano virando e Ryan correndo para se declarar em câmera lenta como se sua vida dependesse disso. Eu fiquei pulando da cama e gritando para ele chegar logo a tempo, haha. Além de rever a cena e ouvir essa música mais umas cem vezes depois disso. Aqui a série mostrava ter dominado a arte de música+momento, só aprofundando mais daí.

– Something Pretty – Patrick Parr

Quem não curte uma boa declaração de amor juvenil para o colégio todo ver em cima da barraca do beijo. Ain gente, e a dúvida se Summer ia subir e assumir o amor por Seth ou não? Senhor, mas com um ato tão romântico e fofo como esse eu daria na cara dela se ela o rejeitasse. A música ao fundo não poderia ser melhor, bem amorzinho cute. Deixa qualquer in love. Veja, ouça e fique com os olhos em forma de coraçãozinho.

– Wonderwall – Ryan Adams

A versão orginal é classic irretocável. Aqui ganha uma repaginada que dá uma profundidade e melancolia maior a música. Sempre bom ver boas regravações dos modões, então tá valendo.

– If You Leave – Nada Surf

Uma música que veio do desconhecido direto para meu coração. Essa música me lembra despedidas, encerramentos, partida. Com o título Se Você Partir a música tocou em mais um momento inesquecível da série. Anna, uma das personagens mais queridas partindo e Seth correndo para dizer tudo que sente. Cena perfeita, música mais ainda. Outra que chorei horrores sendo boa parte culpa dessa trilha. Tocou muito no meu repeat, fazendo bater aquela saudade gostosa de algum amigo pessoa importante que partiu, mas que deixou lições preciosas assim como me ajudou a crescer bastante. A música pede, implora, por favor, não parta, não quebre meu coração, mas a própria faz isso com a gente.

– Maybe i’m Amazed – Jem

Heartbreak tem nome e sobrenome. Só nome quer dizer. Jem. Numa das primeiras aparições de artistas na série, Jem veio com essa versão do clássico de Paul, que é impossível não atrelar ao show. Assim como é impossível não ter chorado nesse momento. Marisa se despendido de Ryan no que pode ser seu último encontro, sendo claro que os dois ainda se amam, e Seth prestes a fazer uma das maiores besteiras em fugir. É drama adolescente dos melhores.

– Smille like it Mean It – The Killers

Olha só esse Brandon Flowers no início de carreira, bem menino ele. Quem diria que daí viria o estrondoso sucesso. Relevem minha parcialidade fã da banda e do episódio e aproveitem essa música apesar do momento não ser tão marcante. A performance ao vivo saiu num encontro às cegas de Ryan e Alex, Seth e Lindsay, o que para mim é mais que suficiente para estar aqui.

 – Sometimes you can’t make it on your own – U2

De título enorme a música foi escolhida para ser lançada pelo U2 no episódio 2×4 The New Era. Olha o poder da série. Isso mesmo, U2. Veio num momento de mudança, novos ares, cada um como um novo par num final bastante promissor.

 – True love will find you in the end – Beck

Só o titulo da música merece atenção. Gente, que hino da desilusão. Outra música que me faz chorar horrores. Engraçado que ela passou despercebida por mim em O.C., nem dei conta. Só em Medianeiras (filme argentino de 2011, vejam por favor) que reparei na música. Amor a segunda ouvida. A música tem um quê de desilusão e ao mesmo tempo esperança, mensagem linda de aceitação com o som de uma gaitinha ao fundo. Se me perguntarem uma das músicas que mais me identifico essa tá na lista fácil. Talvez no tempo de O.C. eu não estivesse pronto para ouvir e gostar completamente da música. Que bom que ela me conhece tão bem a ponto de se antecipar a meu gosto. Isso que é conhecer os fãs e mandar presentes afterlife.

 – Lack of Colour – Death Cabie for Cutie

Para Summer pode ser só uma guitarra com letras sobre solidão, mas quem precisa de mais quando os versos trazem a poesia: você pulou as aulas mais cedo e nós aprendemos como nosso corpo funciona. Só adolescente mesmo consegue ouvir essas músicas e não chorar por um pouquinho. Outra banda que O.C. me presenteou e me levou a acompanhar todo seu trabalho posterior, que é muito bom por sinal.

– Chapagne Supernova – Oasis

Talvez a mais popular dentre os presentes, dispensa apresentações. Não podia ficar de fora por ter marcado um dos melhores momentos da série com essa música. De dar inveja a qualquer Tobey Maguire e Kirsten Dust. Vale a pena estuprar o replay da cena.

-Fix You – Coldplay

Poucos sabem, mas na série que a música foi lançada.  Eu me incluo nessa lista, ouvi a música bem antes de começar a ver a série, e foi aquela coisa, paixão na primeira nota. A música é impecável, balada mais linda e poderosa da década. Outra amostra de como bons momentos aliados a música certa podem fazer a cena inesquecível. O baile, Seth se acertando com Summer, Marisa desamparada, Ryan chega, o ataque de Caleb, Julie o salvando, tudo perfeito. A música é bastante conhecida e popular, mas para quem viu na série, é impossível não remeter a esse final emocionante.

– Hide and Seek – Imogen Heap

Gente, que final. Que musica. É O.C. trazendo o conceitual alterna diferentão para o popular. Toda essa progressão de cenas foi inesquecível, vi, revi vezes o infinito. Surpreendente, emocionante e aterrador. Quando a música entra podemos sentir com algo que nunca sentimos, a música traz isso de tão única. Perfeita para dar o peso e clima necessário. Em que outra serie você esperaria ver esse tipo de música no season finale? Palmas lentas para toda essa produção. Ao fim corri para saber que banda era essa pelo amor de Deus e fui logo baixando o álbum, o qual ouvi por meses interruptos. E a participação da banda não se resume aqui, tiveram outra, Goodnight and Go, que você pode achar na playlist lá de baixo.

– Forever Young – Youth Group

Aqui na terceira temporada começam as vacas magras de música na série. A trilha continuou forte, mas a inspiração ou orçamento diminuíram. O que não impediram boas escolhas como essa. Outro classicão repaginado por uma banda mais atual, Sonic Youth. Traz um saudosismo dessa etapa que você nem saiu mas sabe ser a melhor de todas por algum motivo então desconhecido. Hoje eu sei porque. Afinal quem não queria ser para sempre jovem Engraçado foi, ao ouvi-la depois, ver que minha mãe também a conhecia dos tempos de colégio.

 

-Paranoid Android – Sia

Antes da Sia sair do cativeiro e conquistar o mundo, ela que não é boba, deu uma passada em The O.C. para deixar sua participação na série referência musical antes que esta acabasse. Esse cover maravilhoso do Radiohead aparece num mundo paralelo onde Ryan não existia, e quando pesávamos que ele ia encontrar Marisa, vem essa música e triste notícia que ela morreu em Tijuana. Alguns não conseguem passar dos 27 e Marisa é uma dessas. Obrigado Sia. Obrigado O.C. por ter me presenteado com essa cantora maravilhosa nos primórdios de sua carreira. Sem esquecer Six Feet Under finale claro.

– End is not near, it’s here – Band of Horses

Outra banda que passou direto da série para lista de downloads do meu Ares. O título é outra lapada, tanto que foi escolhido para dar nome ao series finale. Quem não fica triste com a iminência do fim de algo que gostávamos?

– Life is a Song – Patrick Park

A música escolhida para encerrar a série representa bem o que ela foi. Uma de nossas vidas, um sonho distante agora, uma música, em sua felicidade e as vezes estranheza, na qual estamos com medo de cantar sozinhos até o final. Música é uma das melhores coisas que existe na vida, tem o poder de transformar um dia, te transportar no tempo, te alegrar, entristecer, pular, dançar, gritar e te compreender como ninguém. A vida poderia ser considerada uma música. Uma trilha sonora. E a minha está muito mais bem embalada e representada com esses presentes de O.C.

Bônus Track: We Used to be Friends – The Dandy Warhols (música famosa pela abertura de Veronica Mars e lembrar um pouco no título sua irmã pop Somebody I Used to Know, Gotye); Float On – Modest Mouse (música ótima, apareceu no show sob a forma de um corver, que não gostei muito pelas mudanças de ritmo, vai a original); Lover I Don’t Have to Love – Bettie Serveert (de pegada gostosa, foi responsavel por um dos momentos mais quentes e sensuais da série na pegação de Marisa e Volchock, delícia, no outro dia acordei desnorteado que nem ela); Goodnight and Go – Imogen Heap (outras deles porque sim).

P.S.: Gente, apesar do texto enorme, desculpem a empolgação, é impossível cobrir todos as marcantes, então desculpem eventuais injustiças. Prezei pelos maiores sucessos e as que mais marcaram, in my opinion, o que varia de cada um para cada um, se por acaso estiver faltando alguma, joguem nos comentários suas favoritas.

 

 

 

 

Robson Abrantes
Robson Abrantes

Estudante de engenharia na semana, escritor wannabe nas horas vagas e sonhador integralmente. Nem de exatas nem de humanas, renascentista. Morando em Campina Grande. Reinventando-se desde 92. Inconformista. Cinéfilo. Cosmopolitan. Shitalker. Teve seu 1º contato com o mundo das séries nas madrugadas do SBT, e ainda segue agarrado a esse vício.
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