23 de junho de 2016
Panela Velha: Fringe

Chegou a hora de falar da ficção-científica sobre o amor.

Quando comecei a ver Fringe, a série era só um amontoado de casos da semana bizarros e aparentemente sem nenhuma ligação entre eles. Minha vontade de continuar com ela era bem mínima mesmo, os motivos que me levaram a fazer isso foram duas coisas bobas como “casos bizarros demais pra abandonar” e “a trilha da abertura é ótima”. Nunca pensei que duas razões tão fúteis como essas me proporcionariam uma das séries mais especiais e lindas que eu já tive o prazer de ver.

Durante seus 100 episódios, somos carregados por uma história que te prende pelos mistérios, que te conquista pelos personagens, que te chama a atenção pela inteligência do todo, que te proporciona vários twists de explodir cabeças e que, antes de tudo, te emociona pela humanidade apresentada na história de cada personagem. O desenvolvimento dela é tão, mas tão genial que não há quem chegue no final da segunda temporada sem olhar para trás e se questionar se era a mesma série da primeira temporada. E o mesmo vale para o restante das temporadas, pois o avanço é tanto que ficamos boquiabertos diante do que nos é apresentado a cada episódio.

E para relembrar o quão excelente esta série foi, irei dividir este especial em 5 partes: um para cada temporada. Como é inevitável, cada uma dessas partes terá spoilers de sua respectiva temporada, então se você ainda não viu a série e não gosta de spoilers eu sugiro… Como assim você ainda não viu Fringe? Por favor, veja logo e volte para ler este post assim que possível! Vamos falar da série logo, então?

SEASON 1

Season 1

Começando com um ambicioso piloto de 1h e 20m, Fringe já desde o início se destacou pela sua qualidade técnica e pela bizarrice de seus casos. Indo de ter o cérebro da vítima liquefeito por um vírus de computador até o fato de um cara se jogar do alto de um prédio porque foi atacado por borboletas cujas asas eram lâminas e o cortavam, cada um desses casos tinha uma trama intricada e pincelavam aqui e ali que havia uma trama maior e mais intricada por trás daquilo (e há!). Mas é quando focava em desenvolver a trama central que a série empolgava mais.

Em uma breve sinopse da temporada: conhecemos a agente do FBI Olivia Dunham que entra para a Fringe Division, um departamento policial responsável por investigar casos de anomalias científicas, e acaba tendo que pedir a ajuda do excêntrico cientista Walter Bishop para essas investigações. Para isso, ela precisa solicitar ao filho dele, Peter Bishop, que o retire do manicômio, pois ele é o único que pode fazer isso. Pois bem. Isso resume relativamente bem a premissa da série e é um ponto de partida que permite aberturas o suficiente para uma exploração ótima do material.

Aqui descobrimos que Walter fazia testes com uma substância chamada cortexiphan em algumas crianças nos anos 80, descobrimos que Olivia era uma dessas crianças e que essa substância permite que essas crianças tenham algumas habilidades especiais e que Olivia era uma das mais avançadas com essas habilidades. Por causa disso, um cientista chamado David Robert Jones está interessado em ter Olivia em seu lado para quando ele atingir seu objetivo, que nunca fica exatamente claro nessa temporada. Também descobrimos que existe outro universo, que é semelhante ao nosso mas com algumas diferenças pontuais, que Olivia pode viajar entre os dois universos devido ao cortexiphan e que Peter Bishop morreu em 1985. Mindblowing!

É com essa trama complexa que Fringe tem início, em sua temporada menos “mitológica” e repleta de fillers. E olha que nem falei dos observadores, que são criaturas que testemunham cada um dos grandes acontecimentos da humanidade, o que no caso da série significa “grandes tragédias”. Um início imperfeito, com um potencial não aproveitado totalmente, mas completamente cativante.

Melhores episódios: 1×14 (Ability), 1x 15 (Inner Child) e 1×20 (There’s More Than One of Everything).

SEASON 2

Season 2

Ao contrário da temporada inicial, o começo dessa é bem lento e com casos não tão bizarros e/ou interessantes quanto aqueles vistos no ano anterior. É como se eles estivessem testando a nossa paciência para ver até onde a gente aguenta ficar sem respostas, porque não tem sentido nenhum esperar 13 episódios para começar a desenvolver a trama central. Mas quando chega lá, abaixa que é tiro!

Descobrimos aqui, através de um episódio onde um vírus altamente contagioso infecta Peter, que Walter não pode deixar Peter “morrer novamente”. É através desse detalhe, de uma pequena frase dita para Astro, que desencadeia uma série de acontecimentos que nos trazem respostas, mas que enchem nossas mentes de perguntas. Em um caso que onde o outro universo (que a partir de agora chamarei de “lado B”) ameaça colidir com o nosso (que chamarei de “lado A”), vemos que Olivia possui a capacidade de reconhecer o que é do lado B através de um brilho quando ela está com medo, o que a tornar capaz de resolver o caso da semana, mas que também faz com que ela descubra que Peter é, na verdade, do lado B e não do A.

Só então descobrimos o que aconteceu: tanto Peter do lado A quanto o Peter do lado B sofriam de uma doença e estavam morrendo. O Peter do lado A é morre por causa da doença e Walter do lado A então assiste todos os dias, por uma tela que permite ver o outro universo, os testes que o Walter do lado B fazia para tentar encontrar a cura, só que quando ele finalmente encontra, alguém o atrapalha e ele não vê que encontrou a cura. Decidido a não deixar o outro Peter morrer, Walter cria uma máquina que abre uma brecha entre os universos e ele viaja entre os universos com a cura para pode salvar o outro Peter. Para não narrar tudo, afinal isso não é um post descritivo: no fim, Walter acaba tendo que levar Peter para o lado A para poder salvá-lo e não consegue cruzar entre os universos novamente e que, por isso, ele criou o cortexiphan: para encontrar alguém que pudesse atravessar o universo sem afetar ainda mais a estrutura entre eles.

Além disso, pela primeira vez cruzamos para o lado B no presente e vemos as versões alternativas de Olivia, Walter, Broyles e Astrid e descobrimos que o fato de Walter do lado A ter atravessado o universo prejudicou o lado B de maneira quase irreparável. Isso sem falar que terminamos a temporada com uma troca de Olivias, onde a do lado B se infiltra no lado A e a do lado A é sequestrada e fica presa no lado B.

Para encerrar os comentários, Fringe entrega aqui aquele filler que é até hoje o melhor filler que uma série já teve, pois White Tulip é tão sensacional e marcante que até os produtores referenciavam esse episódio sempre que podiam nas temporadas futuras.

Melhores episódios: 2×16 (Peter), 2×18 (White Tulip) e 2×21/22 (Over There part 1/ part 2)

SEASON 3

Season 3

Vocês tem ideia do que é uma série ter uma temporada de 22 episódios e nenhum deles soar minimamente dispensável ou encheção de linguiça? Se não sabem, lhes apresento a terceira temporada de Fringe, que é uma das temporadas mais perfeitas que uma série de TV já proporcionou. A temporada dá passos largos na trama central, desenvolve excelentemente a dinâmica entre os dois universos, explora muito bem a relação entre Peter e Olivia e apresenta a “máquina do fim do mundo”, que é uma das mais empolgantes que já vi.

No início da temporada, vemos as duas Olivias se adaptando em cada um dos universos e vemos a do lado A tentando voltar a qualquer custo para o seu universo e a do lado B transmitindo informações para o seu universo. Essa dinâmica tem um fim num episódio sensacional que se passa nos dois universos e é capaz de deixar qualquer um tenso, assim como abre espaço para uma sutileza que mostra como a Olivia de lá afetou as relações no lado A. E o episódio “Marionette” é essencial por esse motivo: mostra o quão Polivia foi abalado por ela, o que gera uma das cenas mais emocionantes do casal.

Já a segunda parte da temporada tem como pilar principal a “máquina do fim do mundo”, que foi criada pelos “primeiros humanos” com um objetivo desconhecido e que Peter pode ativá-la. Aí vemos que a outra Olivia ficou grávida de Peter e deu luz à um filho (Henry) e que o Walternate (nome carinhoso que os fãs deram à Walter do lado B) aproveitará-se dessa criança para tentar ativar a máquina do seu universo. Pois bem, como para ter que falar de cada coisa eu precisaria de uma bíblia, só me resta dizer que a reta final dessa temporada, especificamente os últimos cinco episódios, são alguns dos mais eletrizantes que já vi. E terminar uma temporada com os observadores dizendo que “Peter Bishop nunca existiu” é um tiro do qual jamais me recuperarei.

Melhores episódios: 3×08 (Entrada), 3×19 (Lysergic Acid Diethylamide) e 3×22 (The Day We Died)

SEASON 4

Season 4

A temporada mais “solta” da série é uma que pouco me dá vontade de comentar porque há quase nada de relevante. Além de desperdiçar um cliffhanger sensacional com um senso de romantismo excessivo, é uma reprise do que vimos na season 1 com o acréscimo de que agora sabemos o que David Robert Jones tinha como objetivo: a destruição dos dois universos para a criação de um novo.

Aqui e ali temos um vislumbre da Fringe que amamos, mas num geral, apenas alguns casos inspirados conseguem se sobressair, como aquele em que a Astrid do Lado B visita o lado A (e a reação de Astral quando a vê é impagável!) e como aquele em que um casal fica preso em um lopping temporal que causa desastres ao redor da cidade. É claro que não posso esquecer do episódio que os dois universos precisam se separa em “definitivo”, que é um dos momentos mais emocionantes da série, mas ainda assim a temporada é definitivamente um passo equivocado (tenho certeza que o 4×19 é uma finale antecipada por causa do iminente cancelamento na época, porque ele tira qualquer tensão que a finale poderia ter de fato), principalmente depois de algo tão único e sensacional quanto a season 3.

Melhores episódios: 4×12 (Welcome to Westfield), 4×19 (Letters of Transit) e 4×20 (Worlds Apart).

SEASON 5

Season 5

A menor das temporadas é a mais intensa da série. Com o fim chegando, cada episódio ganha um sabor de nostalgia e urgência que é cada vez mais palpável. É difícil assistir essa temporada e não relacionar com tudo o que vimos nas temporadas anteriores (too much references) assim como é impossível terminar de assisti-la sem ter a sensação de “missão cumprida” ou de que os roteiristas tinham tudo planejado desde o início, o que eu duvido muito.

Aqui temos Polivia recebendo seu desenvolvimento final e tendo uma filha, Henrietta, que serve para ser a motivação final dos dois na luta deles contra os observadores. Após a morte de Henrietta, vemos o quão diferentes são Olivia e Peter e o quanto eles se complementam, e a cena final do episódio “The Human Kind” é a prova disso. Mostrando que, mesmo que os dois sigam caminhos diferentes e tomem decisões diferentes, no final eles acabarão juntos. Sou muito Polivia shipper sim.

No entanto, a temporada é de Peter e Walter. Tudo isso se deu origem através de um pai tentando salvar seu filho, então nada melhor do que terminar focado na relação entre os dois, não é mesmo? Uma relação tão bela, delicada e problemática que teve um dos fins mais lindos possíveis. Até hoje não consigo rever a cena de “You are my very favourite thing, Peter” sem desidratar de tão forte que a cena é e de tão sensacionais que são os trabalhos de Jackson e, principalmente, Noble naquela cena.

Uma temporada de adeus completamente emocionante que dá aos personagens, inclusive àqueles do lado B, um fim digno. Encerrar o contato com Broyles, Nina, Afro, Peter, Olivia e Walter foi uma das coisas mais difíceis que já fiz, se tratando de uma série, e um dos fins mais incríveis que já presenciei na TV. Sensacional é dizer o mínimo.

Melhores episódios: 5×04 (The Bullet That Saved the World), 5×06 (Through the Looking Glass and What Walter Found There) e 5×13 (An Enemy of Fate).

Nem tenho mais palavras pra dizer sobre o quão maravilhosa foi a experiência de acompanhar Fringe e torcer pelos seus personagens, então encerro esse texto de maneira minimalista e parafraseando Walter: you are my very favourite thing, Fringe. My very favourite thing.

PS: Sei que deixei de lado muita coisa, mas eu precisaria de cem reviews para falar de tudo, então foquei no principal.

PS2: Quem sacou o esquema de cores no nome de cada temporada? o/

Ícaro
Ícaro

Cinéfilo de carteirinha e atual professor de Herbologia em Hogwarts, tem a escrita como uma de suas paixões e acha que o mundo seria um lugar melhor se as pessoas não ligassem tanto para a opinião dos outros.
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